A Condição Pós-Moderna das radfem, a misandria transfóbica e o “fim do debate”.

“As fêmeas não têm que matar bebês meninos. Apenas não os alimentem. As fêmeas são forçadas a ter bebês meninos, mas após isso, as ações físicas de uma fêmea são só dela. Os machos vão morrer sem a infusão constante de energia feminina que eles têm dos nossos úteros e das nossas vidas. Elas podem muito bem pegar os pequenos machos das mãos da parteira e o que elas fazem a partir desse ponto é decisão *delas*. As fêmeas não precisam ser emocionalmente e intelectualmente investidas no futuro de um macho.” (Mary Syrett)

Infanticídio, eugenia forçada (afinal, qual não seria?), opressão transfóbica, discurso de ódio misândrico (elas se autodeclaram misândricas), essas são apenas algumas das bases “problematizadoras” das RadFem, uma tendência interna do movimento feminista que por muito tempo foi ignorada e desacreditada, no entanto é inegável que hoje vozes da RadFem ganham uma ressonância que ultrapassa as barreiras impostas pelo próprio bom-senso feminista e acaba por minar as bases do próprio movimento.

Primeiro, para se iniciar uma discussão sobre as RadFem temos de entender sob qual contexto elas estão inseridas. A ala radical – que não radicaliza, apenas extrematiza o movimento – se confere à partir de uma dialética ‘livre’, líquida, que foge às concepções materialistas, tais como o marxismo e o freudismo (Musse, 2005). Segundo as próprias radfem há uma necessidade de se haver uma canibalização aleatória de qualquer estrutura de vida comum – em seu aspecto cultural – já desenvolvido até então. Sendo assim, rejeita qualquer concepção sólida de realidade por entender que as estruturas sociais são falidas. E talvez sejam, realmente.

É indiscutível que a tendência traz em si explicações reais e questionamento legítimos sobre a violência estrutural que esmaga as mulheres no dia-a-dia e que, em momento algum, deve ser ignorada, mesmo quando não compreendida. Como também é indiscutível e inegável o desapreço pela ciência, fundamentando-se em uma fé alimentada pela solidariedade entre “manas” e pela fé na vivência. Vivência pela qual não necessariamente elas passaram, mas a carga cultural de uma suposta vivência de um determinado grupo, gênero, classe etc.

Partindo de uma lógica marxista, obviamente deveríamos entender que a opressão ocorre de várias maneiras, no entanto, de maneira convergente. Ex: uma mulher negra rica sofre preconceito por ser negra e sofre violência por ser mulher, mas oprime outra mulher negra pela classe social.

As lutas específicas têm sim seu valor e não podemos esvaziar as lutas de gênero, no entanto há um problema enorme quando se despolitiza a luta feminista e a joga apenas para a “masturbação vivencial” escamoteando a Luta de Classes, centro e causador das opressões.

“O feminismo radical é o único (não só em relação ao lib, mas ao socialista e ao feminismo anarquista) comprometido a fazer um movimento feminista baseado apenas na vivência das mulheres.” (Site Respirativa, 2014)

Esta projeção baseada “somente” (ao cabo, não é pouca coisa) na vivência das ‘mulheres’ (este é um ponto contraditório, afinal, o que é Ser Mulher para as radfem?*) não deixa de ser um ato de fé e de fundamentalização do movimento, é, ao fim, a rejeição à explicação sociológica e o passo final ao obscurantismo militante.

Devemos entender também que esta necessidade de priorizar a mulher – algo extremamente positivo – é uma resposta aos séculos que foram alijadas da construção social e de sub julgamento cultural, pois temos de ter em mente que toda a nossa concepção de mundo e conhecimento é, sim, masculina. Foucaut, por exemplo, em seus ensaios sobre o Conhecimento disse que o Poder está estritamente ligado ao que você conhece, pois havendo conhecimento há dominação. Os homens fundaram correntes de pensamento, dominaram as universidades, institucionalizaram na academia a sua linha de pesquisa, no entanto, a solução encontrada pelas Rad é exatamente abandonar a disputa pelo conhecimento e ir por outro caminho. Caminho esse, desconhecido.

