É o que é, Hicchan~! É o que é o que é o que é!

Eu sempre morei muito longe da escola. Sempre morei no fim de um condomínio que fica no fim de uma cidade que fica no fim do Estado de São Paulo e isso significa que eu saía pouco de casa. Não parece fazer sentido pras pessoas ter um monte de árvores em casa e ainda assim não saber o nome das plantas ou que flor desabrocha em que estação, mas ocorre que se você mora longe da escola e é a única pessoa do grupo de amigos que mora na região, na verdade você fica muito mais tempo dentro de casa, até porque por morar em um lugar desses você não tem vizinhos. Com quem você vai compartilhar experiências senão com os contatos virtuais?

De modo que eu passei um bom tempo dessa minha vida no computador. Bom, pelo menos essa é minha desculpa. Mas são muitos níveis de contradição porque, por morar muito longe de qualquer coisa, minha internet sempre foi horrível e então essa comunicação sempre foi meio difícil. Eu tinha que deixar um dating sim do Newgrounds carregando por, sei lá, uma hora pra poder jogar.

Mas, óbvio, a conexão nunca foi estável, então nem sempre dava certo. Então quando caía a internet, eu ficava um bom tempo sobrevivendo de jogos que já estivessem instalados (em um PC não dos mais potentes).

De modo que eu passei um bom tempo do ano de 2010 estocando jogos que fossem leves para quando a internet caísse. Bom, pelo menos essa é minha explicação para, no começo de 2011 durante uma dessas de o modem se recusar a funcionar e ficar 15 dias até vir um técnico do Speedy (!!!) ver qual era o problema, um aplicativo misterioso chamado Katawa Shoujo ter aparecido em uma pasta misteriosa e eu ter perguntado quase em voz alta:

— O que é isso?

Mas eu abri e era um jogo, aparentemente. Eu até hoje não sei quem baixou Katawa Shoujo no computador de casa (hoje eu devo me referir como “a casa dos meus pais”) ou quando, mas o caso é que estava lá e, porque eu não tinha mais nada o que fazer — os vestibulares, e mais sobre isso em um segundo, já tinham acabado — eu joguei.

Eu nunca consegui responder essa pergunta.

Fazer vestibular é um pouquinho que nem ficar muito doente e ter que ficar internado em um hospital. Eu estou forçando essa comparação, eu sei. Mas é como me parece, em retrospecto. Meu terceiro ano do ensino médio foi inteiramente dedicado a não estar mais no terceiro ano do ensino médio. Você faz exames e, se der tudo certo, você sai da condição em que está. Do contrário, volta pro tratamento. Às vezes intensifica ele.

Felizmente eu passei no vestibular que queria. Mas, também em retrospecto, às vezes a pior parte de estar em um hospital é ser liberado e voltar pro mundo lá fora. Coincidiu que Hisao Nakai tenha tido um ataque cardíaco repentino e, ao ser liberado, ter ido pra Yamaku (a escola especial para pessoas com necessidades especiais) na mesma época em que eu passei no vestibular da UnB, o que significava, à época e com 17 anos, me mudar pra outro estado e finalmente morar perto da escola.

Eu estava aterrorizado. Mas eu não sabia disso. E não sabia disso porque, depois de passada a euforia, apareceu magicamente no computador um jogo sobre um menino que sofria um ataque cardíaco e, por causa disso, tinha que mudar de escola. Eu posso dizer que eu usei esse jogo como apoio emocional pra encarar a mudança brusca e drástica em como minha vida funcionava.

Aliás, nem isso. Eu usei a versão demo, porque o jogo completo só sairia no ano seguinte. Parando pra pensar, o efeito é ainda mais forte, porque a versão demo termina com Hisao passando de um moleque que não faz ideia do que tá fazendo pra um moleque que não faz ideia do que tá fazendo, mas agora tem amigos na escola nova, ainda deixando em aberto o que vai acontecer. Ao chegar na escola e se deparar com as deficiências dos colegas, ele diz não saber evitar o elefante na sala. Como conversar com uma pessoa surda, que tem uma menina de cabelo rosa traduzindo tudo pra ela? Pra quem se deve olhar? Pra quem está falando ou pra quem está “falando”? Isso é tudo muito confuso. Não sei lidar com minha vida nova. Mas, caso você faça as escolhas que te levam a conversar com as garotas — Shizune e Misha, a propósito — isso passa a não importar tanto. Importa mais é que vocês conversam.

