Eles, Nós

Estava lendo um texto da Marcia Tiburi sobre anti-intelectualismo. Poderia ser um bom texto e a tendência pode ser real, mas ela começa falando sobre preconceito e na segunda linha já institui um personagem — o preconceituoso. Aí já afundou o barco pra mim. Se seguem vários parágrafos detalhando os pecados do preconceituoso, possivelmente para grande satisfação de quem lê o texto se imaginando acima daquilo. Agora me diga, quem é essa figura mítica, de caráter e inteligência olímpicos, que não tem preconceito? Quem, dentre vós? Ninguém, amigos. Mais ou menos, todos temos pré-concepções, todos julgamos, muitas e muitas vezes sem conhecimento de causa. Vejo aí uma tendência igualmente inquietante, tanto quanto o anti-intelectualismo que ela descreve — uma divisão constante entre Nós e Eles. “Eles “ são os mensageiros da barbárie, claro. “Nós”, os guardiões da virtude e do conhecimento. “Eles” estão tentando destruir o Brasil, não sabem o que fazem, são corruptos, ignorantes, agressivos, perversos. “Nós” somos tolerantes, progressivos, gentis. Menos em relação a “Eles”, claro. Afinal, eles não merecem nosso respeito. E com que entusiasmo compartilhamos textos que subestimam, caricaturam ou ofendem nossos oponentes políticos ideológicos. Que solução, que diálogo pode surgir dessa prática? Não existiria uma forma de compartilhar idéias sem começar ofendendo e alienando justamente as pessoas que gostaríamos que mudassem de idéia? Pra dar um exemplo singelo — nunca usei a palavra coxinha, a não ser em seu sentido literal como alimento. Porque a ofensa é o fim do diálogo. E “eles começaram” ou “eles fazem pior” não é argumento, é desculpa para agir mal. Lembro de uma pesquisa que li um dia desses que dizia que a solução de conflitos só é possível se você acredita que seu oponente, apesar de idéias diferentes, também quer o melhor pra todos. Existem — não nego, não duvido- figuras realmente nefastas na política. Mas tirando um certo número pequeno de psicopatas, somos todos humanos, falhos, imperfeitos, cheios de pré-concepções, infinita ignorância mas também de CAPACIDADE DE MUDANÇA. Ou acreditamos nisso e começamos a agir de forma mais decente com quem pensa diferente de nós, baixando um pouco o volume da nossa necessidade de estar certos ou não vai ter muro alto o suficiente pra dividir esse país.

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