AGOSTO

Em Agosto muda a quinzena, mas a merda é a mesma — Ditado popular algarvio

Chegam aos milhares, de todo o país. Trazem consigo na mala as frustrações de um ano inteiro, a ilusão de que vão descansar e a arrogância juvenil de que durante as férias vão fazer o que querem, quando querem. Estão de férias e merecem estar e agora mandam eles.

A maioria traz o rei na barriga, uma carteira com os tostões contados, cartões de crédito com taxas de juro absurdas e a esperança de que aqui, onde ninguém os conhece, se possam reinventar, ser outra pessoa, nem que seja por apenas 15 dias.

Infelizmente essa pessoa que querem ser não é uma pessoa melhor mas sim uma manta de retalhos tricotada de mesquinhez, arrogância, má educação, prepotência e frustrações.


Estão de férias e merecem estar e agora mandam eles

Nós que os andamos a atender há mais de uma década já os conhecemos. Já os conhecemos muito bem.

Cafés em chávena fria “mas não muito fria”, imperial “mas bem tirada”, coca cola “com gelo e limão mas veja lá se o limão não é muito azedo”, “se eu falar em inglês arranja mesa mais depressa?”, “deviam ter desconto para portugueses”, “tem aquela bebida nova de já não me lembro?”, “meta isto a aquecer para o bébé 28.5 segundos”, “como é que não tem tremoços?”, “estou a ver que estão cheios mas arranje lá uma mesinha que eu vim cá duas vezes há três anos atrás”, “só tem estes cocktails?” depois de ler a carta que tem mais de 60, “você não tem o meu whisky senão até bebia um” sendo que o whisky em questão é o VAT 69, “senão me arranja mesa nunca mais cá venho”: isto é Agosto mas é mais.

É o grupo de 12 pessoas que pede 4 doses do que de mais barato há na carta “porque queremos ir para a água já a seguir” mas depois ficam a ocupar 4 mesas durante 3 horas.

É o olhar de desdém para as crianças dos outros enquanto as suas gritam e mandam talheres para o chão: “ele não costuma ser assim, é de ver as outras crianças”

É o stress diário destas pessoas que estão de férias cheios de pressa para tudo e que à mínima contrariedade aproveitam para libertar todo o fel que trazem dentro de si, tentando enxovalhar o outro: “Se a menina não sabe que não serve para caixa supermercado estou eu aqui para lhe dizer”, ouvi eu há poucos dias. Não consegui ficar calado.

É o fulano que já bebeu demasiado e quando lhe é recusada mais uma bebida parte para a violência.

É aquele “Você sabe quem eu sou?” na ponta da língua sempre pronto saltar a qualquer momento.

É Portugal no seu pior.


Assume toda a relevância que o turista nacional justifica interiormente esta arrogância com a ideia de que senão viesse para o Algarve de férias a região morria, que o dinheiro que injecta na região é fundamental para a sobrevivência dos estabelecimentos.

Assume também toda a relevância que esta ideia está completamente errada.

Em Agosto há mais trabalho mas mais trabalho não implica necessariamente mais facturação. E existem mais custos operacionais nomeadamente com pessoal de reforço que tem que ser treinado on the job. Sendo que os níveis de consumo baixam, os resultados apurados em termos de lucro são sempre mais baixos do que nos outros meses. Isto é verdade para os restaurantes, bares, discotecas e similares.


Para quem vive e trabalha no Algarve, Agosto é o inferno das filas intermináveis, é o respirar a violência latente que existe na maioria das pessoas à nossa volta, é o pensar duas vezes antes de ir aos sítios habituais porque vamos ter certamente uma má experiência. Agosto é o mês das noites mal dormidas, do cansaço que se acumula como ferrugem, e o mês em que nos deixamos assimilar por um stress que não é o nosso.

Em suma, Agosto é o mês em que a frase mais repetida por todos os que são de cá, ou cá moram todo o ano é “Foda-se, nunca mais é Setembro

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