O Francisco comprou um carro

Hoje o Francisco chegou ao tasco de carro. Não é um carro novo, não é nenhum topo de gama, mas o Francisco entrou no tasco e disse “Querem ir ver o meu carro?”. Fomos todos.

No olhar dele aquele carro bate todos os Ferraris, Lambos, Bentleys, McLarens, Mercedes e o diabo a sete. É o carro dele.


O Francisco chegou ao tasco há 2 anos e meio atrás. Bateu à porta, deviam ser umas 8:30h da manhã, e perguntou se não estávamos a precisar de alguém para fazer “fosse o que fosse”.

No olhar tinha aquele desespero de quem está disposto a tudo para sair da situação em que se encontra, a barba crescida e descuidada, a camisa amarrotada, os ténis gastos, muito gastos.

Perguntei que experiência tinha ele em cozinha. “Não tenho, nem os ovos estrelados me saem bem”, disse quase num sussurro com os olhos fixados na mesa, as mãos entrelaçadas como que em oração.

“Sem certificação não posso meter ninguém na cozinha”, disse eu.

Levantou-se, estendeu-me a mão e disse “Obrigado na mesma”

“Sente-se lá, homem, a entrevista ainda não acabou”, disse eu a sorrir para ver se o descontraía.

Sentou-se de novo, o olhar fixado na mesa, as mãos entrelaçadas, demonstrando que eu tinha falhado redondamente na minha tentativa.

“Vamos esquecer a cozinha. Limpezas, sabe fazer?”

Houve uma pausa.

“Se não souber limpar como vocês limpam aqui, aprendo num instantinho”, disse, desta vez num tom de voz um pouco mais assertivo.

Foi assim que o Francisco começou a trabalhar no tasco: a limpar o chão da sala e da esplanada, a passar cera nos móveis, a limpar garrafas, a limpar casas de banho, a ajudar no que era preciso.

Passadas duas semanas descobrimos que o Francisco ia e vinha a pé de Portimão para Alvor, todos os dias. São cerca de 13kms. Nessas duas semanas o Francisco nunca chegou um dia atrasado, apesar de estar a fazer 12h diárias, e mais duas horas a andar de casa para o trabalho, e do trabalho para casa.

Falámos com ele e ficámos a saber que estava a dormir numa pensão de má fama, ao pé da estação de comboios. Sentimos também que ele não queria falar muito mais no assunto. Nunca o fez.

Demos-lhe dinheiro adiantado para comprar um cartão de viagens de autocarro e pagar a pensão, e através de contactos conseguimos arranjar um quarto em Alvor para o Francisco ficar, passado uma semana.

Dois dias depois desta conversa acontecer, apanhei o Francisco a pé, a caminho de Alvor. Parei o carro e disse-lhe para entrar.

“És masoquista tu”, disse eu a rir

“Se apanho o autocarro, chego atrasado”, disse ele.

Fomos em silêncio até ao tasco.


Em 2 anos e meio o Francisco nunca chegou atrasado ao trabalho, nunca esteve doente, nunca pediu absolutamente nada. A primeira vez que discutimos um aumento recusou porque “estava bem assim”, apesar de ter assumido responsabilidades que estavam acima do contrato e renumeração inicial.

Em 2 anos e meio de trabalho o Francisco cresceu dentro da empresa (tascos também são empresas, para os mais distraídos) sendo hoje o nosso braço direito para tudo o que é gestão de stocks e armazém.

Entretanto alugou um apartamento, arranjou uma namorada, e hoje chegou no seu carro ao trabalho.

Nunca nos contou o que é que lhe aconteceu para ter chegado ao ponto a que chegou quando nos encontrou, e não interessa.

O Francisco chegou hoje no seu carro ao trabalho, e o brilho de felicidade nos seus olhos, conta-me mais do que todas as palavras.

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