Deus no comando

Fernanda, 16 anos, usa uma letra “J” feita de cartolina para se proteger do sol forte que preenche a Avenida Paulista na tarde do dia 17 de abril. São 15h. Ela também segura um “E” e ajuda, com os outros amigos, a formar a frase “Jesus te ama”. A mensagem é um oferecimento do grupo de jovens da Igreja Evangélica Corpus Christi, que faz vigília desde a meia-noite na esquina com a Rua Augusta, com a missão de pedir a Deus que proteja o Brasil.

“O que está para acontecer pode ser muito ruim para o país”, diz Fernanda, moradora de Carapicuíba, sobre a votação da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em época de polarização, ela e os amigos só querem que o Brasil esteja preparado para o retorno do messias.

“Jesus está voltando”, avisa, tentando sobrepor a voz ao som da banda gospel e do coro dos fiéis. “Ele é o noivo. Nós somos a noiva. E Jesus não vai querer uma noiva suja”, explica, antes de passar um sermão na bancada evangélica.

“Eles podem falar o que quiserem. O importante é que Deus governe”, decreta.

Fernanda talvez nem desconfiasse, mas Deus seria lembrado pela maioria dos deputados nas justificativas de seus votos a favor do impeachment. A começar pelo primeiro parlamentar a proferir o “sim”, precedido pela súplica que se repetiria diversas vezes durante a noite em Brasília.

“Senhor presidente, que a partir de amanhã, segunda-feira, Deus possa derramar muitas bênçãos sobre o nosso Brasil e o nosso provo brasileiro. Voto a favor”, diz o deputado Washington Reis (PMDB-RJ), ex-prefeito de Duque de Caxias.

“Brizooooolaaaa”

Na Paulista, o “sim” foi acompanhado por uma explosão de alegria pelo mar de amarelo que se concentrava em frente à Fiesp. No palco montado na entrada do edifício, um animador convocava a multidão a aplaudir ou vaiar os votos.

Mais cedo, o mesmo jovem mestre de cerimônia comentava cada um dos discursos no debate que abriu os trabalhos no dia na Câmara. Um a um, os representantes dos partidos eram recebidos com gritos de exaltação ou apupos — como o deputado Silvio Costa (PT do B-PE).

“Aumenta o volume. Vejam o nível”, diz, em tom debochado, quando se ouve o parlamentar arriscar um placar para a vitória do Governo.

“Vamos ganhar por seis votos!”, diz Costa. O volume do som é reduzido para que o rapaz que comanda o palco convoque a massa.

“Vaia, vaia, vaia, pode vaiar!!!”, grita.

“Agora é o PDT, o partido do Brizooooolaaaa”, debocha, alongando as vogais do nome do líder trabalhista morto em 2004.

Próximo dali, o Movimento Brasil Livre (MBL) também fala alto. Os membros são jovens e também discursam em tom de galhofa. “Hoje a Dilma acordou meio jaburu”, diz, seguido de uma gargalhada, em referência ao palácio que serve de residência oficial do vice-presidente Michel Temer.

O trio elétrico, cujo palco conta com um alongamento pelo meio do público (como o de alguns festivais), é animado por uma banda de rock, cuja apresentação é assistida por uma plateia rarefeita e pouco interessada.

Perigo vermelho

Do outro lado da calçada, o vendedor equatoriano Luis Alexandre, 57 anos, exibe um cartaz improvisado com duas faces. De um lado, “Comunismo não”; do outro, “Brasil sim”. Vestido de forma alinhada, com terno em tom sóbrio, ele diz ter certeza que o país em que vive há 40 anos está sob perigo vermelho.

“O primeiro passo já foi dado, pois Dilma acabou com a economia, como manda Lenin”, alerta.

Menos preocupado com os comunistas, Batman posa para fotos com manifestantes. O ator Jose Roberto Paulo de Almeida, 29 anos, tem suor escorrendo pelos furos dos olhos da máscara, que borra levemente a maquiagem preta no rosto.

“São 8 kg de roupa. Perco uns 5 kg por protesto”, conta o Homem Morcego, que se diz de luto pelo Brasil. “A gente não precisa de nada de fora. Temos carne, leite, temos tudo aqui”, discursa, antes de caminhar, acompanhado da esposa, rumo ao grupo que se aglomera em torno do trio elétrico do Vem Pra Rua.

Dilma sai, Temer… Fica

Os integrantes do movimento adotam um estilo mais sóbrio de oratória. Mas um membro, aos berros, assume o apelido. “Nos chamam de coxinhas, mas qual é o salgado mais popular do Brasil?!”, grita, quando um coro na rua responde: “coxiiinhaaaaa”.

Em frente ao veículo, as pessoas aguardam, sentadas, o início da votação. Algumas aparentam cansaço.

Dois manifestantes do grupo Território Livre passam pelo local distribuindo cartazes em que comemoram antecipadamente a saída de Dilma (“já vai tarde”) e pedem em seguida o mesmo destino para Temer.

Ao perceberem que o vice também é alvo dos protestos, muitos tratam de dobrar para trás ou simplesmente rasgam a mensagem contra o peemedebista.

Ao ver que é fotografada, Neivinha, 63 anos, esconde o protesto contra o vice. “Ele tem que assumir e fazer um governo de coalização. Depois, convocar novas eleições”, diz.

O líder do movimento, Rogério Chequer, toma conhecimento do ato e trata de marcar posição. “Nós não vamos defender um impeachment atrás do outro”, brada do alto do trio. No chão, Neivinha, faz sinal de aprovação para Chequer e mostra satisfação ao ver que seu discurso está afinado com o do grupo.

Liquidação de pixulecos

Diferente do empresário André Colognese. Ele mora na China e está acampado em frente à Fiesp desde o vazamento dos áudios das conversas entre Dilma e Lula, no dia 16 de março. “Vim visitar minha família e clientes, e encontrei um mercado quebrado, com as maiores importadoras quebrando. Eu estava aqui quando divulgaram os grampos e me motivei a ficar aqui”, contra o empresário ramo têxtil.

“Nossa luta é contra a corrupção. Não temos partido”, afirma, para em seguida listar as reivindicações, na ordem: “Queremos o impeachment da Dilma, a prisão de Lula e, se tiver, após o impeachment, fora Cunha. Caso seja confirmado, o impeachment de Temer por responsabilidade fiscal”.

André promete permanecer no local até a pauta se esgotar. “Queremos uma faxina nos três poderes. Todos os corruptos terão o nome estampado aqui”, diz. Até aquela tarde, só palavras de ordem contra Dilma, Lula e o PT eram vistas impressas nas barracas.

A notícia do protesto permanente pode ser um alívio para Kevin Silva, 21 anos. O ambulante, morador do Itaim Paulista, faturou nos últimos meses com a venda dos pixulecos — os mini bonecos infláveis de Dilma e Lula vestidos com roupa de presidiários. No que pode ser a última manifestação, ele mostra preocupação com o iminente encalhe. Por isso, estuda até baixar o preço de R$ 10. “Acho que tem que continuar. O Brasil ainda tem muito a melhorar”, clama.

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