Os Radicais nas Universidades (Trecho I)

Pedro G. Segato
Jul 25, 2017 · 3 min read

Qualquer um que trate a literatura ou as artes desta forma não merece respeito, muito pelo contrário, precisa ser satirizado, desmascarado e tratado com deboche. Um indivíduo que não busque em uma obra de arte sua substância humana, seus valores intrínsecos, é um ideólogo, um fundamentalista, alguém perigoso, ressentido, que quer apenas imbecilizar as pessoas. Quem traí a arte, sacrificando seus valores em altares político-ideológicos, é digno do mais completo e intransigente desprezo.

«De fato, para os batalhões adeptos das teorias de gênero-raça-classe que hoje dominam a discussão na universidade, toda a vida social, artística e intelectual precisa ser submetida a uma bateria de testes políticos. Isso atesta o que poderíamos chamar de sovietização da vida intelectual, em que o valor ou verdade de um trabalho é determinado não por suas qualidades intrínsecas (muitos negam que “qualidades intrínsecas” possam sequer existir), mas pelo grau em que ele apoia dada linha política. De certo modo, essa concepção de vida cultural é altamente moral — ou, antes, altamente moralista. Apesar de ser amplamente antiburguesa e antitradicional em sua moralidade, ela mesma procura julgar todo e qualquer produto do espírito humano pelo grau de “virtude” que ele exibe — em que “virtude” é, de antemão, definida por qualquer viés sexual, feminista, marxista, racial e étnico a que determinado crítico tenha declarado a sua obediência.

Esse moralismo extraordinário, se pervertido, é naturalmente um dos grandes encantos do radicalismo acadêmico contemporâneo. Poucas coisas são mais empolgantes para os intelectuais modernos — que crescem ouvindo que as suas pesquisas são de limitadas utilidade social — que a perspectiva de infundir em seu trabalho um propósito moral maior. Quão edificante é pensar que não se está simplesmente dando aula sobre um romance de Jane Austen, mas de algum modo também contribuindo para a emancipação feminina! Quão excitante acreditar que não se está apenas lendo Shakespeare, mas de algum modo desafiando ao mesmo tempo os males do imperialismo!

Existe, contudo, um problema nesse método moralista: como todos os impulsos totalitários, ele acaba sendo terrivelmente simplificador e filisteu, despreparando a mente para reflexões mais sérias. Testes moralistas de conquista cultural sempre acabam sendo redutores e, quanto mais impiedosamente aplicados, mais redutivos são os seus dogmas. É aqui que o jargão da desconstrução, do pós-estruturalismo e de outras teorias continentais afins tem sido uma dádiva para os acadêmicos “revolucionários”. Ele lhes permitiu adotar completamente o seu moralismo, fazendo com que ao mesmo tempo parecessem intelectualmente sofisticados (ou incompreensíveis, o que muitas vezes é igualmente eficiente).

Infelizmente, o moralismo é tão pouco convincente — é dogmaticamente moralista mais do que genuinamente preocupado com questões morais — quanto é falsa a sofisticação. O ímpeto antiocidental e (em particular) antiamericano de tanto radicalismo acadêmico tem suas origens em um utópico romantismo que remonta pelo menos a Rousseau. Foi desastroso então e é desastroso agora. Como observou o proeminente historiador Jacques Barzun, “o obscurantismo atual, que ataca a tradição ocidental com o ardor de censura, não vem daqueles supostamente não representados pelo currículo, mas dos acadêmicos e outros intelectuais que são representados e odeiam a sua própria herança”. Deve também ser dito que, ao exaltar as virtudes de sociedades e civilizações outras que não as nossas próprias — e em detrimento das nossas — , os radicais efetivados de hoje estão apenas seguindo os passos de figuras impopulares tão diversas quanto o romântico alemão do século XVIII Johann Herder, a fantasista antropóloga Margaret Mead, e daí para a frente. »


KIMBALL, Roger. Os Radicais nas Universidades — Como a Política Corrompeu o Ensino Superior nos Estados Unidos da América. São Paulo: Editora Peixoto Neto, 2010. (págs. 15–17).


Excelente podcast do Senso Incomum sobre este assunto:

    Pedro G. Segato

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    Estudante de Literatura; apaixonado por Fotografia, Música, Cinema e Belas-Artes.

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