TRECHO

Então nos sentamos á mesa, como adultos agora. nossa vida adolescente parecia não nos caber mais. como uma criança cresce alem de suas roupas infantis crescemos alem um do outro. nossa vida junto não tinha mais espaço para nós.

nosso apartamento, que um dia nos pareceu tão acolhedor e feliz, agora era pequeno demais, cheio de sombras úmidas e quinas ponte agudas. eu decidi que não suporto o jeito que você mastiga, você o jeito que eu rio. e eu me pergunto aqui, o que é que nos matem juntos?
aqui, sentado a mesa olho em seus olhos e não o reconheço. não havia nem mesmo uma faísca do homem que um dia conheci. não consigo me lembrar agora quando foi o momento em que deixei de ser eu, e passei a ser nós. e entendi , somente agora, que você também não se vê mais em meus olhos.

segurando minha xícara de café intocada vago por minhas lembranças procurando algo, algum trecho de memória feliz que valide nossos esforços. uma fala ou gesto, sorriso ou beijo. algum momento de absoluta euforia ao qual eu posso me agarrar para sustentar nossa vida. mas, nada veio.
abaixo do oceano só existe mais água.

nosso café esfriou agora. nem eu nem você o bebemos.

levantamos.
lavamos nossas xícaras. 
as guardamos no armário.
e saímos pela porta.