Sejamos todos feministas — Um desafio

Rodas são importantes por si só. A história está aí pra contar.

Mas algo de poderoso acontece quando mulheres se reúnem em roda.

Sentadas ao redor de fogueiras.

Com as mãos dadas em brincadeira de criança.

Dançantes em rituais misteriosos no seio das florestas.

Acomodadas em banquinhos de bar.

Descascando alimentos à mesa ou no meio da roda punk.

Rodas femininas são profundas e borbulhantes como os movimentos do centro da terra, e momentos de pura grandeza e desafio em épocas nas quais direitos confundem-se com privilégios — e esses, bem se sabe, são pra poucos.

Se reunir para conversar sobre um livro com ideias poderosas tem um cheiro antigo, um deja vu dos tempos de Index Librorum Prohibitorum.

A diferença é que não é mais proibido — apenas não desejado.

Debate do grupo Leia Mulheres — Manaus sobre o livro de Chimamanda Ngozi Adichie (abril/2016)

O livro não dá tapa na cara. como uma conversa entre amigos que contam uma história qualquer, é fácil se perceber em algumas situações específicas (como no trecho sobre garçons e sua postura na comunicação com um casal) e a leitura das poucas páginas flui. E independente de gênero, cada “que verdade!” ou “nunca tinha pensado nisso dessa forma” contribui pra contextualização do tema nas entranhas da nossa existência. Ler “Sejamos todos feministas” e NÃO VER lógica na narrativa não é outra coisa senão falta de empatia sistemática pelo tema. E onde não há empatia, não nos demoramos.

Rodas são olhos que riem, piscam, arregalam, se molham. Olhar os olhos das outras garotas não conhecendo nenhuma delas na intimidade é encontrar traços da criação, do místico que une a todas, Monalisa à Marilyn, você e sua melhor amiga da infância, eu e você que lê isso agora, nós de hoje e o que vivemos ontem. Mais ainda, nos unir quanto ao que não queremos mais viver amanhã.

Fazer nossas próximas gerações conhecerem atos de segregação por gênero apenas através de livros, blogs, textões de facebook, snapsaves e o que mais existir na época. Que redescubram nossas constatações em novas rodas, que releiam teses, desestruturem preceitos, inspirem-se e crescam em ideias e atitudes assim como estamos buscando fazer hoje.

É isso que faz girar.

Rodas são bons empreendimentos pessoais em tempos de crise (política, social, filosófica e empática). O que me leva ao desafio pessoal e estendido a quem lê.

O Desafio

Existem momentos de se afastar, de mais calar e mais ouvir, aprender estudando sozinha, analisando de longe, filtrando a vida. Vivi essa fase com amor imenso a mim mesma, mesmo tendo privado outros da minha companhia, atenção e zelo. Indico fortemente a experiência.

Mas essa NÃO é mais a hora disso. Por muito tempo ganharam com nosso isolamento e solidão. Ideias precisam de companhia, conversas longas e densas, um chazinho no final da noite e qualquer coisa de união.

Formem suas rodas. Retomem contatos, iniciem conversas, plantem projetos. Encontros, debates, ações, buscas, meias verdades e também as inteiras. Sejamos todos boas ideias, sobre QUALQUER assunto, todos eles.

“uma por todas, todas por uma!” (filme: agora e sempre, alguém mais ama?)

Vamos rodar :)

Leia Mulheres Manaus — grupo no Facebook pra saber as próximas reuniões literárias