Fragmentos Sobre Literatura I

1. À Mão Esquerda (Artigo) (Olavo de Carvalho)
«Ninguém pode ser romancista se não consegue pensar, sentir e escrever como seus personagens, desdobrando-se momentaneamente em eus imaginários. E para quê alguém faria isso, afinal? Justamente para captar no plano estético a unidade de experiências vivas que ainda são demasiado recentes, ou demasiado impactantes, para poder ser compreendidas intelectualmente.»
«Contar a história é o primeiro nível de elaboração da experiência. O romancista não escreve para explicar nada, mas para registrar um conjunto de experiências reais ou imaginárias cujo nexo último lhe escapa, cujo sentido ele só apreende como forma estética, não como conceito explicativo. Daí o sentimento de descoberta, e ao mesmo tempo de perplexidade, que nos assalta ao lermos um bom romance. Ele nos mostra algo de muito importante, mas que não sabemos precisamente o que seja. Por isso é que ninguém pode dizer qual “o” sentido de um romance. Ele tem necessariamente muitos, e até contraditórios. Um romance é um conjunto articulado de símbolos, e um símbolo, como ensinava Susanne K. Langer, é “uma matriz de intelecções” — não a expressão alegórica de intelecções prévias. Um romance deve dar o que pensar, não um pensamento pronto. Por isso é que homens de idéias, pensadores, ideólogos, formadores de opinião, fracassam com tanta freqüência ao escrever romances: eles falam daquilo que já entenderam, não nos dão uma experiência viva carregada de mistério, de perguntas sem resposta.»
«Dizer que alguém é um mau romancista não é o mesmo que acusá-lo de ser mau escritor. Grandes escritores — Maurice Barrès é talvez o exemplo mais alto — podem ser romancistas medíocres ou péssimos, porque conhecem demais o sentido daquilo que querem dizer; conhecem-no ao ponto de poder expressá-lo em oratória ou em discurso filosófico, que é o que deveriam fazer em vez de simular experiência viva com material velho e já esclarecido intelectualmente.»
2. Trecho da Aula Nº 5 (Seminário de Filosofia) (Olavo de Carvalho)
«É por isso que eu digo que essa formação literária é básica. Não no sentido de se dedicar a estudos literários como se faz numa faculdade de Letras. Hoje o que a faculdade de Letras faz é tornar o sujeito incapaz de ler uma história. Nós só lemos essas histórias — Dom Quixote, Crime e Castigo etc. — porque elas se referem a personagens que poderiam existir realmente, nos quais, de algum modo, nós nos reconhecemos. Mas se você acredita que a narrativa não tem nada a ver com a realidade, que não há pessoas, mas somente palavras etc., então o seu foco de atenção se transferiu desde a imaginação concreta do escritor para o estudo dos seus meios de expressão considerados isoladamente — meios de expressão que evidentemente existem, mas, sem o que expressar, não são possíveis. É isto que faz todo esse negócio de desconstrucionismo, estruturalismo etc.: desviar a atenção do estudante de letras, da substância humana da literatura, para o estudo exclusivo dos meios expressivos — a língua, a gramática etc. É claro que isso é um sinal de burrice. O simples fato de o sujeito aceitar essa proposta já é uma burrice. Só que, tanto no caso do estudante de letras, quanto no de filosofia, acontece uma coisa trágica. Quando ele começa a estudar na universidade e passa da linguagem do senso comum para aquela linguagem conceitual elaborada, começa a achar que deu um salto qualitativo enorme. Este salto é dado rompendo com a linguagem da experiência comum e passando a falar só naquela outra linguagem empostada dos estudos acadêmicos. Isso seria um progresso, assim como aprender a andar de bicicleta, quando você já sabe andar. É um upgrade, sem dúvida, porque a bicicleta é mais rápida do que você. Mas, se no instante em que você aprende a andar de bicicleta, você desaprende a andar com os seus dois pés, não houve progresso algum: houve a conquista de uma deficiência. Acontece que a maior parte dos estudos acadêmicos, principalmente no Brasil, consiste nisso. Eles separam o indivíduo do mundo da experiência e o inserem num outro universo de discurso, que lhe parece mais elegante, mais sério, e desde o qual ele pode olhar até com desprezo para o mundo da experiência. Só que tudo o que ele fez foi progredir no emburrecimento, tornando-se um verdadeiro imbecil, incapaz de entender qualquer processo da realidade, e só capaz de jogar com aquele discurso naquele nível empostado, com as pessoas do seu convívio acadêmico, que também só falam aquele mesmo discurso. Não é que essas pessoas tenham a impressão de que saibam do que estão falando, porque o “do quê” jamais entra em questão. Só entra a troca do discurso por outro discurso, por outro discurso… Ninguém ali é jamais testado na realidade, porque o abandono da realidade é a condição para penetrar neste outro universo de discurso.»