Essa prática é filha dileta da pós-modernidade na qual a tendência se encontra inserida. A liquidez cultural engoliu qualquer performance consistente. Nestes tempos de modernidade liquida (Bauman, 2000) onde a vida e a vivência são precárias e a percepção e construção desta percepção são volúveis, a inconsistência do discurso delxs acabam por “fragmentar e pulverizar as mulheres, o que não contribui para a luta por elas empreendidas.” (Mirla Cisne, 2009).

O distanciamento da luta radical dos debates acadêmicos tem um motivo claro: apesar deste grupo se refugiar em dce’s, coletivos universitários, grêmios estudantis e organizações estudantis, há uma clara preguiça teórica combinada à desonestidade intelectual, onde, fora do debate e sem qualquer intenção de racionalizar a opressão, elas podem se colocar acima dos questionamentos e dona de um outro chão-comum, comum apenas a elas próprias.

Se, até então, o conhecimento era masculino, o não-(re)conhecimento se torna arma dialética das radfem.

Apesar da histeria de grupos neoconservadores que mentem, inventam e criminalizam a tendência, há sim argumentos fundamentados em bases lógicas: como que, entendendo que o conhecimento é cultural e que a batalha é pela dominação no campo das idéias, uma voz influente dentro da tendência propusesse a morte a crianças-machos por considerá-los futuros estupradores, como podemos notar no relato abaixo:

“Obrigado pelos comentários de apoio, irmãs. Eu honestamente tenho reavaliado o fato de estar fornecendo cuidado a esses pequenos futuros estupradores e o que isso diz sobre mim e meu separatismo. Eu sei que é meio contra meus princípios dar a poio e cuidado a esses pequenos fodedores. As mulheres de quem eu tenho mais pena são as mães deles. A forma como esses meninos tratam suas mães é realmente chocante, toda hora as mães estão tentando ser perfeitas e amorosas e toda essa bosta. Se esses moleques fossem meus, eles pagariam o inferno.” (Danielle Pynonen)

Há um caldo político que condiciona certos tipos de relações e, declarações como essas, foram adubadas por este caldo. O ambiente é favorável à disseminação deste tipo de ódio, pregado de forma como se a o machismo, a misoginia e a violência de gênero fossem biológicas, e não socioculturais. É a miséria teórica de grupelhos preguiçosos intelectualmente.


TORNE-ME MULHER, MULHER

Poucas vozes são tão excluídas da sociedade quanto as de transexuais. Segundo a médica psicanalista Elizabeth Zambrano, “falar de transexuais é abrir as portas de um mundo desconhecido para a maioria de nós. Para o olhar leigo, a concepção de um/a transexual se confunde, ocasionalmente, com outras identidades/sexualidades do universo da diversidade sexual [...] para muitos, a identidade transexual provoca incômodo, estranhamento e incompreensão.” (Zambrano, 2011).

Essa política de indiscrição identitária é levada a sério pelas RadFem, que é também um grupo auto identitário que não concebe a feminilidade para além da vagina desde o nascimento. Para esta vertente a opressão é biológica. A vagina confere um status de inferioridade social, negando por exemplo que a homofobia é um traço de violência machista e que recai sobre homens.

Esta idéia de identidade determinada pela biologia acaba por referendar os argumentos transfóbicos, homofóbicos e lesbofóbicos, tendo em vista que a sexualidade, em ambos os casos, não estão em consonância com a carga cultural imposta sobre sua condição biológica. No entanto, no caso dx transexual é mais complexo e, neste caso, as “problematizadoras” hipersubjetivistas preferem ser reducionistas e não entender – ou fingem não entender – que “o sujeito transexual descreve a si mesmo como pertencente a um gênero discordante do sexo biológico com o qual nasceu.” (Zambrano, 2011). O fato de delimitar a concepção do Ser-Mulher à condição biológica acaba por excluir, marginalizar e oprimir um gênero que ainda não tem identidade por não ter socialização, afinal, nasce-se homem mas enxerga-se mulher.

Qual a socialização para estes se o grupo pelo qual eles se identifica não se identificam com eles?

Como podemos reduzir a sexualidade e o gênero se há uma vasta problematização intrínseca à própria transexualidade? 
vejamos: estudos feitos para ‘diagnosticar’ a transexualidade tem quadros bem heterogêneos onde nem todxs trans se encaixam, o que demonstra que o gênero não pode – e nem deve – ser demarcado por grupelhos organizados, haja vista que esta mesma vertente se opõe às explicações antropológicas e científicas, assim sendo, qual a base teórica e legítima para as radfem demarcarem o gênero e marginalizarem transexuais?

