A Literatura Parte dos Clássicos Porque os Clássicos São a Literatura

Uma amiga do Facebook pediu minha opinião sobre um texto — publicado originalmente na insuspeita Revista Galileu — de uma tal de Gabriela Rodella, intitulado “A Literatura Não tem de Partir dos Clássicos”. A Sra. Rodella — doutora em pedagogia pela USP — acredita piamente que devemos iniciar o ensino de literatura nas escolas, não pelos clássicos da língua portuguesa e da literatura mundial, e sim, pelas leituras de divertimento — Harry Potter, 50 Tons de Cinza e etc. — que nós fazemos nas horas vagas. Vejam que maravilha, na concepção pedagógica da Sra. Rodella não existe distinção nenhuma entre leituras de entretenimento e leituras de formação, ou entre literatura e imitação de literatura, e que é uma excelente idéia, primeiro destruirmos o imaginário e a percepção de sua própria língua materna nos alunos, para depois, quem sabe, eles se interessarem por livros “chatos” de literatura de verdade. É óbvio que essa dona é uma besta quadrada e conceder a ela dois minutos de atenção, ouvindo seus conselhos pedagógicos, é certeza de ficar mais burro.
«Homero, Virgílio, Dante e Milton são os autores que todo bom poeta leu (…) Formam, com a Bíblia, a espinha dorsal de qualquer programa sério de leitura.» (Mortimer J. Adler)
A resposta-comentário que fiz ao texto:
Analisando o título do texto, já percebemos claramente que a Sra. Gabriela Rodella parece não saber nem mesmo o que é literatura — apesar de ser doutora pela USP com uma tese sobre o assunto. A linguagem literária é a forma de expressão dos homens e mulheres atentos de todas as épocas, aqueles que, com uma forma de atenção especial sobre a vida, conseguem captar aquilo que existe de mais sutil no convívio do homem com a Realidade, tornando dizíveis coisas que, sem eles, dificilmente conseguiríamos expressar, muitas vezes, sequer perceber. Quando Gustave Flaubert criou a Madame Bovary, ele percebeu certos traços de personalidade e tornou aquilo dizível, e a partir desse momento, podemos reconhecer facilmente uma Emma Bovary quando vemos uma. Ele tornou visível uma possibilidade humana que já existia, porém, encontrava-se oculta, mas ao escrever o livro, ele como que a descortinou para nós e aquilo tornou-se reconhecível. Uma das funções da literatura é expressar as possibilidades humanas, as impressões autênticas, os materiais brutos da Realidade em uma forma inteligível, de livre acesso à todos. Dito isto, cabem aqui duas distinções elementares: existe a literatura e a imitação de literatura, e existem tipos diferentes de leitura.
A primeira distinção tem de ser feita entre livros que fazem realmente parte da Tradição literária e outros que estão irremediavelmente fora dela. No texto, o aluno que interpela a Sra. Rodella é “um voraz leitor de Harry Potter” que considera Machado de Assis e José de Alencar “chatos”; porém, os dois autores brasileiros escrevem livros de literatura e J.K. Rowling escreve imitação de literatura. É claro que para a Sra. Rodella deve ser tudo a mesma coisa — impressão essa que se confirma dois parágrafos abaixo — , mas não é. A literatura, como qualquer outra comunidade de ofício, tem sua própria linguagem, suas tradições de aprendizado, seus códigos e sua arquitetura interna, e isso fica claro quando estudamos a história da literatura e percebemos que, desde Homero e Hesíodo, todos os grandes escritores lêem-se uns aos outros, aprendem uns com os outros, discutem, respondem e são influenciados por seus predecessores. Existe uma unidade por trás da variedade — o poeta T. S. Eliot dizia que um escritor só é realmente grande quando em seus escritos transparece, como em filigrana, toda a história da arte literária — , e a medida em que o indivíduo vai se tornando um leitor experiente — lendo as grandes obras literárias que marcaram época de maneira atenta e aprofundada — , essa distinção entre quem está e quem não está dentro da Tradição salta aos olhos.
