O caso do artista que não existia: a esquecida arte da apuração no jornalismo cultural

Por Rafael Gloria

Ninguém lembrou, mas agora no início de janeiro completou dez anos de um caso que ainda é muito atual e serve para ilustrar o estado do jornalismo cultural praticado pela maioria dos veículos de comunicação brasileiros. Lá na primeira semana de 2006, as editorias de cultura dos dois principais jornais do estado do Ceará, Diário do Nordeste e O Povo, receberam via e-mail um release sobre a exposição do “famoso artista plástico japonês Souzousareta Geijutsuka”. Supostamente, seria sua quarta participação em eventos no País e a primeira no Ceará, onde iria expor no Museu de Arte Contemporânea, vinculado ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. O tal artista foi capa dos jornais, deu entrevista, foi amplamente divulgado, o problema todo era que….ele não existia.

O trabalho foi criação do artista plástico paulista, radicado no Ceará, Yuri Firmeza. O próprio significado do nome Souzousareta Geijutsuka significa “artista inventado” em japonês. Um dos objetivos era justamente esse: testar os limites institucionais entre museu, artista, e público. Para isso, Firmeza contou também com o envolvimento o diretor do museu, assim como a curadora e do pessoal que fez a divulgação. Tudo isso ajudou a “legitimar” a pauta em frente aos veículos de comunicação da região, que também não se mexeram muito para ver se o tal artista famoso e genial realmente existia. Quem quiser saber mais sobre esse interessante caso pode clicar neste artigo em que eles explicam detalhadamente, além de analisarem de forma bem eficaz a situação.

Dez anos depois não dá para dizer que muita coisa mudou na área do jornalismo cultural dos grandes veículos — ainda mais com o crescimento da internet, em que tudo fica ainda mais rápido, mais fluido. Agora há pouco aconteceu algo interessante. A banda Foo Fighters informou que iria fazer um anúncio no final do dia, o que levou a diversos sites noticiarem que poderia se tratar de uma separação oficial da banda — o que, veja só, não foi indicado em nenhum momento pelos membros. Chegada à noite, o canal oficial do conjunto lança o tal anúncio em formato de vídeo no Youtube. O que se vê é uma grande piada. Logo no começo do vídeo são exibidas diversas manchetes de portais que praticamente afirmam que eles vão se separar. Em seguida, ainda em tom de humor o pequeno curta mostra Dave Grohl pensando em seguir carreira solo, enquanto os outros membros procuram um novo vocalista. No final aparece escrito no meio da tela que eles não vão se separar e que ninguém iria seguir em carreira solo. Obviamente uma tiração de sarro com essa imprensa que atiça e quase que inventa fatos e citações ao invés de realmente apurar o que está acontecendo.

E é esse um dos principais problemas do jornalismo que cobre a área cultural e agora também com muita mais força o entretenimento: a falta de apuração. Ou melhor, o abandono de pautas que carecem de mais investigação em favor do conteúdo advindo apenas dos releases e das assessorias de imprensas dos diversos agentes do campo. Sei que é o trabalho delas e que é um setor organizado, mas também é trabalho do jornalista de veículo, do repórter, apurar a sua pauta, ir além do que lhe é indicado pelas assessorias que tem o interesse de ver seus clientes ocupando aquele espaço. Logo, o que vemos nos grandes jornais e portais é uma penca de serviços, notas, entrevistas agendadas de artistas — muitas vezes já consagrados — ocupando a maioria desse espaço. Para quem a maioria do jornalismo cultural dá espaço também é uma questão importante e que merece um artigo próprio, mas da próxima vez que você ler o seu jornal, ou passar por um grande portal cultural de sua cidade, fique mais atento ao que está lendo — porque o que está ali não é tudo que está acontecendo não. Com tudo isso, muitas vezes os repórteres não tem como explorar uma pauta que carece de mais fôlego, que pode causar uma diferença mais imediata no sentido da sociedade, no sentido do meio e do sistema em que estão inseridos. Não estou falando que a divulgação de um artista (espetáculo, show, apresentação) não é relevante, mas a apuração de um fato importante à sociedade como um todo na área cultural é quase que inexistente por aqui (Rio Grande do Sul).

Por aí que entra a necessidade de se ter uma mídia independente, não ligada a grandes empresas ou monopólios. Infelizmente aqui no estado, estamos quase que intimamente conectados à RBS, que insiste que representa todos os gaúchos em suas propagandas e que investe em jornalismo da melhor qualidade. Aqui renderia outro artigo, mas só para fazer um paralelo com a situação do jornalismo cultural: quem você acha que trouxe o show do Rolling Stones para Porto Alegre? O Grupo RBS além de ser um dos realizadores do evento também fez uma cobertura exaustiva quase que passo a passo do conjunto na cidade. E isso nos diversos formatos, TV, impresso, online. Agora mesmo há duas ou três resenhas da banda no site da Zero Hora. Ontem após o show já foi entregue uma edição “histórica” sobre a passagem da banda pela cidade. Aqui é o caso mais perigoso de todos: Quando a pauta do veículo de comunicação é produzida pela própria empresa. Qual é a crítica aqui? Os repórteres do Segundo Caderno vão ter a liberdade e a independência suficiente para escreverem o que quiserem sobre? Não estou criticando o trabalho dos repórteres, mas sim a (i)lógica dessa produção jornalística. É o comércio que fala mais alto.

Não sou ingênuo para acreditar que a empresa não vai ter nenhum interesse sobre o conteúdo que é produzido pelo seu veículo de comunicação, mas o público e quem produz jornalismo não pode ficar refém ou inconsciente dessa lógica. E acredito que parte do público está acordando nesse sentido, percebendo que outro tipo de jornalismo é necessário e urgente. Para fazê-lo devemos partir de uma lógica que não abrace apenas o comercial e que não se perca nos interesses maiores de quem o está produzindo. É preciso que o seu trabalho seja de certa forma apoiado e fiscalizado pelo próprio público, isto é, pela sociedade, que, em última medida, é quem vai receber todo esse conteúdo.

E isso também é um papel do jornalismo cultural, que deveria ser justamente o lugar de maior reflexão, de espaço para novas ideias e para novos agentes artísticos. É preciso que se reconheça toda a diversidade cultural brasileira, e que não se confunda gosto pessoal com cultura (aqui estou sendo bem genérico, mas). Muitas vezes é o jornalista que é o mais cheio de “pré-conceitos” de toda a história. É óbvio que um show do Rolling Stones em Porto Alegre é notícia e motivo de alarde por parte da imprensa e do público que é fã, mas praticamente só dar espaço para isso e repetir as mesmas informações e histórias sobre o conjunto não me parece a melhor forma de ocupar esse espaço.

O jornalismo precisa ter focos de resistência, precisa se reconhecer e aprender com seus erros. Pode ser um longo e difícil caminho, mas certamente é o único a se traçar para voltar a ser relevante.

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