Bitcoin, o Novo Ouro

Para pensar na importância do dinheiro no seu dia a dia, comece pelo seu café da manhã e escolha algo bem simples, por exemplo, uma fatia de pão. Pense como você a obteria se não por meio de trocas voluntárias.

Ao invés de ir até o mercado comprar um pacote de pão por uma pequena parte do seu rendimento, você teria alguns problemas para resolver. Precisaria ser dono de terras cultiváveis, ter sua própria plantação de trigo, seu próprio forno — possivelmente de barro; afinal, não é possível comprar um a gás — e tudo o que mais for preciso para fazer pão. Além, é claro, do conhecimento necessário, que foi adquirido de forma totalmente empírica, para realizar todas as etapas do processo — do plantio do trigo até a cocção do pão, passando pela construção do forno e de todas as ferramentas que esse trabalho demanda. Não é preciso incluir o suco de laranja ou um copo de leite cru à temperatura ambiente no cardápio para perceber que as trocas voluntárias e a divisão do trabalho são elementos que trazem mais que conforto ao nosso modo de vida, são a questão chave para sobrevivência da espécie humana.

Suponha então que um padeiro quer aprender como se planta trigo, e ele resolva contratar um agrônomo para lhe ensinar. Os dois discutem os termos do contrato e chegam a um acordo: cada aula custará o valor equivalente de vinte pães. Serão necessárias cinco aulas, totalizando cem pães ao final do curso “de plantação de trigos para leigos”. Sem algum tipo de moeda, a única forma de pagamento que o padeiro teria seria entregar cem pães em cinco dias ao agrônomo. Agora imagine que o agrônomo não precise de pão (que ele tenha outro fornecedor), mas que ele precise de botas de borracha. O padeiro precisará dedicar parte do seu tempo para encontrar algum vendedor de botas de borracha e que deseja trocá-las por pães para só então, negociar com o agrônomo. O dinheiro resolve isso de uma maneira muito fácil e direta. Além disso, ele é fundamental para que se possa realizar o “cálculo econômico” do preço e da alocação de recursos escassos para produção de bens e serviços.

Para que o agrônomo aceite como pagamento do padeiro esse “dinheiro”, deve haver pelo menos quatro características já descritas por Aristóteles. Deve ser portátil, fácil de carregar e estocar; deve ser divisível; deve durar por longo tempo; e, por fim, deve ter valor intrínseco. Sobre esse último item, a característica fundamental que o garante é que o dinheiro seja limitado. Obviamente metais preciosos se prestavam muito bem para funcionar como dinheiro, especialmente o ouro, pela sua beleza e utilidade na fabricação de jóias e adornos.

Avançando rapidamente na história, companhias financeiras, bancos e países começaram a emitir papel moeda, cheques e ordens de pagamento que facilitavam o comércio e o transporte do dinheiro, mas o valor desses documentos ainda possuía a sua garantia em depósitos de ouro (padrão ouro). Até o século XIX o ouro continuou sendo a base do sistema financeiro, enquanto o papel moeda ainda era lastreado no metal. Basicamente isso significava que uma pessoa poderia, a qualquer momento, levar as suas notas a um banco e trocá-las por ouro (ou outro metal precioso, dependo do banco ou país). Como o valor desses metais não varia — ou varia muito pouco — e a eficiência da produção de bens e serviços aumenta, o simples fato de guardar o dinheiro nessa época o fazia valorizar, algo impensável para os dias de hoje. Havia deflação.

No início do século XX, o lastro de metal se mostrou um problema para financiar os gastos estatais com a Primeira Guerra Mundial. Se essa fosse custeada em ouro, o orçamento teria estourado antes do natal de 1914, o que teria poupado a vida de nove ou dez milhões de pessoas. Algumas nações tentaram voltar sem sucesso ao lastro de metal, fixando novamente um padrão arbitrário para o valor do dinheiro (até mesmo valores iguais aos antes da guerra, o que era obviamente absurdo), tornando os bens de consumo supervalorizados em alguns países e subvalorizados em outros. O fato é que lastro de ouro não resistiu ao período pós-guerra, tendo a grande depressão como o seu golpe fatal.

Fica então a pergunta: o que faz com que o dinheiro tenha valor? O papel moeda em circulação atualmente tem lastro fiduciário e curso forçado. Em termos simples isso quer dizer que o estado força todas a operações comerciais naquele território a serem realizadas na sua moeda, ou seja, no Brasil, do algodão doce ao petróleo, somente podem ser comprados com notas de Real. O lastro fiduciário dá, portanto, ao governo um poder incrível, o de transformar tinta e papel em algo com muito valor. Dessa maneira, quando o estado precisa de mais dinheiro, ao invés do aumento de impostos que diminui a sua popularidade, ele pode recorrer a outras duas fontes de financiamento: imprimir mais dinheiro ou emitir títulos de dívida pública. No primeiro caso, a mão do governo ataca direto o bolso do cidadão, já que a inflação resulta do aumento da oferta de moeda no mercado. Quando o governo joga papel moeda novo para circular, ele automaticamente desvaloriza o montante que estava até então no mercado (especialmente as reservas econômicas das pessoas).

