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Tem que viver: Um ato em favor da vida e contra a violência

Ruam Oliveira
Jul 25, 2017 · 5 min read

“Tem que viver” foi uma das frases mais ditas na fria tarde de quarta-feira, 19 de julho de 2017, durante a missa de 7º dia de Ricardo Silva Nascimento, o “Negão”, carroceiro assassinado com dois tiros por membros da Polícia Militar na quarta anterior (12) em Pinheiros, São Paulo.

A Catedral da Sé, local onde aconteceu a missa, recebeu mais de 200 pessoas vindas de diferentes locais e contextos. Ativistas dos direitos humanos, artistas, membros de coletivos contrários à violência de Estado, gritavam pelo direito à vida e contra a morte — principalmente das pessoas em situação de rua, da população negra, pobre e periférica. E, sobretudo, em favor da vida humana e contra a violência policial.

“O Estado que faz uma polícia que em vez de proteger o cidadão, assassina o cidadão: É a isso que devemos dizer basta”, disse o jornalista Juca Kfouri, presente na ocasião. Estas palavras ressoaram, indo e vindo, pela multidão. Sendo acrescidas de palavras de ordem que exigiam o fim da Polícia Militar. Em coro, alguns cantavam: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar”.

Só nos três primeiros meses deste ano, 217 mortes foram causadas por membros da PM, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública. O número representa um aumento de 16% em relação ao mesmo período do ano passado.

A missa foi ministrada pelo padre Júlio Lancellotti, monsenhor e pároco na igreja São Miguel Arcanjo, localizada no bairro da Mooca, zona leste de SP. Conhecido como “Vigário do povo da rua”, o católico dedica-se majoritariamente ao trabalho social. Durante a celebração cobrou por respeito e dignidade às pessoas em situação de rua. Naquele mesmo dia, às 7h da manhã, com uma sensação térmica ainda mais gelada, lembrou que moradores de rua foram acordados com jatos d’água por agentes da prefeitura.

O ato foi comparado ao culto ecumênico em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, morto e assassinado pela ditadura civil-militar em 25 de Outubro de 1975. Foto: Ruam Oliveira

“Tem que viver. O que a ética nos pede e exige de nós: Nenhum pobre atingido, nenhuma pessoa destruída. Todos respeitados, todos amados, somos filhos e filhas de Deus.”, disse o padre. Cartazes, camisetas e panfletos repetiam o lema.

No chão da catedral enquanto acontecia a missa — e depois nos degraus da escadaria da Sé — uma bandeira foi estendida. Nela os dizeres: “Contra o terrorismo do Estado”.

A carroça de Ricardo Silva Nascimento foi levada por integrantes da ONG Pimp My Carroça. Agora pintada de branco com letras em vermelho onde se lia “Parem de matar o povo. Queremos paz, amor e justiça”.

De acordo com relatos, por volta das 18h do dia 12 de julho, momento em que o crime aconteceu, “Negão” estava próximo a uma pizzaria que fica entre as ruas Mourato Coelho e Navarro de Andrade, segurando um pedaço de pau, gritando. O motivo, segundo moradores vizinhos, teria sido porque ele foi supostamente ofendido por uma funcionária, que negou ao catador um pedaço de pizza.

Após ter sido atingido no peito, “Negão” foi colocado no porta malas do veículo da PM e levado ao Hospital das Clínicas onde faleceu minutos após chegar ao local.

O ato desta quarta, 19, foi uma repetição em menor escala do que aconteceu em 31 de outubro de 1975, durante culto ecumênico também realizado na Catedral da Sé, para homenagear o jornalista Vladimir Herzog, torturado e morto pela ditadura militar em 25 de Outubro daquele ano. Daquela vez, 8 mil pessoas se juntaram em frente à igreja.

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O momento caracterizou-se também, nas palavras do repórter Audálio Dantas, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, por um sentido de despertar de consciência da sociedade em relação à violência que era cometida pela ditadura.

Ele apontou os dois momentos como semelhantes. “Devo dizer que o que está acontecendo neste momento (…) significa que estamos retomando a consciência de que é preciso lutar contra a violência. Agradeço a todos que aqui vieram pelo chamamento do Padre Júlio Lancellotti, o apóstolo do povo da rua”, disse.

A carroça de Ricardo Silva Nascimento pintada por integrantes da ONG Pimp my Carroça. Foto: Ruam Oliveira

O ator Sérgio Mamberti e a atriz Letícia Sabatella também discursaram, representando a classe artística. Repetiram, ambos, que o pedido ali apresentado era um só: justiça. “O que nós precisamos é de justiça (…) Não podemos suportar mais essas chacinas diárias. Os jovens negros… 9 a cada minuto estão morrendo no Brasil, nas periferias… Os camponeses, os indígenas, dizimados por um Estado que não protege seus cidadãos. Estamos aqui porque não toleramos mais este tipo de violência”, disse Mamberti.

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O ato durou cerca de quatro horas. Palavras de ordem eram ditas por pessoas na multidão. Algumas delas lembraram da prisão de Rafael Braga — detido durante os protestos de junho de 2013. Muitas delas pediam a extinção da PM. Todas pediam pelo fim da violência.

A missa teve início por volta das 12h e foi celebrada pelo padre Júlio Lancellotti. Foto: Ruam Oliveira

“Viver é preciso, resistir é preciso”, enfatizou Kfouri, próximo à mãe de Ricardo Silva Nascimento, que não conseguiu dizer uma só palavra.

No mesmo dia, também em Pinheiros, o policial militar José Marques Madalhano, de 24 anos, junto com outros quatro colegas presentes durante a ocorrência, chegava à sede do Comando de Policiamento da Capital, onde ocorreria o primeiro estudo de caso sobre o ocorrido que terminou na morte de “Negão”. O interrogatório, de acordo com reportagem da revista VejaSP, terminou por volta das 20h.

Ruam Oliveira

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eu vim para falar as coisas que penso. escrevo sobre jornalismo, comunidades, tecnologia e entretenimento.

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