Um mundo que não esteja quebrado

No meio do deserto do sábado, deixa eu postar esse poema aqui, que começa falando que / um mundo que não esteja quebrado/ tem que estar vindo.

Onde / igrejas e bares estão cheios de pessoas decentes. Não é um ponto de vista popular. Não. Somos todos apocalípticos. A barbárie! O fim dos tempos. Uma vida nunca valeu tão pouco.

É importante, me parece, contemplar ocasionalmente a idéia de que seja o contrário — de que esteja tudo melhorando. Tem um cientista, li muito tempo atrás na Wired, que tinha uma tese nesse sentido — de que absolutamente tudo estava melhorando, em termos de acesso, condições de vida, direitos, etc. Mas Trump e Bolsonaro? Bueno, não é possível considerar que já tivemos muitos como eles e não prestávamos atenção porque esses pontos de vista eram tão mais comuns? Estamos agora contemplando a distinta possibilidade de que Trump seja derrubado pelo seu comportamento lamentável — e não é verdade de que homens em posições de poder agarrando mulheres à força era algo tão comum a ponto de não se notar? Ou quando falamos da destruição da natureza, não é verdade que essa destruição era, tem sido, o modo operante padrão da humanidade? E que na verdade talvez nunca tenha existido tanta resistência a essa destruição? Tem aquele discurso do George Carlin, onde ele fala que a destruição da terra não é mais que uma fantasia de grandeza humana.

Dia desses quando estava pessoalmente em um modo apocalíptico sobre o estado das coisas, um amigo me apontou — não é verdade que os avanços sociais não dão pra trás? Ou seja, que uma vez que as mulheres podem votar, elas não vão mais aceitar a idéia de não poder votar? Ou de que, sim, ainda vemos muita violência contra sexualidades alternativas, mas também não é verdade que não existe mais um armário grande o suficiente pra caber todo mundo que saiu dele? E ninguém que saiu consideraria voltar pra dentro dele? E que possivelmente nunca mais veremos bebedouros para brancos e bebedouros para negros nesse planeta?

Considere essa possibilidade. Já temos pessimistas demais no nosso mundo quebrado.

Ode to the Unbroken World, Which Is Coming by Thomas Lux

It must be coming, mustn’t it? Churches

and saloons are filled with decent humans.

A mother wants to feed her daughter,

fathers to buy their children things that break.

People laugh, all over the world, people laugh.

We were born to laugh, and we know how to be sad;

we dislike injustice and cancer,

and are not unaware of our terrible errors.

A man wants to love his wife.

His wife wants him to carry something.

We’re capable of empathy, and intense moments of joy.

Sure, some of us are venal, but not most.

There’s always a punchbowl, somewhere,

in which floats a…

Life’s a bullet, that fast, and the sweeter for it.

It’s the same everywhere: Slovenia, India,

Pakistan, Suriname — people like to pray,

or they don’t,

or they like to fill a blue plastic pool

in the back yard with a hose

and watch their children splash.

Or sit in cafes, or at table with family.

And if a long train of cattle cars passes

along West Ridge

it’s only the cattle from East Ridge going to the abattoir.

The unbroken world is coming,

(it must be coming!), I heard a choir,

there were clouds, there was dust,

I heard it in the streets, I heard it

announced by loudhailers

mounted on trucks.

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