POR QUE SOFREMOS QUANDO FAMOSOS TERMINAM SEUS RELACIONAMENTOS?

Nenhum daqueles videntes de começo de ano que frequentam programas matinais como "Mais Você" teve a audácia de especular que em 2016 tantos amores eternos se furtariam de cumprir seu óbvio destino. A eternidade de casamentos sólidos desabou como se poeira fossem, e então toda a Internet - quase uma entidade fantasmática - desabou em lágrimas, lamentos e novas certezas: O amor não vale a pena.

Mas, por que sofremos tanto quando casais famosos terminam suas relações? Há uma resposta automática e bonitinha para essa questão: "O mundo precisa de amor!! Quando relacionamentos assim acabam, é como se a esperança de amor verdadeiro acabassem também!". O risco de se aceitar uma desculpa esfarrapada dessa é que toda a escama ideológica que permite essa emotização das relações alheias é, também, aceita como real.

Na minha coluna semanal no site Direto da Cidade, no dia 16/08, analisei a polêmica em torno da popularidade do relacionamento entre a Harley Quinn e Joker, o casal de vilões em "Esquadrão Suicida". Eu disse que o incômodo que esse casal representava era que encarnavam a desilusão dos modelos tradicionais de família. Em suma, a ~ romantização ~ do abuso, apesar de hiperbólico (afinal, é uma ficção), não representava uma mentira que deveria ser combatida por enganar os incautos, e sim pelo seu contrário; era uma verdade incômoda. As bases tradicionais de relacionamentos são fictícios, a sua prática remonta aos vícios que no casal vilânico exagera em existir.

Em contrapartida aos dois personagens da DC Comics pus o casal Brad Pitt e Angelina Jolie. Quem mais, senão eles, encarnou o espírito Hollywoodiano como se suas vidas fossem anexo de seus filmes? Era um casal modelo em todo o cinismo próprio de qualquer padrão. 
De Fátima Bernardes a Jolie, passando pelo retorno de Clarice Falcão, todo o sofrimento coletivo em torno de relações fracassadas é que a destruição de alguns anos juntos sugere que nossas certezas em relação ao amor estavam erradas, uma parte [fundamental] de nossa concepção de mundo desmoronou.

Clarice/Duvivier (e toda polêmica de amor e ódio dos fãs), Fátima/Bonner, Jolie/Pitt, enfim, esses metacasais configuram a reificacão dos sentimentos. Eles próprios encarnaram a roupagem de objeto ao invés de se sujeitarem ao seu papel de humano. A imagem de cada um vale (A), enquanto a imagem deles juntos vale (+B). Não é simplesmente marketing nem conta perversa, esqueça isso, a encenação é boa exatamente porque há verdade nela.
Dentro da lógica capitalista que rege as relações humanas, encontramos na nossa imagem também uma forma de mercadoria.
O amor ao amor dos outros, essa amabilidade por relações a quais somos alheios, traduz a superficialidade com que nos localizamos no mundo.

Necessariamente, a falta de pigmento em nossas vidas nos faz deslocar essa estranha falta na imagem mercadológica que nos apresentam. Por exemplo, no caso "Carta do Duvivier" (ou, "desculpe o transtorno") as demonstrações de ódio eram regidos pelo mesmo aparelho ideológico, somente exteriorizado de forma invertida, todos achavam que o caminho era seguir em frente, sem qualquer tipo de saudosismo ou saudade, por mais sincera que fosse. É o "supere" como imperativo de vida.

No caso Jolie, há um tipo de conservação das aparências. O casal suscitava a imagem perfeita do Capitalismo dos bons homens de Davos. Ricos, bonitos, bem sucedidos, adotaram crianças de países pobres e os amaram como ninguém mais amaria. 
Será necessário dizer que, até então, tudo aqui é fictício. Nossa visão estreita acaba por obliterar a verdade sobre esse exemplo de família. 
A capa feliz, moderna e conservadora esconde, por exemplo, que são frutos de uma traição ocorrida a partir de envolvimento no local de trabalho. Que, segundo fonte primária da TMZ, tiveram esses anos manchados pelo consumo de drogas e traição. Por que esse casal causa comoção em escalas tão grandes?

A resposta só pode ser feita a partir de nossa visão limpa através de lentes críticas. O amor ou o ódio ao sentimento dos outros, nesses casos que parecem invadir nossas vidas, remetem-nos ao próprio apreço à mercadoria. Objetificamos casamentos a ponto de, em meio ao seu vazio, nos apegarmos ao simulacro de modelos. Tudo se resume a quanto estamos dispostos a abrir mão da própria ficção com que reconhecemos certo prazer, perversão ou horizonte. Sofremos por estarmos inseridos numa lógica onde consumimos quadros dessubstancializados em que a produção atende a somente chamados estéticos.

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