Então a nova moda do Facebook é 2048. É um jogo no qual você tem que juntar blocos com números iguais, partindo do número 2. Você controla todos os blocos de uma vez com as setas do teclado, jogando-os o quanto eles puderem ir para a direção que você apontou. Se, no caminho, um bloco encontrar outro de número igual, se funde com ele e seus números se somam. A cada movimento, um novo bloco 2 (ou, de vez em quando e pra destruir sua vida, um bloco 4) aparece aleatoriamente no tabuleiro. Se esse tabuleiro, que tm dimensões 4x4, for preenchido com blocos e não houver mais possibilidades de combinação, você perde. Se formar um bloco 2048 (dica: 2¹¹), ganha.
O que eu mais tenho ouvido é gente dizendo que não consegue parar de jogar e perguntando por que o jogo é tão viciante. Eu vou tentar responder isso.
Em primeiro lugar, é um sistema que se joga sozinho. Quer dizer, ele poderia existir mesmo sem esse objetivo. Nisso ele muito se assemelha a jogos de tabuleiro como Resta Um — os movimentos que você faz alteram todo o estado do jogo e o estado que daí surgem afeta os movimentos que você pode fazer, segundo um conjunto de regras. Quer dizer, é um sistema de regras simples, mas interação complexa. Quanto mais blocos você combina, menos blocos você tem no tabuleiro e, portanto, mais espaço você tem para combinar blocos. Aparentemente, nosso cérebro adora esse tipo de coisa.
Daí vem um período de adaptação ao jogo em que nós percebemos essa interação complexa apesar das regras simples: como os novos blocos surgem em lugares aleatórios, existe o espaço em que você sabe o que vai acontecer e o espaço que você só consegue tentar prever e criar cursos de ação a partir das possibilidades. Como os blocos todos se movem ao mesmo tempo, você começa a perceber que tem que pensar bem antes de tentar enfileirar dois blocos para serem combinados, porque você pode acabar encaixotando um 2 que nunca mais vai sair dali. Pouco a pouco, você naturalmente entende que existem estratégias para se vencer. Por exemplo, você pode eleger a seta pra baixo como sua favorita e, a partir daí, ela vira a prioridade. Se você puder fazer blocos se combinarem para baixo, você faz isso, porque sabe que tudo que surgir vai ser “acima” e com certeza os blocos mais “pesados” vão acabar indo para baixo, deixando mais espaço em cima pra você fazer combinações usando as setas para os lados. Apertar pra cima fica proibido, porque isso vai colocar em risco sua lógica de os blocos maiores estarem sempre na parte de baixo.
Só que isso aqui não é um detonado de 2048, né. Vai lá ganhar, depois conta a estratégia. Mas o negócio é que existe uma segunda camada de atração que torna o jogo viciante — a descoberta de estratégias e padrões de jogo em meio a um sistema aparentmente caótico. Muito como a estratégia em Tetris de deixar a última fileira sempre vazia pra colocar uma peça reta e eliminar quatro linhas de uma vez.
Mas por que o jogo acaba em 2048 e não em 1024 ou 4096? Bom, vamos ver. O jeito mais eficiente possível de preencher um tabuleiro 4x4 com potências de 2 é justamente ter as potências todas enfileiradas até 2 elevado a 16, que dá 65536.

Acontece que esse jogo é impossível. Não existe uma sequência de jogadas que resulte nisso, até porque você precisaria de 65535 blocos de 2 pra fazer esse jogo e nenhum deles poderia ficar sem fazer combinações logo depois de entrar no tabuleiro. Porém, todos os jogos vão, independentemente do esforço e da vontade do jogador, ter pelo menos um bloco 2. Isso quer dizer que, colocando como objetivo alcançar um determinado bloco, essas casas que estão aí podem ser vistas como níveis de dificuldade do jogo. 2048 estaria, então, na dificuldade nº 11 — o que, se for ver, é até bastante alta. Você precisa de 1024 blocos 2 para fazer um de 2048 e na verdade também é virtualmente impossível usar só esse número de blocos.
A uma média de um movimento por segundo, esse jogo perfeito levaria uns17 minutos (pra um bloco de 2048, não o mais eficiente. O mais eficiente levaria mais de 18 horas). É importante perceber que, se é impossível ganhar em muito menos do que isso, é muito fácil perder em um tempo menor. Significa também que essa dificuldade cria um grupo estatístico seleto de vencedores — mas não tão seleto quanto o jogo mais eficiente possível e criando um tempo médio de jogo que o torna rápido, mais ou menos no tempo de uma partida de Paciência e menos que uma partida de MOBA.
Aí nós vemos dois fatores cruciais para a popularização meteoro. É fácil jogar 2048 e é fácil jogar várias vezes — assim como é fácil perder, mas nós temos o score no canto direito superior que nos mostra progressão independente do resultado objetivo perdeu/ganhou. Ou seja, o jogo pode ser satisfatório mesmo que você perca. O que também significa que é fácil compartilhar o jogo: você pode discutir estratégias, mostrar seu score e reclamar da frustração de perder tendo um bloco 1024 no tabuleiro muito facilmente e a partir de regras muito simples. E cria uma grande oportunidade pra quem ganha, porque compartilhar a vitória no Facebook é, em si, um evento único e que não acontece muito dado determinado círculo de amigos. É por isso que todos estamos jogando 2048, acredito eu.
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