A farsa anti-ideológica de Bolsonaro

A tentativa do novo governo de criar um inimigo interno e mascarar o bolsonarismo.

O Atrito
O Atrito
Jan 4, 2019 · 5 min read
Montagem com o quadro de Gustave Doré, 1863: “O Cavaleiro da Figura Triste”

Com o resultado do primeiro turno fizemos o artigo As Entidades do Mal, no qual o ponto central foi uma das ferramentas de propulsão da campanha do então candidato Jair Bolsonaro: o combate a inimigos imaginários e os perigos que isso representava para a sociedade. Depois da vitória nas urnas a estrutura governamental de Bolsonaro, sempre que pode, exalta seu posicionamento anti-ideológico, mas raramente coloca os devidos pingos nos i’s, sobre o que é considerado, ou não, ideologia. Assim, o Governo do “Mito” (como é chamado por seus adoradores) se mostra completamente inconsistente, pois sua “anti-ideologia” se torna justamente em uma espécie de corrente ideológica contra a realidade, o diálogo e a pluralidade de idéias. Essa forma de pensamento se transforma, cada vez mais, numa perseguição — alá Dom Quixote — aos inimigos irreais.

As ideologias inimigas, ou melhor, os espantalhos delas, são: o comunismo, o marxismo cultural, o aquecimento global, o feminismo, a ideologia de gênero, em suma, qualquer tópico que afronte a visão conservadora de mundo. Esses espantalhos são fruto de teorias conspiratórias de Direita, muitas delas exportadas dos EUA para o Brasil pelo “filósofo”e ex-astrólogo Olavo do Carvalho — esse que merece um artigo a parte no qual também será tratado dos espantalhos ideológicos que ajudou a criar. O combate a essas “ideologias” cai como uma luva para defender os interesses dos conservadores radicais e assim agradar os velhos personagens da elite, que se estabeleceram ainda mais como maioria absoluta no poder dia 01/01: os latifundiários, empresários e pastores. O governo já começou a destruir os moinhos de vento, com a extinção dos ministérios do Trabalho, da Cultura, das Cidades, Esportes e Integração Racial, a retirada da população LGBT das diretrizes dos Direitos Humanos e a transferência da tarefa de demarcação de terra para o Ministério da Agricultura. Com isso o governo acredita que derruba gigantes, ou o dragão vermelho, ou o comunismo e a depravação, mas na verdade promove o retrocesso social, algo tão danoso para um país quanto qualquer política econômica mal elaborada ou fracassada, uma vez que o progresso de fato deve ser inclusivo e não exclusivo.

Charge de Carlos Latuff, original aqui

“Bolsonarismo, a ideologia contra ideológica, contra realista, conspiratória e marcada por um macartismo quixotesco.”

O governo instituiu, à moda da casa, o macartismo abrasileirado, uma estratégia de propaganda governamental que faz questão de sempre citar essa ameaça fantasma como se o espectro do comunismo pairasse sobre as Américas e toda a população brasileira. Aqui já se tem a evidência do viés ideológico do governo, que tenta se eximir de ideologia, termo esse que agora remete à doutrinação e a esquerdização, os “dragões” a serem caçados. As ideologias estão presentes no governo de Jair Bolsonaro, e mesmo que ele tente esconder, o canal do YouTube “Normose” fez um ótimo vídeo analisando o discurso de posse e expondo as ideologias do presidente.

Além disso em várias ocasiões os pronunciamentos de ministros do governo deixam subjetivo o que seriam as tais ideologias a serem combatidas, fala-se de doutrinação mas nada muito profundo. Superficialidade não é uma mera característica dessa narrativa de intolerância; é parte da estratégia, um elemento central para manipulação do eleitorado, e da opinião pública. O objetivo é legitimar todas as suas medidas perante a população com a justificativa do combate às ideologias presentes nas escolas, nos movimentos sociais e no antigo governo. A principal evidência do macartismo quixotesco de Bolsonaro vem no slogan: “A nossa bandeira já mais será vermelha”, que fabricou a ameaça da instauração do comunismo — o que é extremamente irônico visto a significado etimológico da palavra “Brasil”: vermelho como brasa. O Inimigo é amorfo para assim taxar opositores como “perversos ideólogos” quando isso for cômodo; uma maneira de embasar a repressão política governamental que já esta se estabelecendo, e teve como “chute inicial” a exoneração de todos os funcionários da Casa Civil logo após o pronunciamento do também livre de ideologia — a menos que essa ideologia envolva Caixa 2 — Onyx Lorenzoni. Aqueles que quiserem permanecer nos cargos devem ser livres de “ideologia”, segundo o ministro.

“Sua anti-ideologia tem cunho ideológico, baseada numa perseguição alá Dom Quixote aos inimigos irreais.”

Se o macartismo nos EUA no início da década de 1950 tinha como inimigo a ameaça da influência soviética, no Brasil, no final da década de 2010, a ameaça combatida pelo bolsonarismo é um inimigo disforme, que podem se assemelhar a dragões, tal como os gigantes e os moinhos de Dom Quixote, ou qualquer outro demônio mais conveniente… uma lula gigante, por exemplo. Assim, fica mais fácil mudar de foco e transformar, de maneira contínua e ininterrupta, qualquer oposição e crítica em inimigo. Primeiro começa-se a atacar tais “ilusões” e delírios como o Comunismo e o Partido dos Trabalhadores; e depois, em breve, se atacará com cada vez mais intensidade a mídia, a imprensa em geral, as universidades, os professores e os estudantes, as minorias, e os “não eleitores”…

Estamos diante de uma nova ideologia, que nasceu de delírios esquizofrênicos e é apoiada pela elite reacionária: o Bolsonarismo, a ideologia contra ideológica, contra realista, conspiratória e marcada por um macartismo quixotesco. A questão é: por quanto tempo o governo vai conseguir sustentar sua política de combate às conspirações de Olavo de Carvalho. Uma hora a máscara vai cair e o povo verá a verdadeira face do bolsonarismo: a repressão “legitimada” do governo aos seus opositores e a manutenção de privilégios das castas conservadoras em detrimento do bem estar popular.

O Mundo segundo Jair e seus seguidores, link para a imagem original aqui.

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