A VIDA NÃO SE LIMITA A UM ACONTECIMENTO

A TRANSFORMAÇÃO DE UM ATLETA

No dia 5 de julho de 2008 cerca de 23h30, Bruno Henrique de Souza, 20 anos, estava voltando de moto para a festa da empresa onde trabalhava em Indaiatuba, ele tinha ingerido bebida alcoólica e acabou dormindo em cima da moto. “Quando eu me dei conta já estava no hospital com os médicos fazendo testes nas minhas pernas”. Ele sofreu uma lesão medular e ficou paraplégico, mas ao invés dessa consequência tê-lo desanimado, Bruno acreditava que poderia voltar a andar.

“Sempre fui alto astral, dizia que andaria em 3 meses, mas não sabia como era uma lesão medular”.

Após sair do hospital começou a viver uma nova realidade, tendo de se adaptar a diversas situações que já conhecia, mas que agora o desafiavam, como por exemplo, tomar um banho sozinho. Ele começou a perceber que não era fácil. Após 7 meses de cama, tentava dar esperanças para a família: “Eu ficava mal em ver minha família sofrendo, isso era o que me deixava pior, então procurava fazer de tudo para deixá-los felizes”. Começou então a longa jornada de fisioterapia domiciliar, ele esforçava-se ao máximo, eram duas seções por dia e seis dias por semana.

Até que conheceu a AACD: “Foi lá que eu me aceitei, você lidar com pessoas que têm o mesmo problema que o seu, ajuda muito a não se sentir diferente”. Lá Bruno foi colocado na reabilitação desportiva e encontrou na natação a força que precisava para se superar. De braçada em braçada, foi desafiando-se a cada dia, sempre com um sorriso no rosto e positividade.

Bruno após treino especial do Parque Olímpico Rio 2016, onde acontecerão as provas da Olimpíada e Paralimpíada 2016. (Foto: arquivo pessoal)

A SUPERAÇÃO COM A AJUDA DO ESPORTE

Fundado em 1950, a AACD, Associação de Assistência à Criança com Deficiência, é uma instituição filantrópica sem fins lucrativos que tem como objetivo reintegrar na sociedade as pessoas com deficiência, para que elas possam lidar com situações comuns do dia a dia e adquirir experiência.

Hoje a Associação possui 13 unidades, conta com uma equipe de 1700 colaboradores e aproximadamente 1400 voluntários, onde são atendidas diariamente cerca 5 mil pessoas.

Ao chegar à AACD Bruno começou a lidar de outra forma com suas dificuldades. “Muitas pessoas acham que vão para AACD e sairão de lá andando, na verdade não é bem assim, pois é uma reabilitação pro mundo”. Ele foi colocado na reabilitação desportiva na modalidade de natação, mas confessa: “no começo eu não aceitei, porque gostava mesmo de jogar bola”, mas depois descobriu seu grande potencial.

Edna Garcez, supervisora de Bruno na reabilitação, conta como foi ajudá-lo a voltar a nadar. (Video: Matéria SporTV)

Em 2010, Bruno já estava participando da sua primeira competição em Maringá, onde subiu ao pódio e conseguiu o índice brasileiro. Após 1 mês e meio depois, já estava viajando com o esporte.

“Tudo aconteceu muito rápido e eu fiquei impressionado com aquilo” declara com emoção e completa: “hoje a natação é minha maior motivação, acordo bem cedo, vou treinar, almoço e treino novamente, chego em casa acabado mas sei que vale a pena”.

Ele não satisfeito, começou a se aprofundar mais no esporte. Hoje, também joga basquete, pratica capoeira, tênis de mesa e remo, mas não nega que sua maior paixão é a natação, na qual compete por todas as modalidades. Já está no ranking entre os melhores atletas paralímpicos de natação do Brasil com alto rendimento, ao lado de Clodoaldo Silva e Daniel Dias.

Bruno e Daniel Dias após disputa dos 100m livre. (Foto:arquivo pessoal)

A AACD trouxe muitas oportunidades para Bruno, começando pela a reintegração na sociedade até o atleta que se tornou hoje. Atualmente, ele treina em Indaiatuba com uma equipe determinada, onde os atletas têm deficiências diferentes, mas isso é apenas um detalhe para eles, que sofrem e se superam juntos, construindo uma linda amizade em torno do esporte.

PROJETO ANDAR DE NOVO

Quem deu o pontapé inicial na copa de 2014 foi um jovem com paralisia. Isso só foi possível graças ao projeto desenvolvido pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que vem trabalhando no projeto Andar de Novo desde 1999 e em 2012 conseguiu o apoio da AASDAP, Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa.

Bruno e mais 7 voluntários, foram selecionados entre milhares de deficientes medulares para participar do projeto, que segundo a AASDAP tem como objetivo: “demonstrar o potencial das interfaces cérebro-máquina para uso clínico na reabilitação motora de pessoas com paralisia causada por danos neurológicos”.

