Fim da democracia? E temos democracia? O impeachment em 6 pontos.

O Brasil é uma repetição do erro de pensamento e de atitude da provinciana, carola e falso moralista Portugal de antigamente. Há aqui a punição de quem comete o erro diametralmente oposto ao erro da outra parte, ambos não deixam, em momento nenhum, de serem erros por estarem em lados opostos, porém, há aqui a exaltação - em meio aos aplausos - da punição do mais fraco pelo carrasco que carrega pecados com o mesmo peso, mas que jamais será devidamente punido.

  1. Das justificativas

Diz-se no país, e o achincalhar naturalmente prosseguirá, que não há um golpe, que não há tanques de guerras nas ruas e que o STF disse que estava tudo em plena ordem, mas como poderia ser diferente? Como não ter esta sensação? Como não ver manchadas as páginas da nossa ainda pobre e malfadada história?

Para além da discussão técnica sobre crime ou não de responsabilidade, sobre a qual eu tenho minha opinião mas não creio ser necessário versar, como não considerar golpe aos votos da urna quando, dos atuais ocupantes das cadeiras dos governos estaduais, 16 de 27 cometeram o mesmo ato que a presidente Dilma e todos estes jamais sequer foram importunados por este motivo? Por que logo ela? Por que começar justamente por ela? Alguém crê que isto de fato ocorrerá com estes 16 governadores?

Ademais, Fernando Henrique Cardoso foi quem sancionou a lei de responsabilidade fiscal do nosso país e este descumpriu a mesma ainda em sua gestão, o que ocorrera a ele? Nada. Não foi considerado um crime de responsabilidade fiscal e nem crime de responsabilidade em si. Nunca foi julgado por este motivo, que em um governo que sancionou a lei passou batido e em outro foi motivo suficiente para o impeachment.

2. Do baile das valquírias

Em face do acima exposto, tem-se ainda o cenário de que nunca a Polícia Federal trabalhou tanto como nos anos do governo PT. Se isso incomoda os opositores e, por que não dizer, ao próprio PT, vejamos:

Em março deste ano Jucá e Machado, ambos figuras conhecidas do cenário político nacional, conversavam sobre a operação lava-jato que, ironicamente, os monitorava através de uma gravação oculta naquele exato momento e estes disseram que havia um pacto para parar a sangria que a lava-jato produzia e o meio mais rápido para tal era Temer no poder. Então teríamos favoráveis notoriamente uma articulação de políticos corruptos de várias instâncias, incluindo o STF, segundo sugeriu o senador, para que Temer assumisse o poder e deixasse as investigações aí onde estão. Vale lembrar que o STF e políticos deram aval para a continuidade do controverso impeachment por algumas vezes.

Para além disto, tínhamos a mídia. A mídia brasileira, seja ela televisiva, jornalística ou radiofônica é um capitulo à parte, é ela mesma que, em sua maioria, não aplaudiu o golpe de 1964 porque estava trabalhando pesado para que ele acontecesse. Não acha que foi golpe? Não acha que eles apoiaram? Não precisa nem sair correndo até o livro de história mais próximo de você, veja apenas a série de pedidos desmedidos de desculpas que ocorreram entre a década de 90, 00 e 10 nos mais diversos editoriais do país.

A estratégia então era simples, chovia, em todo o período que antecedia a ainda nublada votação da abertura do processo na câmara, uma tempestade de revelações de corrupção no noticiário de vários canais e jornais. Era uma diversidade tremenda, havia crimes de vereadores, prefeitos, corrupções de governadores, deputados e senadores. Além disto, como não se compadecer das senhoras que brotavam na tela da TV lutando chorosas pela vida e contra o descaso, e com razão. Mas onde estas foram parar? Nos dias que seguiram o afastamento da presidente com a abertura do processo de impeachment, os noticiários estão vazios, o país se curou deste mal tão antigo quanto o Brasil que é a corrupção brasileira? Nem perto disso, mas a cobertura já não era mais de interesse dos veículos ‘informativos’.

