O lado de dentro do centro

Por Priscila Pasko

Cores alaranjadas escorregam nas paredes dos prédios que cercam minha janela. De costas para o pôr do sol, vejo o dia que escoa sobre o cimento morno. Uma febre se instala. As horas vivenciadas e os minutos perdidos se encaminham para o ralo da noite.

Mas o dia ainda não terminou.

Assim que a última porta de uma loja qualquer é fechada, as luzes do Centro de Porto Alegre se acendem. Aqui fora é o dentro. O que está fora fica trancado lá, preso.

No interior do Centro, não há aventais, crachás, fila no buffet, Mega Sena acumulada nem sorvete de casquinha. Quando tudo está despido, as vozes de uma outra língua chegam aos meus ouvidos. Um dos poucos idiomas que se fala escutando. Nasce um dialeto em que latas vazias tropeçam, bêbados cantam e brigam, ventos conversam.

O dia segue na madrugada.

Por fim, baratas, notívagos, ratos, suicidas, morcegos e amantes incompreendidos perambulam sem censura. As frutas das bancas de esquina interrompem o amadurecimento para dormirem verdes, duras e secas diante do olhar sonolento do vendedor. Enquanto isso, na próxima quadra, o vento brinca com a sinaleira no amarelo piscante. Avança e retrocede incessantemente.

Assim como o menino que, na marquise da penumbra, oferece esmola imaginária a todos aqueles que a negaram durante o dia. Ele é observado pelos mortos que passeiam na calma deixada pelos vivos.

É isso que os vigilantes e porteiros tanto espiam: os segredos que o sono não vê.

Parece impressão minha mas, aos poucos, uma auréola sobre os prédios precede a luz. O dialeto da noite silencia para dar lugar à língua corriqueira e vulgar do amanhecer. A primeira porta de uma loja qualquer é aberta. O Centro de Porto Alegre se fecha, apaga a luz. Coloca o crachá e o avental. E mais um dia começa.