O incômodo futebol e o abraço ao simplismo

Aceitar simplesmente que São Januário é o culpado pela briga de ontem e que a vida teria sido diferente em outro lugar é ignorar panorama geral e perder oportunidade de pressionar negligência do poder público

A desinteligência que se espalhou rapidamente ontem à noite em São Januário obviamente drenou toda sorte de avaliações nas últimas horas. A maioria delas é rasa, porém, e tem como prioridade tratar com paliativos; atacar problemas que são secundários, não causas originais, da depredação da torcida do Vasco ao seu estádio. É preciso ir ao fundo e entender de onde parte a situação. Culpar o estádio por uma confusão como essa é pequeno demais, quase oportunismo de quem já tinha uma opinião formada e resposta pronta para qualquer problema que acontecesse, fosse ele qualquer um.

E isso não quer dizer que São Januário não tem problemas. Tem, é evidente. É um estádio antigo e, até certo ponto, defasado. Mas não é uma ratoeira como era no fim dos anos 1990. Fosse no São Januário daquela época, no de 2000, a selvageria de ontem terminaria em um desastre ainda maior. Embora eu concorde que um Vasco x Flamengo, bem como qualquer clássico do Rio, mereça o Maracanã, se trata de uma opinião esportiva. Usar de ontem para incutir na opinião popular que São Januário é protagonista da briga e, portanto, não pode nunca mais servir de casa para um jogo grande é puro oportunismo e beira a desonestidade intelectual.

Sim, a separação entre as duas torcidas é precária. Não estou aqui dizendo que São Januário é um estádio de Copa do Mundo. Não é. O Beira-Rio é e lá também teve confusão dentro no interior do palco após mais um tropeço Colorado. Diferente, sim, mas teve. Há o que melhorar em São Januário, inclusive a separação entre as torcidas. Mas o que houve ontem não foi uma briga entre torcidas. A do Vasco tentou até chegar ao setor do Flamengo e falhou miseravelmente. A maior parte dos descalabros vistos ontem não são estruturais do estádio, mas erros grosseiros do Vasco e uma incompetência policial que beira a negligência.

A gestão (?) Eurico Miranda contrata muitos seguranças, sim. Não é de forma nenhuma algo que, em números frios, dê alguma garantia de segurança ou trabalho bem feito. Número alto de seguranças, assim, de forma fria, está para a garantia da ordem assim como a porcentagem de posse de bola sozinha num jogo define quem foi bem ou mal. O quão preparadas são essas pessoas? Notório mesmo é que os seguranças contratados pela presidência do Vasco estão tornando, a mando da direção, claro, São Januário um ambiente hostil até mesmo para os vascaínos. Ou vamos esquecer por conveniência que intimidações e agressões físicas a vascaínos têm sido comum sobretudo nas sociais do estádio? Que uma barra deixou de frequentar o estádio por ser intimidada? Que o time de futebol americano, que nada custava e ainda gerava um prestígio ao clube, foi praticamente chutado para longe por críticas naturais à presidência?

Daí em diante é uma lógica simples: se o presidente, como disse na coletiva de imprensa em que jurou estar pedindo desculpa — embora não parecesse — crê que a culpa da confusão foi inteiramente de seus opositores políticos, se é o presidente que manda e desmanda em seus minions travestidos de seguranças e se o presidente tem ao menos permitido que estes seguranças ameacem e agridam vascaínos, o que acontece numa situação como a de ontem? É óbvio que cria-se uma terceira força. Há os brigões, há a polícia e há a força paralela da diretoria do Vasco, que não ajuda a polícia e que não tem intenção de parar a confusão. Quer apenas chegar aos brigões antes da polícia para poder, em claro português, descer o cacete. Por isso, como bem captou a câmera do SporTV, o cidadão credenciado pelo Vasco estava com o escudo policial descendo o cacete num sujeito caído.

Esse é um problema do clube, evidente, mas não estrutural do estádio. Poderia perfeitamente acontecer em qualquer outro campo caso o Vasco, como locatário, cedesse a seus funcionários uma liberdade por todo o recinto.

O outro ponto é o arremesso de bombas direto das arquibancadas. É inacreditável, quase uma peça de Miró, a declaração do delegado do jogo e diretor de competição da FERJ, Marcelo Viana. “O policial na hora da revista, com muita gente chegando em cima da hora, não consegue detectar”, afirmou. Não consegue detectar bombas? Não há revista própria para quem chega em cima da hora? Nem farei um juízo de valor do quão ineficiente — para não ir um pouco mais longe — é esse trabalho. Quem faz o trabalho da revista não é o clube. É a polícia. Quem entra com bomba em São Januário entraria com bomba no Maracanã ou no Engenhão. Ano passado eu estive no Morumbi para São Paulo x Toluca na Libertadores e sequer fui revistado. Percebam: não é que a revista foi ruim, como quase sempre no Maracanã, ela nem existiu.

