Encontrando e Realizando Suas Possibilidades

Muitas pessoas, principalmente no Brasil, tem o costume de imaginar que, para desempenhar certas atividades — geralmente as atividades do espírito/artísticas — , é preciso ter nascido com uma coisa chamada “dom”. Quantas vezes já ouvimos: “Esqueça isso! Para ser [insira aqui algo como músico, cantor, pintor, poeta ou escritor] é preciso nascer com o dom”.

Imaginam que grandes poetas e artistas nasceram sabendo fazer o que fazem, sem precisar estudar ou aperfeiçoar-se. Crêem que Goethe, por exemplo, acordou um belo dia, sentou-se na cama e disse: “Nossa, que vontade de ser poeta, deixa eu pegar aqui pena e papel e escrever o Fausto”. Confundem a disposição natural para algo com a aparente facilidade de realização, e esse equívoco tolhe muitos talentos pela raiz.

Outro pensamento recorrente é a diminuição assustadora das possibilidades que alguém possa desenvolver. Acreditam piamente que é impossível ser um bom poeta e fotógrafo; um poeta, fotógrafo e pintor, e assim por diante. No Brasil, você sempre tem que ser uma coisa só e olhe lá — de preferência deputado ou concursado, porque “dá dinheiro”. Porém, não é assim que as coisas funcionam. Cada um de nós tem dentro de si uma série de potências. Por exemplo: Se você imaginou com sinceridade que gostaria de ser poeta, é porque essa possibilidade existe em você e, justamente por isso, você imaginou ela e não outra coisa qualquer. Todos temos no espírito algumas pré-disposições que nos são inerentes e que precisam ser trabalhadas para frutificar. E acredite, elas não são muito numerosas; é provável que você não tenha muitas opções, mas as opções que possui são plenamente realizáveis.

O segredo é olhar para dentro e se perguntar, com toda a sinceridade: Quem eu quero ser? Baseado em sua resposta, você terá uma idéia de quais são suas potências e como precisa trabalhá-las. Esqueça opiniões de terceiros — que geralmente servem apenas para diminuí-lo ou desacreditá-lo — , essa questão é íntima demais para ser compartilhada. Você precisa encontrar suas possibilidades sozinho.

Nesse processo são muito importantes os modelos que você tem a sua disposição. Quanto maior o leque de modelos, maior a variedade de possibilidades humanas que podem auxiliá-lo na descoberta das suas próprias possibilidades [1]. A admiração que você sente por certos autores, artistas e pensadores pode ser um indicativo de suas potências. Quais são os pontos que ligam você a um autor em particular? Em que ponto seu espírito toca essa ou aquela obra? Você gostaria de ser uma mistura de dois ou mais autores e artistas? São questionamentos e ponderações valiosíssimas para a descoberta do seu núcleo de possibilidades; descoberta essa que guarda a chave que abre as portas para sua realização. Aqueles autores que serão seu Virgílio ao longo do caminho o esperam em algum ponto; para encontrá-los basta apenas aceitar com determinação as potências que apenas você, e mais ninguém, pode realizar. ■

[1] Esse é um dos pontos que tornam desesperadora a situação de muitas pessoas. Quando não desacreditam de suas potências, as pessoas, principalmente nas universidades, encontram-se fechadas no universo mental da esquerda militante e os modelos disponíveis são muito limitados. O indivíduo precisa escolher entre ser uma mistura de Leandro Karnal e Michel Foucault; Lula e György Lukács; Fernando Henrique Cardoso e Jean-Paul Sartre, com umas pitadas de Simone de Beauvoir; o que, convenhamos, são opções realmente tenebrosas.

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