Vizinhança

O estádio de futebol foi minha casa por muito tempo. Quase metade dos meus anos passaram lá, e com certeza foram felizes. Não só felizes, foram os mais felizes. Assim como qualquer casa, o estádio custa taxas a quem vive nele, e no meu caso específico, foi impossível lidar com todas elas. Eu estive de mudança para uma nova casa, chamada Jornalismo, vizinha àquela que me acolheu por tanto tempo. Vizinha por que seria impossível passar meus dias apenas com lembranças daquele lugar especial. Parece triste, passar os dias na minha nova casa olhando pela janela e vendo aquele ambiente que amei tanto sendo ocupado por outras pessoas, mas na verdade é uma maneira de seguir próximo a algo que sempre me fez bem.

Na necessidade, nossa mente se abre e aprende a amar outros lugares. Cada cômodo dessa nova moradia, que parecia ser tão difícil de me adaptar, tem me acrescentado boas experiências. Ela é uma casa engraçada, e até meio sobrenatural, como se fosse uma ligação entre diferentes dimensões. Passando pela porta e virando à esquerda, está a Sala Escura, onde ninguém pode me ver, mas todos podem me escutar mesmo não estando presentes. À direita, outro quarto esquisito, com uma caixa enorme no centro, na qual eu entro e o mundo passa a me ver e ouvir. Subindo as escadas, a Sala Estátua, onde eu aperto um botão em uma caixa esquisita e tudo ao redor se congela em um desenho. Existem muitos quartos trancados, com chaves que ainda não encontrei. O chaveiro da esquina, de nome Universidade, tem desbloqueado essas passagens, mas tudo leva um tempo.

Enfim, eu ainda sinto saudades da minha antiga casa. O estádio ainda é minha maior paixão. O proprietário me permite fazer ao menos uma visita por semana, para matar essa saudade. Sempre vestido de vermelho, entro por aquela porta e os sentimentos são até contraditórios. Estar ali me faz tão feliz, mas ao mesmo tempo, a sensação de não ter aquela escritura machuca demais. Ultimamente, tenho recebido propostas para adquirir novamente minha antiga casa. Imobiliárias de vários lugares diferentes têm me apresentado propostas tentadoras, mas as vezes é melhor deixar o passado no passado. Depois de aberta, é difícil fechar a mente de novo.

Sei que, no meu coração, aquele gramado do jardim antigo sempre será melhor que a minha calçada cinzenta, mas a vida me ensinou a amar esse novo lugar e tudo que ele significa. Me ensinou também que morar nele é importante, pode fazer a diferença no mundo. Hoje, o meu sonho não é mais morar naquela casa, mas sim, receber seus novos habitantes na minha residência maluca, conturbada e cheia de defeitos, mas com o poder mágico de fazer a diferença.

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