BREXIT E A NECESSIDADE DE UMA PERSPECTIVA ALÉM DO CAPITALISMO

Havia um professor meu que dizia que haviam duas formas dele anunciar as notas bimestrais: de forma sincera, sucinta e rápida, ou, poderia ser sincero porém prolixo e demorado. A grande questão é que em ambos os casos havia apenas a ilusão de serem opções antagônicas; o resultado final não seria mudado, o destino já estava selado, apenas nos restava dizer como queríamos receber a (boa ou má) notícia. Isso me veio em mente por um motivo que ganhou os noticiários do Mundo: a saída da Grã-Bretanha da União Européia.

O plebiscito esconde o problema que deveria se sobrepôr à votação: tanto o Reino Unido quanto a UE estão presos numa falsa dicotomia, onde de um lado se apresenta a capitulação ao Capitalismo Global e do outro temos o Populismo xenófobo de Direita. Essa falsa dicotomia é declaradamente falsa por ter como pano de fundo a mesma raiz ideológica, o Nacionalismo.

Uma imigrante quando entrevistada por um jornal Brasileiro, perguntou: quem eles [os ingleses] irão culpar quando nós formos embora? 
É uma pergunta interessante. Traz nela a subjetividade de todo o processo; ou, em outros termos, se o problema nacional foi o enfraquecimento do Estado-Nação, foi a perversão da própria identidade e etc., não estaria então a Inglaterra renegando as próprias ações, sabendo que foi - e ainda é - um país colonialista?

No entanto, não é esse o cerne da discussão em torno do Brexit, bom, ao menos não é esse o cerne dentro de meu texto. 
Adiante, o Nacionalismo que surge em todo o mundo não brota de um vazio, ao contrário, cresce em um terreno fértil adubado pelo próprio Capitalismo e seu radicalismo sem igual. 
O Populismo xenófobo é apresentado hoje como única fonte de proteção aos interesses da classe trabalhadora e dos menos favorecidos. O fato de que, quase simultaneamente, movimentos e líderes separatistas avancem em todo o mundo - Brexit, na Ucrânia, Trump, Le Pen, Bolsonaro e afins - é, ironicamente, sintomático. Apesar de todos estes parecerem ser o remédio, são, na verdade, a exposição, a exteriorização do problema. 
Não podemos nos esquecer do Grexit. Neste, em particular, ambos os lados queriam a saída da Grécia da UE: Os Alemães assim queriam porque acham que a Grécia é um fardo grande demais para ser carregado; os Gregos por quererem se livrar dos tecnocratas sem voto que distituem democracias de maneira 'branca’. O remédio? Decidiram que, como em um casamento velho e fracassado, o melhor era continuarem juntos e buscarem cuidar de suas 'crianças’.

O Washington Post publicou uma matéria onde dizia que uma onda de arrependimento toma conta dos ingleses pós-plebiscito. A razão é a mais óbvia possível: após a ressaca da vitória do "sim", do êxito do Brexit, a conta é cobrada pelos burocratas e financistas de todo o mundo; os mercados não perdoam a democracia. Nao permitem "decisões erradas".
Contrariar o próprio desejo seja, talvez, o maior papel da Política contemporânea.

Então, o que realmente quer a Inglaterra saindo da União Européia? Ora, se de um lado temos uma Direita que culpa um grupo "invasor" pelas desgraças em solo nacional e do outro uma Esquerda que crê que os muros, barreiras e divisas ajudam na conservação de uma narrativa apaixonada e acesa, o melhor aqui é recorrer a Hegel: A busca é pela verdade nua, sem seu véu. Em ambos os casos [na conservação da Grã-Bretanha na UE ou em sua saída] a mentira do Nacionalismo encobre a verdade latente: o Capitalismo é incapaz de produzir suas benesses sem que, a longo prazo, o único caminho para mantê-lo (ao menos a uma parcela) seja a destituição de seus valores democráticos, transmutando-se em um regime totalitário (seja pelas mãos do Estado ou pelo Capital).

Desde a queda do Muro de Berlim até o Plebiscito desta semana, o que temos visto é a projeção política da Ideologia única, é a materialização do 'fim da história'; as Esquerdas perderam capacidade para trabalhar transnacionalmente, agora tem de se agarrar às narrativas da Direita mais conservadora e reacionária para conseguir criar diálogos. 
Esta incapacidade política é fruto da incorporação do Liberalismo no vocabulário - e nas ações práticas das Esquerdas.

Este momento de indecisão e extrema urgência é marcada pela própria incompletude, portanto, enquanto objeto incompleto e vazio há a possibilidade de criação. É neste vazio dessubstancializado que há a esperança na mudança e na concretude da realização de um projeto que possa importar todas essas narrativas, questões e desafios para dentro de uma perspectiva monista ontológica, como aponta Markus Gabriel, pondo dentro deste domínio político todos os demais domínios. A solução passa por se criar uma alternativa onde a ideia de salvar-se não seja, como bem observou Slavoj Zizek, andar no limiar entre o Socialismo Nacionalista e o Nacional Socialismo, mas sim despejar de forma bruta nas fronteiras de todo o mundo o fantasma do Comunismo.

Agora, quando o Mercado - esta abstração onipresente - impõe uma nova versão do Brexit, quando o Reino Unido é posto frente-a-frente com seu legado - da colonização até o neoliberalismo Thatcheriano - é necessário romper mais uma vez com o medo; ao contrário do que o Capital Financeiro quer, o RU não deve recuar, mas sim dar um passo adiante. 
Recusar os tecnocratas de Bruxelas é apenas o primeiro passo que precisa ser obliterado pelas Esquerdas. Somente a condensação deste desejo, ainda, incipiente pode salvar o RU e a Europa. 
É necessário e urgente a retomada de uma grande narrativa que conduza as populações à frente. O medo de errar não pode se sobrepôr à vontade de tentar se superar.

Patrick Lima

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