Nesse processo, quem mais sofre são os mais pobres, pois não possuem rendimento suficiente para investir em bens imóveis, ouro, títulos ou outras moedas com inflação menor. Sendo assim, acabam mais suscetíveis aos efeitos maléficos da inflação. Não apenas isso, normalmente as somas astronômicas de moeda recém impressa são entregues aos “amigos do rei”, empresas que trabalham para o governo escolhidas por trocas de favores. Logo que impresso esse dinheiro já não tem o mesmo valor, mas o mercado ainda não percebeu essa mudança, então os primeiros a receber as “notas frescas” são duplamente beneficiados.

O segundo (impressão de títulos da dívida pública) é muito mais cruel, pois deixa a dívida para ser paga por gerações futuras. Para se ter uma ideia da proporção que isso tomou nos EUA, um cidadão americano que nascer hoje, já estará devendo 53 mil Dólares. No Brasil, não temos conhecimento dessa dívida, os dados para o cálculo são inacessíveis, se é que é possível fazê-lo.

Basicamente, o sistema financeiro está nas mãos dos bancos centrais e governos. E mesmo que os bancos privados tenham alguma independência, são fortemente regulamentados pelas regras do estado e pela vontade que este tem de imprimir mais dinheiro. Para piorar essa situação, geralmente fazem questão dessas regulamentações, uma vez que são beneficiados por políticas de socorro estatal, baixa concorrência e pela política de reserva fracionada.

Não havia nenhuma alternativa a esse sistema que fosse prática e viável até 2008. Tudo mudou quando, naquele ano, um programador de pseudônimo Satoshi Nakamoto publicou um código de fonte aberta para a primeira “criptomoeda”. Surgia, então, o bitcoin — divisível, fácil de carregar, durável e limitado, assim como o ouro.

Mas não foram apenas essas características as responsáveis pelo sucesso da primeira criptomoeda do mercado. A primeira delas é a descentralização. Não há um Banco Central responsável pelo controle ou pela emissão dos bitcoins. A legitimidade das transações é garantida pela “blockchain”, uma espécie de rede que fornece um registro que impede que um bitcoin copiado seja utilizado duas vezes. Além disso, isso permite que cada usuário possa escolher onde guardar o seu dinheiro. A outra é o fato da criptomoeda ter sido divulgada com um código aberto. Isso foi muito importante, pois possibilitou a qualquer pessoa que entendesse de programação verificar o funcionamento e as possíveis falhas do sistema, bem como contribuir para o seu aprimoramento. Assim sendo, podemos dizer que o lastro (o elemento que atesta a sua legitimidade como moeda) do bitcoin é a blockchain; e que as regras que regem esse mercado são claras e imutáveis, uma vez que foram escritas em uma língua que não permite dupla interpretação — a matemática. Diferentemente das moedas controladas por bancos centrais, a oferta de bitcoin tem a sua variação predefinida por uma equação, não pela vontade ou decisão de agentes do governo.

Tudo isso fez com que algumas linhas de código apresentadas para o público em geral adquirissem valor, que iniciaram em centavos até centenas de dólares em um intervalo menor que seis anos. Ninguém foi forçado a usá-la, não havia nada que só se poderia comprar com bitcoin. Quem iniciou a “minerar” e negociar a criptomoeda simplesmente o fez porque viu as possibilidades que estavam se abrindo. Inexoravelmente isso mudou e vai mudar ainda mais o mundo financeiro. Ademais, é possível enviar bitcoins em segundos para qualquer pessoa do mundo sem intermediários ou taxas, abrindo espaço para um novo tipo de interação comercial. O sistema financeiro convencional já permite que isso aconteça, mas as taxas e impostos fazem com que poucos tenham acesso. O acesso ao bitcoin é fácil, basta um computador ou celular ligado à internet. As novas possibilidades que isso propicia são ainda inimagináveis. As fronteiras da informação já haviam sido extintas e agora o dinheiro, assim como o conhecimento, o maior bem que um ser humano pode produzir, pode trafegar sem barreiras por todo o planeta.

É evidente que as operações em bitcoin ainda são pouco representativas quando comparadas a outra moedas. Também não é possível afirmar que o próprio bitcoin será a criptomoeda preferida no futuro. Supõe-se inclusive que o mercado vai comportar várias moedas digitais, com tecnologias muito semelhantes à blockchain. Finalmente, para que as criptomoedas descentralizadas superem as moedas de lastro fiduciário em definitivo, será preciso que cada vez mais etapas da cadeia produtiva sejam financiadas por esse novo tipo de dinheiro, até que desde o fertilizante para os campos de trigo ao pão recém saído do forno sejam negociados dessa nova maneira.

Para os que se perguntam se bitcoin vai dar certo, a reposta mais apropriada é: já deu certo. Por suas peculiaridades ele atrai justamente as pessoas com maior espírito inovador e amantes da liberdade. São esses indivíduos, guiados pela razão e pelo desejo de concretizar a sua moral, que mudam o mundo! É justamente com eles que eu prefiro cooperar e fazer negócios.

Por: Thiago Avila