Michelle

Essa é a nossa história, mas não é uma história de amor.


Suspirou, ainda tinha umas 10 horas de trabalho pela frente. Trabalhava literalmente na beira da praia, mas precisava usar calça jeans e camiseta preta: era seu uniforme. Trabalhava como garçonete de um genérico do Hard Rock Cafe. Hoje, como muitos dias, o expediente se estendia das 13h até mais ou menos às 2h da manhã. Era uma rotina cansativa, de certa forma amenizada pela vista das águas turquesas do mar a apenas algumas passos de distância. Mas na verdade o pior era o calor do dia, e aqueles malditos jeans e Converse clássico fechando os pés. Pelo menos o dia estava um pouco nublado, o que amenizava o calor quando tinha que servir as mesas do lado de fora. Ela sempre era responsável pelas mesas do lado de fora. Nunca perguntei por que, mas eu tinha minha teoria: em um paraíso caribenho à beira mar, as mesas do lado de fora eram sempre as mais concorridas pelos turistas, logo precisavam da melhor garçonete. Não falo de habilidades como memorizar os pedidos certos e trazer as coisas sem esquecer de nada (que ela tinha), mas o mais importante para qualquer garçom: sorriso e simpatia. E ela vestia seu melhor sorriso todo dia, mesmo quando estava cansada no fim do expediente.

A primeira vez que vi seu sorriso foi en passant, era logo depois das 13h, eu estava faminto depois de passar algumas horas turistando em uma ilha qualquer e estava meio sem saco pra comer comida típica, então decidi pelo genérico do Hard Rock em que trabalhava. Sentei em uma das muitas mesas vagas do lado de fora, ela passou por mim, indo em direção a mesa onde estavam sentados um casal de namorados, e me sorriu:

“Já levo o cardápio”, disse (ou algo similar em espanhol) sorrindo. E passou. Como eu disse, en passant.

Lembro de ter pensado “uau”.

Eu precisava ver aquele sorriso de novo.

E vi. Muitas vezes. Seja involuntariamente, quando consegui a façanha de pedir as 3 cervejas que estavam no cardápio, mas que não estavam em estoque, seja tentando forçar um sorriso, como quando eu disse que meu espanhol era uma merda. Na verdade desta última vez ela não sorriu, mas deu uma risada sincera. Uma risada gostosa. Claro que eu não falei isso gratuitamente, o caso é que ela me perguntou de onde eu era, para o que eu respondi “Yo soy brasileño, por esso mi español es una mierda”. Foi a deixa para que ela gargalhasse. Eu podia me imaginar ouvindo aquela gargalhada todo dia sem enjoar.

Mas eu ainda não sabia disso.

O sorriso foi o que notei primeiro, mas não era só isso. Tinha os cabelos cacheados cor de cobre, assim como a pele, tostada do sol, e uns olhos puxadinhos que me faziam me perder neles toda vez que cruzavam com os meus. Quando digo olhos puxados, me refiro ao tipo indígena, não oriental. Eu sempre tive um fraco por olhos puxados — pra minha grande frustração, pois em todos os lugares que vivi era das visões mais raras. Eu queria beijar cada centímetro daquela pele jambo, cobre de praia, macia. Foi no meio desse pensamento que eu vi a tatuagem no braço: literalmente um borrão de tinta. Primeiro eu pensei que era uma artimanha para cobrir uma tatuagem indesejada, mas depois descobri que não: inclusive me mostrou umas fotos quando os borrões eram apenas contornos.

Eu já havia voltado 2 vezes onde ela trabalhava, da última vez levei os amigos que fiz no albergue para beber umas cervejas. Eu não sabia exatamente por quê. Parecia algo estranho. Eu estava me sentindo estranho. Talvez fosse o estilo férias de mochileiro que eu não fazia há muitos anos. Mas eu pensava que tinha outra coisa. Algo estranho. Um sentimento engraçado, mas de certa forma familiar, como a coceira que os amputados sentem em seus membros fantasmas. Eu não sabia descrever direito o que estava acontecendo comigo.