Observando a construção dialética da vertente, elas se apóiam em esbirros autoritários de uma retórica imperativa que nega a identidade e a socialização – para criação desta identidade – com base em preconceitos próprios. A muleta da discriminação no seio da radfem é a misandria pregada por suas expoentes. Claro que esta misandria está alicerçada como resposta à violência sofrida reiteradamente pelas mulheres. Pois, o quê, se não a violência, que unem mulheres de diferentes gerações, classes, raças em torno de uma causa comum?

É partindo desta idéia, de unidade como contrapeso, que a exclusão da transexualidade opera de forma opressora.

“Se a vida dos indivíduos que pertencem a grupos LGBT costuma ser muito difícil quando se trata de direitos, preconceitos e discriminação, para travestis e transexuais a vida é, certamente, pior” (Zambrano, 2011). A esta constatação, acrescento um erro ocasionado pelo alijamento dxs pessoas trans pelo movimento feminista, afinal a transexualidade não é uma questão inerente à sexualidade, mas sim uma reforma de gênero.

A negação ao direito trans atenta não somente contra a formalização da subjetividade plena, quando, socializada, pode se ter plena certeza de sua identidade, mas também atenta contra a cidadania trans. 
Se o Ser-Mulher é uma construção sociocultural, por que impede-se de construir a identidade da mulher trans?

Há quem ache que desconstruir o nojo de menstruação é mais importante que dissolver a misandria transfóbica.


“CALA BOCA, VOCÊ É ÔMI” okay, vamos ouvir então as mulheres e as trans

Eu sou homem, cis, branco, classe média. Tenho todos pré requisitos para, na dialética radfem, não ter direito à voz – concordo que tem assuntos que SOMENTE AS MULHERES DEVEM SE MANIFESTAR, como aborto, por exemplo – ou para desqualificar meus argumentos, afinal a opressão é biológica e a minha genética influi em minha retórica.

Portanto, não vou falar à partir de agora. Agora são elas.

Perguntei a uma amiga, que não irei nomear, sobre o que ela achava sobre as práticas pregadas pelo site RadFem Hub. Ela resumiu em “bizarras”.

Thaislane Santos, estudante de engenharia química, respondeu: “não se deixa de tratar um bebê como uma anomalia, olhando pelo senso comum, tudo que não se encaixa num estanque de gêneros é como se fosse anormal, doença, psicótico [...] já que o feminismo está ai justamente para apoiar as mulheres, trans, travestis e etc.” Percebe que as próprias mulheres não concebem a visão minimalistas das radfem sobre gênero e nem concordam com a narrativa de demonização do Outro, como estava sendo feito à partir de crianças do sexo masculino cis. O discurso de ódio, a defesa pela eugenia forçada, a caricatura hiperbólica do demônio sexual, acabam por lembrar o mais odioso homem misógino.

A busca pela falsa racionalização e o determinismo biológico não encontram base nem na história, nem na sociologia. Se transportarmos a lógica da violência de gênero para um campo teoricamente mais palpável, como a violência racial, vemos que “a condição biológica só foi empregada depois pelos escravocratas e pelos comerciantes* para obterem dominação social, porém a justificativa que sustentava o negro na base da pirâmide social como escravo era econômica.” (Moore, 1985). Obviamente, não é o campo econômico tal qual o do negro (que por ser mais forte e resistente era melhor para o trabalho forçado) que determina a opressão sobre a mulher, no entanto é inegável que também não é somente o fator biológico que possibilita a opressão e a desigualdade de gênero.

Não é o pênis que oprime. São os homens e sua estrutura de Poder.

A fragmentação do movimento, a marginalização, a reprodução de preconceitos velhos e esburacados (como o de que o sexo determina o gênero), são condicionantes de um perfil de uma pseudo-militância que está fadada ao fracasso por anacronismo.

O desapreço ao debate público é conseqüência de uma desconstrução teórica baseada em uma leitura oportunista das relações modernas. A pós-modernidade aposta na superação do debate. Isso somente leva da traumatização do militante à atrofia da causa.

A causa é boa. A luta, não.

  • Postado originalmente no Blog Os Politiqueiros, de Patrick Lima