“É algo inexplicável, tudo funciona através do seu pensamento” explica Bruno e completa: “No começo foi muito difícil, eu tinha que ficar parado na frente do computador cerca de 1h30 e apareciam setas para a esquerda e direita. Eu não podia me mexer, nem engolir saliva, apenas pensar para o computador conseguir identificar meu pensamento. Depois de um tempo o processo foi dificultando ainda mais”.

Ele conta como se sentiu quando conseguiu dar os primeiros passos com a ajuda do exoesqueleto, após muitos anos sem andar.

“É uma emoção incrível e única, tudo é muito real, você tem a sensação tátil e conforme o robô vai andando você sente a pisada nos braços e o cérebro entende que você está andando. É um negócio muito louco”.
Testes com o exoesqueleto do projeto “Andar de Novo” de Miguel Nicolelis. (Foto: arquivo pessoal)

Bruno vai até a central do projeto em São Paulo todas as quartas. Lá, os cientistas acompanham o seu desenvolvimento e testam novos aparelhos.

“Quem sabe uma veste robótica futuramente possa ser um tipo de roupa que colocamos e saímos andando. Tudo pode acontecer nesse projeto e eu tenho confiança na equipe Walk Again” conclui.

PARALÍMPIADA

Este ano, teremos a honra de receber um dos eventos mais importantes e mais esperados do esporte, em casa: a Olimpíada. Paralelo aos jogos olímpicos, acontecem também os jogos paralímpicos, que trata-se do esporte adaptado para atletas com diferentes graus de deficiência. Eles competem e se superam a cada etapa. Segundo o CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), os jogos passaram a enfatizar mais as conquistas do que as deficiências de seus participantes.

Um pouco da história da Paralimpíada. (Vídeo: Site Brasil 2016)

Bruno ainda não sabe se irá disputar os jogos paralímpicos nesse ano, para isso ele precisa superar 14 segundos nas provas que acontecerão em junho e julho. Mas uma coisa já é certa, ele recebeu a missão muito importante de levar a tocha olímpica em Itu, a qual passará pela cidade no dia 21 de julho.

“Eu estou meio em transe ainda, parece que não caiu a ficha, só saberei realmente no dia. É uma honra, pois existem vários atletas que gostariam de levar a tocha e não foram nomeados. Eu nem sei falar ainda, porque estou muito ansioso”.

A potência que o Brasil tem nos jogos paralimpicos é surpreendente e vem crescendo a cada edição dos jogos:

Quadro de medalhas dos jogos paralímpicos de 2008. (Foto: Site Brasil 2016)
Quadro de medalhas dos jogos paralímpicos de 2012. (Foto: Site Brasil 2016)

Em 2016, os atletas prometem vir com tudo. O objetivo é que o país termine os jogos entre os cinco melhores do mundo.

“Agora com as paralimpíadas no Brasil, a população terá uma visão melhor dos atletas. Se compararmos o esporte adaptado com o convencional é o mesmo sofrimento, pois trata-se de alto rendimento e tudo que tem alto-rendimento é sofrido. Os brasileiros tem mais olhos para o esporte convencional, porém o rendimento dos atletas paralímpicos brasileiros é bem maior. O potencial brasileiro é incrível”, declara Bruno.

O SONHO DE FAZER A DIFERENÇA

Bruno conhece as dificuldades que as pessoas com deficiência enfrentam, sabe que não é fácil a aceitação e posteriormente recuperação. O esporte o ajudou muito, na reabilitação, na autoestima, na determinação e na esperança, por isso ele tem vontade de poder fazer isso para as outras pessoas também, principalmente na sua região, pois não são todos que conseguem ir até os centros de reabilitação.

“Eu quero trazer pra Salto o esporte adaptado, para que as crianças, jovens e adultos possam praticar. Pois eu fico imaginando, se você têm um filho deficiente e quer colocá-lo para fazer alguma atividade aqui, não tem. Não é todo mundo que tem condição de ir até a AACD em São Paulo”.

Ele, em parceria com a secretaria da pessoa com deficiência de Salto, idealizaram o projeto Esporte para Todos, que teve uma apresentação no dia 16 de abril em um evento ocorrido na cidade. Lá, eles explicaram o que é o projeto e mostraram tudo o que as pessoas com deficiência são capazes de fazer.

Apresentação dos alunos de capoeira da AACD no evento “Esporte para Todos” realizado no Ginásio de Esportes em Salto. (Foto: arquivo pessoal)

“Pretendo junto com o conselho do projeto, poder ajudar o próximo a e superar através do esporte. O esporte muda mesmo a vida da pessoa”, diz Bruno com a vontade de fazer a sua parte mesmo em meio a suas dificuldades.

Quando o assunto é a superação e vontade de ajudar o próximo, como o Bruno, onde você está? Geralmente ficamos em dúvida sobre como ajudar, ou então sempre deixamos para depois, afinal “temos outras prioridades”. Porém, existem muitas pessoas que precisam da nossa ajuda e um simples gesto pode mudar uma vida. Acompanhe a matéria sobre o projeto em Itu que forma profissionais e ajuda pacientes em tratamento contra o câncer e saiba mais o quanto é importante ajudar quem mais precisa.

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