O Príncipe e a Adanna

Suas memórias daquele dia ainda são claras como diamantes.

Pisou na terra batida e olhou à sua volta. Seus pais, os soberanos das terras de Samsel, muito a norte dali, estavam lá, com toda sua corte, em uma missão diplomática. Queriam a garantia de que o Povo do Sul estaria ao seu lado caso a guerra civil de Zhou acabasse por se tornar uma guerra mundial.

Seu pai, o grande rei de Samsel, Berius, apertava firmemente a mão de um homem alto, muito mais alto que qualquer outro homem que o príncipe já tivesse visto.

Alver olhava para as pessoas do sul, boquiaberto. Morando tão ao norte, lá em Samsel, o pequeno príncipe estava acostumado a ver pessoas nortenhas, de pele clara e cabelos claros. As pessoas por ali tinham a pele em tons escuros, indo de leve tons acobreados até tons sombrios de marrom, contrastando com a branca esclera de seus olhos. Eram todos altos, atléticos e de rostos sábios.

Para Alver, o Povo do Sul era fascinantemente lindo.

As terras do sul eram lindas. O clima quente contribuia para que a densa vegetação que rodeava a cidade fosse de um verde brilhante, e o céu azul era salpicado de pequenas nuvens brancas. A cidade onde estavam, Dakali, era a mais próxima da divisa das terras do norte com o sul, e o local marcado para a reunião de governantes. Altos casarões de pedra e madeira enfeitavam a cidade, e pessoas transitavam por todas as partes.

“É como Samsel”, Alver pensou, “mas muito mais bonito”.

-Alver, venha cá. — O garoto ouviu a voz de sua mãe.

Dirigiu-se até onde a rainha estava. Ao lado dela, uma jovem alta, dois ou três anos mais velha que ele.

A garota curvou-se respeitosamente diante de Alver, que repetiu o gesto, atrapalhado. Em seguida, tocou o lado direito do rosto do príncipe e juntou sua testa à dele, num movimente breve, os afastando rapidamente.

-Esse é o cumprimento das terras do sul. Seja bem-vindo. — Ela disse. Falava a língua-comum com um forte sotaque da língua Amadi, a língua do sul. Suas palavras eram rápidas e sofriam um pouco com a língua levemente presa da moça, mas Alver não conseguia responder.

Ela era bonita demais.

Entreolharam-se por alguns segundos, até que Alver percebera que provavelmente estava com o rosto vermelho.

-Ah! Ah, sim! Eu sou o príncipe Alver Xiarath, de Samsel. É um prazer conhecê-la.

-O prazer é todo meu, Alver Xiarath. Chamo-me Izem Obi. Sou a adanna das terras do sul.

-A… Adanna? — Alver levou a mão ao queixo, tentando buscar em sua memória a tal palavra.

-Significa “princesa”.

-Ah, claro.

Alver olhou para suas próprias botas, sem saber como continuar a conversa. A rainha Amelie bagunçou os cabelos escuros do filho.

-Alver, por que você e a adanna Izem não vão dar uma volta? Conhecer a cidade?

Izem assentiu, abrindo um sorriso sincero.

-Seria um prazer levá-lo para conhecer os arredores, príncipe Alver.

Izem apontou para o centro da cidade, já partindo. Alver foi atrás dela.

O garoto não conseguia parar de observá-la. Era dez ou quinze centímetros mais alta que ele. Dava passos largos e firmes, e o impacto das pisadas não afetava o quão perfeitamente ereta sua coluna era. Vestia calças brancas de tecido leve, sandálias e uma túnica em tons vibrantes de vermelho e azul, com as costas abertas, exibindo parte de sua musculatura trabalhada. Os cabelos encaracolados saltavam como uma juba de sua cabeça, descendo sobre os ombros e pelas costas, com breves mechas sobre o rosto, saltitando a cada passo dado. Uma pulseira de contas fazia sons de chocalhos em seu pulso direito, e em seu cinto, que Alver não havia percebido até agora, jazia uma estranha faca de caça, comprida e de lâmina curvada, envolvida por uma bainha de couro.

Passaram um bom tempo falando sobre suas diferenças culturais, aumentando o fascínio de um pelo outro. Alver provou a forte comida apimentada do sul, enquanto Izem ria de sua reação desesperada.

Sentaram-se sobre uma grande pedra próxima aos limites da cidade, observando o pôr-do-sol.

-Sabe, Alver… Você é interessante.

-Você também, Izem.

Entreolharam-se. Diferente da primeira vez que se viam, havia ali um respeito mútuo. Uma representação mútua. Algo mais.

Alver era jovem demais para explicar, e Izem era inexperiente demais para o mesmo.

Era amor à primeira vista. Ou à segunda, no caso.

Juntou suas mãos às dela, e um brlho fraco surgiu entre seus dedos.

-O que você está fazendo?

Alver sorriu. Ele ainda era um mago em treinamento, mas conseguia fazer algumas coisas sem seu cajado. Uma pequena flor de vidro surgiu entre as mãos de Izem.

-Aqui. Não é a coisa real, mas… Acho que essa flor não existe por aqui.

-É linda. — Izem prendeu a flor de vidro entre os cabelos — Como se chama?

-Calíope.

Entreolharam-se pela terceira vez. Mãos invisíveis empurravam-nos para perto um do outro. Uma voz gritou:

-Príncipe Alver, seus pais vão partir em breve!

O encanto foi quebrado. Alver olhou para Izem.

-Mas já?

-Creio que sim. Sua família está viajando pelas terras do sul, certo? Meu pai não é o único governante.

Levantaram-se. Alver parecia chateado. Seu coração de treze anos estava acelerado.

Sentiu as mãos de Izem sobre seu rosto.

Um beijo rápido.

-Alver. No futuro, eu… Eu terei que procurar um pretendente.

-Eu também. Para ser a rainha de Samsel. Digo, para que ela seja a rainha de Samsel, não eu.

-Tolo. — Izem riu — Eu não quero ser a matriarca de alguém que meu pai encontrar.

Os olhos de Alver brilharam. A garota continuou falando.

-Eu quero que você seja meu príncipe.

Alver abraçou a garota, afundando o rosto em seu pescoço. Izem agarrou o rapaz, apertando-o forte contra seu peito.

-Eu serei. — Alver respondeu, com a voz abafada.

Separaram-se. Izem tocou a flor de vidro no cabelo.

-Está selado, Alver. Eu estarei esperando o seu retorno. Você será meu príncipe, e eu serei a sua…

Alver engoliu em seco. Tentou dizer da maneiro menos clichê possível.

-Minha Princesa Calíope.

Izem ficou quieta. Começou a rir.

-Sim, eu serei a sua Princesa Calíope, Alver.


Alver acordou. Passou as mãos pelo cabelo grisalho. Olhou para o lado.

Lá estava ela. Continuava altiva. Continuava bela. Ainda era uma deusa.

Sorriu e aconchegou-se ao lado da esposa.

De sua Rainha Calíope.

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