3. Trecho da Aula Nº 5 (Seminário de Filosofia) (Olavo de Carvalho)
«O método [para ler literatura universal] é o seguinte: ler a literatura como se tudo aquilo fosse verdade. Ler as histórias como a criança lê, acreditando nelas. Vivencie as histórias, porque isso vai compor a sua imaginação. Só anos depois é que você vai pensar em estudos literários, em análise de texto. O problema é que as pessoas hoje entram numa faculdade de Letras sem ter lido nada e começam a fazer análise de texto. Analisam o texto sem ter o texto! O sujeito não leu nem Reinações de Narizinho e já chega lá com análise de texto. Assim não dá, meu filho! A humanidade se formou lendo a Bíblia, Homero, os clássicos gregos. Não havia análise literária e isso fazia bem para eles. Análise literária foi inventada numa certa época e em outra época vai acabar, vai surgir uma técnica melhor. Mas os clássicos da literatura estão aí, então leia e acredite em tudo. Leia Homero. Vocês conhecem a história de Heinrich Schliemann? É o cara que descobriu Tróia. Ele descobriu Tróia porque ele leu Homero e acreditou em tudo. Ele leu como quem lê uma narrativa histórica e pensou: “Bom, então Tróia deve estar em tal lugar.” E foi lá e descobriu o raio da Tróia! Leia o Evangelho também como se fosse verdade e você vai ver o que vai acontecer. Você pode descobrir coisas muito mais importantes do que Tróia. Leia tudo como se estivesse acontecendo, daí você vai ver que algumas coisas aconteceram e outras são apenas possíveis. Leia com total ingenuidade; são narrativas, e a única coisa que você quer é conhecer a variedade das situações humanas. Leia só com esse objetivo, não faça análise coisa nenhuma, nós não estamos aqui para estudar livros. O método do Mortimer J. Adler é para estudar livros, para conhecer a história da cultura. Você pode fazer isso mais tarde, mas nós não estamos fazendo isso; nós estamos primeiro tentando adestrar a nossa inteligência para a compreensão da realidade. O estudo dos livros é uma atividade especializada perto disso. Primeiro nós temos que aprender a ter essa abertura e essa conformidade com a realidade, na totalidade da sua extensão e da sua variedade. Isso já vai fazer um bem para vocês, que vocês não podem imaginar! Leia Guerra e Paz como se tivesse acontecido. Leia e acredite. É como dizia Aristóteles: se aquilo não aconteceu, é o que poderia ter acontecido. Então você tem um esquema de possibilidades que é muito próximo da realidade. Se você quiser saber o que aconteceu realmente nas guerras napoleônicas, vai ter de ler uns mil livros e ainda estará incompleto, mas Tolstói consegue imaginar um esquema que pode ter sido possível. Lendo isso, talvez você saiba mais do que se estudasse bastante a história daquele período, porque a história não poderia fornecer um esquema formal completo da coisa. Ao terminar de ler Guerra e Paz, você não tem a realidade histórica, mas tem uma hipótese bastante plausível — a imaginação cria hipóteses. Se você tiver um monte de hipóteses na cabeça (mesmo sem saber se elas são reais), quando você for confrontado com uma situação real, você saberá cruzar essas várias hipóteses — então pronto, você já está mais inteligente do que o vizinho. Se você conhecer vários personagens e conseguir, com eles, compor mais ou menos a personalidade de uma pessoa que você conhece, ou de um personagem público, a sua visão já será mais rica do que a da maior parte das pessoas. É disso que eu estou falando: enriquecer a imaginação primeiro, sem se preocupar em chegar a conclusões, em criar crenças filosóficas. Calma, tem muito tempo ainda. Eu mesmo fiz isso — e não deu errado. Se tivesse dado errado, eu avisaria.»