A realização veio como um soco, rápida, seca e repentina: percebi que estava sem apetite. E só tem três coisas que me tiram a fome nesse mundo: ver alguém decapitado, estar doente ou estar perdidamente apaixonado. Descartadas as duas primeiras opções, o diagnóstico era claro: eu tinha perdido a cabeça e estava doente de amor.

A minha surpresa se dava porque fazia pelo menos uns 5 anos que não sentia algo assim. Mais ou menos quando tinha cruzado a barreira dos 30, nunca mais tinha tido uma paixão fulminante, a primeira vista, uma coisa meio sem lógica, pura e irracional. Achei que eu tinha perdido a capacidade disso, que tinha finalmente chegado à maturidade, onde tudo é meio cinza e o coração fala mais baixo que o cérebro. Nesses 5 anos tive relacionamentos, mas todos mornos, com várias mulheres que não conseguia me ver construindo uma vida juntos. Achei que eu era simplesmente individualista, que seria assim. Mas ela mudou isso. Eu pensava que a faísca tinha se extinguido, mas ela causou uma explosão.

E eu sequer sabia o nome dela ainda.

Mas que importa para o viciado saber o nome da droga? Basta saber que quer mais.

O mais engraçado é que eu nunca perguntei. Quem perguntou foi uma das pessoas do albergue que naquela noite me acompanhavam. Não me lembro bem quem, mas acho que foi uma das meninas, Diana talvez. Ficaram fascinados em como eu falava da pequena garçonete (porque, sim, não era muito alta, exatamente como eu gosto) e decidiram ir lá e perguntar o nome dela.

“Michelle”, disse ela, com um sorriso, mas já saindo de fininho, pois a mesa que estávamos não era a área dela e só puxamos conversa porque ela estava passando pra ir à cozinha.

“Michelle”, pensei com um sorriso um pouco leve, talvez dos beer goggles, talvez dos passion goggles, talvez um pouco de ambos.

“Michelle, puedo tener su número de teléfono?”, foi a próxima coisa que eu disse a ela. Michelle ficou um pouco sem graça, perguntou a minha idade (e ficou um pouco espantada que eu tinha quase 10 anos a mais que ela), mas no fim pegou meu celular e anotou um número. Eu ainda não sabia se era o número dela mesmo ou só um número aleatório. Mas pra mim era uma grande vitória, embalada por um pouco de paixonite, um pouco de cerveja e, principalmente, um grupo de amigos me desafiando a pegar o telefone dela, fui embora feliz, todo bobo, para o albergue.

O telefone era dela!

Então, você deve estar se perguntando, como foi a primeira vez que eu segurei na mão dela? Como foi o primeiro beijo? Como foi quando ela repousou a cabeça dela no meu peito e olhamos para as estrelas ao som das ondas do mar?

Tudo isso é terrivelmente irrelevante agora, assim como era irrelevante então, porque Michelle e eu tivemos tudo que poderíamos ter, menos tempo. Ela trabalhava 1000 horas por dia, já eu fiquei na ilha apenas por mais 5 dias. Nunca tivemos tempo para saber se aquela faísca poderia sustentar um fogo em madeira maciça, lento e duradouro, como de uma taverna medieval, ou um fogo de palha e papel, que brilha forte, mas logo escorre pela chaminé e apaga.

Talvez Michelle peidasse fedorento, comesse meleca do nariz, roncasse como porca bêbada, tivesse um terceiro mamilo ou fosse frígida, e que isso pusesse fim à minha fascinação por ela. Talvez ela não suportasse a minha barriga de cerveja, minhas vontades de ficar sozinho por um tempo, não gostasse que eu sempre escuto as mesmas músicas ou se enchesse o saco do meu espanhol ruim.

Nunca saberemos.

E talvez esse seja o pior. Porque não há pior saudade do que aquela daquilo que não se viveu.

PS: porém, é provável que eu fosse um pescador e/ou guia turístico terrível (as únicas atividades disponíveis na ilha).

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