O problema mais grave envolvendo São Januário, o que quase torna o estádio proibitivo - ao menos ao meu ver -, é o entorno. Ruas estreitas, residenciais e que podem ser facilmente sitiadas. São Januário é, como praticamente todos os estádios importantes do futebol inglês até o começo dos anos 1990, uma construção centenária. O bairro e a cidade cresceram em volta daquele lugar. E, assim como na Inglaterra, isso se tornou um problema. É difícil patrulhar e facílimo de sitiar. Um desafio, de fato. E nem tratarei o fato de que a Vila Belmiro e o próprio Engenhão também estão em locais extremamente povoados e sitiáveis. Meu ponto é diferente. Duas coisas são necessárias mais que outras para tornar os entornos de qualquer estádio em área residencial seguros: um deles é um plano de segurança pública e o outro é uma legislação específica para eventos esportivos. É claro que nenhum dos dois existe.

O plano de segurança pública vem de cima. Dos mais altos escalões governamentais, gente que pouco fala e parece tratar o futebol como se fosse um submundo. Algum prefeito ou governador vai se pronunciar sobre o que aconteceu em São Januário? Algum jamais se pronuncia? A questão é que, politicamente falando, o futebol, embora mova alguns milhões de pessoas todos os anos entre bairros, entre cidades, dentro e no entorno de estádios e em populares locais em que pequenas multidões se reúnem para assistir jogos, é esquecido. É como se não fosse um grande evento, como se tirar as pessoas de dentro dos estádios fosse a solução. Politicamente falando, o futebol é um estorvo e o esvaziamento dele é interessante. Politicamente falando, o torcedor de futebol é tratado quase tão mal no Brasil do Século 21 quanto era na mortal Inglaterra dos anos 70 e 80. Se aquele torcedor pegava trens furados para ver um jogo, o daqui nem tem transporte público para sair do estádio e ir para casa. Que saia antes do fim do jogo ou que nem vá, fique em casa vendo da TV.

Só que os torcedores do futebol são muitos e eles não vão desaparecer, não importa o quão conveniente isso seria para algum aspone de gravata. A falta de uma legislação específica, que possa ter um guia punitivo para quem organiza e se envolve em brigas em eventos esportivos entra na mesma categoria, a da pura falta de interesse no desenvolvimento de planos públicos para proteção do torcedor. Quem causa uma confusão letal como a do sábado precisa ser banido de estádios e processado criminalmente. Ora, a identificação é fácil. Talvez, de fato, a negligência assassina do poder público torne São Januário um local impróprio para grandes jogos. Mas culpar o estádio é atirar no mensageiro.

Enquanto não houver qualquer tipo de interesse público, o futebol brasileiro vai viver pequenos e médios Heysels até que um de grandes proporções arranque o coração do país.

Há ainda outras duas questões que eu quero abordar aqui. A primeira é o fator Eurico. Homem mais poderoso no futebol do Vasco nas últimas três décadas, um dos homens poderosos do Brasil nos anos 80 e 90, Eurico sempre criou uma atmosfera de ódio ao Flamengo. E, sim, houve quem retribuísse pelos lados da Gávea, mas ninguém que tenha sido nem de perto tão duradouro quanto Eurico. A situação se acirrou nos últimos 15 anos, com a queda do céu que o clube cruzmaltino viveu. Sem chances de brigar pelos maiores títulos e nem sequer de competir de igual para igual pela maior parte desse tempo — culpa, bom destacar, das desastrosas administrações — Eurico tornou ainda maior a questão do “campeonato à parte”. A rivalidade sai de cena com Eurico, entra o ódio. E o ódio é contagioso. Se você plantar o ódio tempo suficiente, ele se espalha, não tem jeito. O acirramento do ódio transformou o clima entre as duas torcidas em guerra.

Aliado a isso, mais dois fatores preponderantes. Um, o esportivo. O Vasco vive uma crise infindável. Rebaixamentos constantes, poucas campanhas dignas e uma clara superioridade — financeira, organizacional e de perspectivas — do arquirrival. A incapacidade esportiva do Vasco se equiparar ao Flamengo no presente faz o ódio, que agora já anda sozinho e não precisa mais das declarações estapafúrdias de Eurico, se acirrar ainda um pouco mais. Por fim, a questão do ‘nós contra eles’ parte também da ineptidão administrativa e começa a caminhar com as próprias pernas. Como bem lembrou o jornalista Felipe Schmidt num editorial do GE.com, o discurso do ‘nós contra o mundo’ é nocivo e, no caso de uma torcida extremamente machucada por uma década e meia praticamente apenas de desilusões, é perigoso. O Vasco, o clube que construiu uma história tão rica e bonita e esteve à frente de seu tempo em uma época que o futebol precisava, não merece o lunatismo. O lunatismo é pequeno, e o Vasco não é.

A briga não foi entre duas torcidas. É evidente que pedir torcida única não vai resolver o problema, assim como não impediria o que aconteceu ontem. É uma solução simplista, especialmente porque a gigantesca maioria das brigas entre torcidas acontece fora dos estádios. Em ruas próximas, estações de trem ou bairros afastados. Uma solução burra, que visa varrer para baixo do tapete da forma mais sórdida possível um grave problema que o esporte também espelha da sociedade. É uma forma do poder público se furtar da responsabilidade enquanto simula dissimuladamente a tentativa de resolução dos problemas. Na verdade, busca apenas tolher o torcedor de futebol de viver sua incômoda paixão.