O foda-se já nasceu certo.

Este texto é uma continuação de “O Amor já nasceu errado

Seria trágico se não fosse cômico, ou seria cômico se não fosse trágico, ou seria chato se não fosse o Faustão. O fato é que o Brasileiro coloca, em sua fala, verdades obscuras as quais, de tão obscuras, precisam ser escondidas em meras mensagens subliminares no meio de palavras — e por isso são tão obscuras, como já dito (duas vezes).

A verdade de que o amor está errado, por exemplo, ao proferirem o saudoso — e maléfico — “Te amo”, escancarando no nariz de todos aqueles que tem nariz — perdão Voldemort, ou Aécio — que o Amor nasceu errado no momento em que colocaram o pronome oblíquo no começo da frase; fazendo com que a cueca de Machado de Assis fique mais apertada e aparente marcas na cintura dele que, mais tarde, podem necrosar e fazer com que ele tenha que amputar o tronco — sobrando apenas os braços, pernas e barba. Obrigado, brasileiro, por errar com “te amo” e matar o tronco de Machado!

Mas veja só, o erro no Amor já é conhecido por quem me lê — ou por quem tem entre doze e setenta e quatros anos — então não há novidade alguma em dizer que a paixão está errada (não apenas por ser uma paixão, mas por destruir a língua advinda do Latim). A grande novidade de verdades que o brasileiro escancara na língua é a seguinte: “Foda-se”.

Quando não liga para algo, ou tenta fingir não ligar, ou quando dizem para “não urinar nesse policial aí na sua frente” o grandiosíssimo brasileiro solta em alto e bom som, com o peito estufado, o: “Foda-se”. As consequências? Pouco importam! Seja um coração desiludido, seja uma mente arrependida ou um policial todo mijado te prendendo, a consequência não é importante para nossa análise, mas a gramática sim.

O grande fato curioso é que para o amor erramos a próclise, para o “foda-se” não. O amor está errado, o sentimento de sermos dono de nós mesmos (ou do mundo) está certo.

O Brasileiro desenvolveu em sua linguagem o artificio que nos faz estar anos luz a frente de qualquer outra civilização: o erro seletivo, que nos possibilita expor o que ninguém quer ver:

Que o amor está errado (Te amo) e o sentimento de “pense no agora e não no depois” (foda-se) está certo. O arrependimento pode vir, mas não virá na mesma intensidade que uma lágrima vem. O engraçado é que o “foda-se” vem, 70% das vezes, antes do “te amo” — e, nos outros 30%, vem depois. Mas tudo bem, ainda está valendo.

Machado de Assis pode manter sua cueca larga graças a capacidade de dizer “que se exploda o mundo” da maneira correta, pelo menos na gramática.

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(Texto de Noedir Ferrara Jr., escrito em 29/07/2017)
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