E isso era tudo pra mim no começo de 2011. A ideia de que não importa o quanto tudo seja esquisito. Tudo vai ficar bem, ainda que você não faça ideia do que vai acontecer mesmo depois que ficar tudo bem.

O jogo completo saiu em 2012. Eu guardo 2012 na memória como um ano terrível. Aliás, eu não guardo 2012 na memória, porque eu me recuso. Pedaços de memória vêm e vão, mas eu não tenho uma visão geral do que foi o ano justamente porque eu não acho que aguento, emocionalmente, lembrar de tudo de uma vez. 2012 foi o ano em que eu descobri que o terror de que eu não estava consciente era totalmente fundamentado. Explico — foi o ano em que eu voltei pra casa dos meus pais e desisti da UnB porque coisas ruins aconteceram e eu não pude com elas. Não estava pronto, não ficou tudo bem mesmo depois de tudo ter ficado bem.

Em compensação, foi o ano em que saiu Katawa Shoujo completo.

Como exatamente uma coisa se liga ou se compara à outra é mistério que não planejo desvendar, mas aqui tá a coisa realmente importante: sempre fica tudo bem. Mesmo depois de não ficar tudo bem, mesmo depois de dar tudo errado. Isso é o que o jogo me ensinou.

Não é que a mensagem esteja no jogo: uma hora o jogo acaba, afinal, e esse em particular tem finais bons e finais ruins. Aliás, eu nunca joguei os ruins porque sou muito apegado aos finais bons. Em todo caso, nenhum deles trata disso que estou falando — não diretamente. Algo de que Katawa Shoujo trata, porém, é da vida cotidiana.

Literalmente todas as pessoas têm uma vida cotidiana. Mesmo que ela não tenha rotina, você vive e sofre e aprecia o dia-a-dia. Nada que tenha te acontecido te impede de ter uma vida cotidiana. Inclusive não ter pernas não significa que sua vida cotidiana não possa envolver correr e não ter braços não faz com que sua forma principal de expressão não possa ser pintar. Mais até de ser uma questão de você fazer as coisas que faz apesar de tudo, você faz as coisas que faz por causa de tudo. Tudo que te aconteceu te levou até onde você está.

Essa é a conclusão a que Hisao chega em, se bem me lembro, todas as rotas: não fosse o ataque cardíaco, ele não teria mudado de vida. Não fosse o ataque cardíaco, ele não teria tido a oportunidade de gostar das pessoas de que passa a gostar ao longo das rotas e de fazer as coisas que faz, com todos os impedimentos que seu coração lhe causa. Não fosse o ataque cardíaco, ele não teria tido oportunidade de agradecer o ataque cardíaco por ser o catalisador de tudo que está acontecendo com ele.

E, sabe, é engraçado como as coisas são. Se eu não morasse longe da escola, não teria encontrado Katawa Shoujo. Não nessas condições, pelo menos. Não joguei Katawa Shoujo apesar de minha internet ser ruim, mas justamente por isso.

E se se diz que a arte transcende a vida cotidiana, estou aqui pra dizer que a vida cotidiana transcende a arte. Katawa Shoujo está aí pra dizer isso. Aliás, a vida cotidiana transcende qualquer coisa. Sempre vai ficar tudo bem, sempre as coisas vão dar errado, você pode nem dar a volta por cima mas vai ter essas coisas como referência pras alegrias que, tão fatalmente quanto, vão vir. E você vai continuar vivendo. Todo mundo tem um momento ou uma condição marcante que os levou até ali. Se você for capaz de apreciar isso, sua vida cotidiana vai ser uma sequência de pequenos momentos mágicos, ficando amigo de alguém, brigando, saindo correndo pra comprar um pingente pro celular de uma pessoa, indo pra a exposição de arte de um amigo que está, aliás, menos extasiado com essa exposição que você. Essas coisas.

É por isso que Katawa Shoujo ainda é, nesse ano de 2015, meu livro de cabeceira. Eu sempre volto a ele porque mesmo que sejam histórias que se fecham, têm esse gosto de vida cotidiana, de algo que sempre está ali pra mim. As histórias ainda são mais ou menos como viver sem se importar muito com aonde tudo vai levar, porque mais importante é o que nos trouxe e, mais ainda, é o momento que compartilhamos com quem a gente gosta.

Por isso eu desisti de tentar responder, pra mim e pros outros, o que é Katawa Shoujo. Katawa Shoujo é o que é, Hicchan~! É o que é o que é o que é!

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