A segunda distinção fundamental é sobre os tipos de leitura: existem, por exemplo, leituras formativas, informativas e de diversão, entre outras. Quando você lê Machado de Assis, você está preocupado — idealmente — em apreender as experiências, as possibilidades humanas, os sentimentos, a profunda psicologia dos personagens; essa é uma leitura de formação e não de diversão — apesar de você poder se divertir lendo As Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Quincas Borba, mas isto é secundário. Já quando você lê Harry Potter ou Percy Jackson você o faz para passar o tempo, se distrair, se divertir.
O problema é que os alunos não sabem dessas distinções; não sabem porque os professores também não sabem; já esqueceram-se do que é literatura, das distinções e objetivos das leituras; colocam no mesmo patamar Virgílio e Stephenie Meyer; Balzac e E. L. James e assim por diante. É claro que um aluno vai preferir ler Harry Potter ao invés de Dom Casmurro, o primeiro causa prazer, diverte, distrai, o segundo, amputado de suas finalidades, é imposto como uma obrigação, sem distinções ou objetivos, um livro que ele tem de ler para tirar uma boa nota na prova.
E qual a solução genial que a Sra. Rodella apresenta para solucionar esse abismo na formação dos professores? — e na da própria autora, para a qual, essas coisas básicas, que qualquer pessoa que estuda literatura com seriedade deveria saber, parecem invisíveis. Fazer as distinções e explicar por que os alunos devem ler os clássicos? A resposta é não; a solução, segundo a doutora é: “Um primeiro passo para formar leitores críticos seria trazer a literatura de entretenimento para dentro da sala de aula. Trabalhar com o relato dessas leituras, debater a estrutura das narrativas, discutir seu apelo e sua recepção. É preciso partir do que os alunos leem para construir um repertório em comum.” Leiam com atenção o que essa senhora diz: que não devemos fazer as distinções que dissipariam em parte a má vontade dos alunos para com os clássicos, e sim, trazer a imitação de literatura, a literatura de entretenimento para dentro da sala de aula, atitude essa que seria um primeiro passo para a formação de “leitores críticos” (sic). É óbvio que isso é uma palhaçada, e esse tipo de idéia não merece um minuto de atenção. Essa dona sugere — com ar cândido de quem não sabe a besteira que está dizendo — que não devemos elevar os alunos a altura dos clássicos, e sim, rebaixar as aulas a estatura das leituras de divertimento que as crianças fazem em casa. São os alunos que educam os professores sobre seus gostos literários e não o contrário.
Não preciso nem dizer o mal que esse tipo de idéia causa sobre os mais jovens. A literatura brasileira é muito pobre em alguns aspectos, e seria necessário complementá-la com clássicos de outras línguas, fornecendo aos alunos possibilidades e experiências humanas riquíssimas, porém, se até a própria literatura portuguesa e brasileira é deixada em segundo plano, imaginem os clássicos estrangeiros? Se por um lado a literatura tem sua parte imaginativa, humana, por outro tem sua parte material, a língua na qual foi escrita, sua gramática e etc. Substituindo Camões, Graciliano Ramos e Eça de Queiróz por Crepúsculo e 50 Tons de Cinza, o professor está trocando as mais altas realizações da língua portuguesa por traduções do inglês — muitas vezes mal realizadas — , que vão desenraizando o estudante de sua língua materna, fazendo-o escrever em sintaxe estrangeira com palavras portuguesas — sem nem perceber — e isso é um crime em todos os aspectos. Depois de tudo isso, a Sra. Rodella diz que o segundo passo é introduzir a leitura dos clássicos da nossa literatura em sala de aula — ainda amputadas das distinções e explicações que dão sentido ao estudo — para, quem sabe, os alunos, depois de viciados em leituras prazerosas e imbecilizados em sua língua materna, se interessem por aqueles livros “chatos”. Essa dona Gabriela Rodella é uma besta quadrada, uma imbecil, uma incapaz que não serve nem para ser professora de parquinho, quanto mais doutoranda em pedagogia e literatura. Essa mulher tem que ser desmascarada para aprender a ficar quieta, ir fazer outra coisa da vida e parar de querer ensinar aos outros o que nem mesmo ela sabe. ■