3. Os outros tantos poréns.

Mas e a economia? Bem a economia ser um fiasco não é e nunca foi um crime passível de impeachment. Ressalta-se aqui que uma fração nada desprezível desta situação advém do trancamento de pautas proposital do Congresso Nacional. Mas e a corrupção do PT? Bem, a corrupção não começou com este partido, que o diga o engavetador geral da república da era FHC. Nunca foi comprovado vínculo cabal de Dilma para com estas práticas que são de todos os partidos. Vale lembrar que a denúncia versava sobre as pedaladas fiscais, suposto crime de responsabilidade.

Em meio a isto tudo a suscetível população. Esta que ataca, infelizmente, para onde as grandes forças do país apontam, sejam elas políticas ou midiáticas. Mordem uns contra a corrupção e tem a cabeça acariciada por outros corruptos pelo trabalho feito.

4. O ato final.

Hoje, de lambuja, a população, a mídia e os políticos corruptos entregaram aos senadores, muitos deles que carregam consigo a impunidade por crimes indiscutíveis e que - em um país sério ou com a mesma dureza das leis para com Dilma — estariam muito distantes do poder, a presidente do país e esta teve seu mandato interrompido de maneira um tanto forçosa.

O herdeiro natural é Michel Temer — até outrora Vice-Decorativo- o responsável por estancar a sangria segundo os corruptos senadores, o investigado por crimes das mais diversas ordens, o delatado e, como não lembrar, cometedor dos mesmos atos que ceifaram o direito dado pelas urnas à Dilma de ser a presidente do país.

5. Purgatório.

Dilma cometera pecados? Sim, muitos!

Em primeiro lugar (não o seu fora Temer, justamente o contrário), colocar um membro do PMDB, partido que só chegou ao poder de forma indireta, como vice em sua chapa. Um erro crasso, grosseiro e que foi apontado por outros políticos como Ciro Gomes.

Em segundo lugar, deixar fazerem o que quisessem em termos de esquemas de corrupção. Dilma começou seu governo demitindo todos os ministros que tinham suspeita de serem participantes de esquemas ilícito, porém seu tom mudou com o tempo. É ingenuo demais pensar que os presidentes não sabem do que ocorre, é ingenuo demais pensar que a máquina de corrupção do país começou agora, vale lembrar que na proposta de emenda que passou a permitir a reeleição alguns políticos assumiram que receberam dinheiro sujo para aprovar a proposta que beneficiaria FHC, porém é visível que sua sofisticação aumentou consideravelmente e as investigações mostraram cifras cada vez mais estratosféricas.

Em terceiro: Alianças sujas com políticos corruptos como alguns do seu próprio partido, Maluf ou Eduardo Cunha.

Em quarto: Não só dela mas de todo o PT, partido que se dizia diferente dos demais e que colocava o dedo na cara dos membros das outras legendas, o honesto nunca posto a prova afundou junto com as esperanças de um cenário político mais e levou uma possibilidade de um Brasil que sorrisse aos brasileiros que não conheciam direitos para si.

Em quinto: Não entrar e nem aplaudir a dança dos milhões em dinheiro público em Brasília.

6. A fantástica ópera da perfeita tempestade.

Em suma, é trágico ver que um plano de mudança no poder primeiro foi trocado por um plano de sustentação de poder e, posteriormente, pela sobrevivência do velho sistema político brasileiro.

O triste disto tudo é que, fatalmente os avanços sociais se perderão com o tempo, alguns já se foram, parte pela mão do PT, parte pela de Temer e continuarão indo. E, o pior de tudo, a democracia sem pujança deste país não sobrevive à vontade do capital, à vontade da mídia e aos interesses políticos e mesmo com um fraco argumento tudo pode ruir, não mais com os tanques de guerra de 1964, mas com conchavos e canetadas.

Eis aqui mais um triste episódio da democracia brasileira. Mas ela de fato existe? Ou só existe na conveniência? Pergunte ao tempo, à história, a Jango e Dilma Rousseff. Triste Brasil!

Jarbas Passarinho, cão de caça da Ditadura e em sua morte até exaltado pelo jornalismo nacional, disse certa feita a frase que caracterizou seu pensamento. “Às favas com os escrúpulos”. Hoje, às favas com a democracia!