“Pode-me chamar um táxi?”

No meu ramo de negócio é muito habitual chamar um táxi para levar os clientes de volta ao seu hotel. É tão habitual que fomos forçados a informar a central de táxis, que actua nesta região, do nosso desagrado em relação ao serviço prestado por alguns taxistas devido ao feedback recebido dos nossos clientes, banindo efectivamente esses mesmos taxistas de responder a chamadas feitas por nós.

Pode parecer uma medida demasiado drástica mas a realidade, por muito ilógica que pareça, é esta: a partir do momento em que chamamos um táxi estamos a prestar um serviço ao cliente e a experiência que o mesmo tiver vai-se reflectir, mesmo que residualmente, na opinião que tem sobre o nosso serviço.

Ter clientes que voltam no dia seguinte com reclamações, ou questões, sobre o trajecto do táxi, ou com queixas sobre a antipatia do taxista, apenas criam ruído na nossa relação com os clientes, obrigando-nos a pedir desculpa por algo de que não temos culpa alguma.

O resultado das nossas reclamações foi eficaz mas valeu-nos também algumas ameaças, mais ou menos veladas, por parte de alguns taxistas, que até me chegaram a abordar na rua para pedir explicações.

Se é certo que não podemos generalizar, os taxistas ganharam uma fama que é assente na realidade: um serviço prestado ao público medíocre, um desprezo pelo cliente só possível devido ao monopólio que detinham, condições de higiene dos equipamentos e pessoal que não passaria qualquer inspecção no meu ramo, e uma apetência para enganar o cliente em termos do preço cobrado seja através do percurso, suplementos, tarifas ou todos esses elementos conjugados.

O aparecimento da Uber no Algarve foi, para nós, um alívio. Muitos clientes já usam a aplicação no seu dia a dia e preferem a plataforma, e a qualidade do serviço prestado, ao tradicional táxi, e baseado na nossa própria experiência conseguimos converter bastantes clientes à Uber. Nunca tivemos uma única reclamação.


Há semanas que se anunciava a manifestação que as associações de taxistas nacionais tinham convocado para o dia de hoje. O tom dos responsáveis foi, desde o início, sempre o mesmo: passivo agressivo, ameaçador, victimizador da classe contra a quem ela não pertence. A um dia da manifestação foi dito por um dirigente que não podia garantir que não iria haver violência.

Nada do que aconteceu, e ainda está a acontecer, por parte dos taxistas me espanta. Os sinais estavam todos lá, e estou absolutamente convencido que o plano tinha sido sempre bloquear o aeroporto de Lisboa para assim poder forçar a mão do governo.

O que me espanta é que este governo não tenha tido a coragem de tomar as medidas necessárias para evitar o que está a acontecer

Podem não concordar comigo mas eu não posso aceitar que num estado de direito um grupo profissional tome uma parte da cidade como refém, prejudicando a vida a milhares de pessoas.

Não posso aceitar que o governo, assim que não foi dada a garantia de uma manifestação pacífica, não tenha de imediato cancelado a autorização para a mesma se fazer.

Não posso aceitar que o ministro da tutela não tenha tido a coragem para informar os representantes dos taxistas que só teriam lugar à sua mesa após os manifestantes dispersarem.

Não posso aceitar que depois de tudo o que aconteceu hoje durante o dia, a PSP ainda esteja a negociar com os infractores, em vez de cumprir o seu mandato e repor a ordem pública na Rotunda do Relógio.

Não posso aceitar que no meio de tudo isto a ministra da administração interna esteja desaparecida em combate.


A Uber, e outras plataformas semelhantes, têm clientes por uma razão: Se os taxistas fornecessem o mesmo ou um melhor serviço, a Uber não teria qualquer hipótese num mercado tão pequeno como o nosso. Mas tem, e apenas tem porque preenche o vazio deixado por décadas de desleixo e da acomodação tão própria daqueles que vivem sem concorrência. Agora que a têm a solução que encontram não é se modernizarem, é aterrorizarem.

E nessa demonstração de quão ultrapassados estão mostram a sua verdadeira cara ao emitirem frases como “Todos os portugueses que apoiam a Uber são foras da lei” ou “As leis são como as meninas virgens, são feitas para serem violadas”.

As declarações ficam com quem as faz, e quem as faz é representante de toda uma classe de trabalhadores que só têm uma de duas opções: ou aplaudem os seus dirigentes e serão julgados por isso mesmo, ou se demarcam das mesmas e exigem mudanças internas.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.