Carreira beta — você já pensou como seria? By Rita Michel
O termo “beta” ou “versão beta” é utilizado para designar um produto (software, por exemplo) que se encontra em fase de desenvolvimento e testes. Esta versão incompleta é disponibilizada para que os usuários possam experimentar e reportar bugs (erros no sistema ou programa). Ao lançar a versão beta os desenvolvedores recebem informações valiosas sobre oportunidades de melhoria em relação ao que pode ser mudado e/ou agregado.
Minha proposta ao transpor o termo beta — ou versão beta — para a carreira é de uma desconstrução conceitual. Ainda estamos amarrados a um conceito de carreira como algo linear, atrelado à formação acadêmica, desenvolvida dentro de uma organização, condicionados a um plano de carreira que especifica critérios para considerar alguém apto (pronto) para as oportunidades que surgem.
Nessa perspectiva, a versão “final” é reconhecida após uma longa jornada em várias funções, vivências, culturas, desafios, MBAs e Especializações, entre outros, o que, muitas vezes, culmina com o “final” da carreira. Estar “pronto” num conceito tradicional requer muito tempo de experiência, estudo e alto grau de persistência. Na lista de bugs devem constar poucos insucessos. Por outro lado, se manter fora da área que você estudou pode ser visto como traição.
Considerando a possibilidade de que a cada ano o mundo mude de forma drástica e tenhamos que desapegar de nossas certezas mantidas como aqueles colecionáveis do passado — a ideia de final, de produto pronto e acabado perde o status. A lógica da vírgula, talvez, possa fazer mais sentido. Diferentes versões de carreira que seguem o fluxo do universo, o movimento da vida onde não existe receita pronta e nem histórias únicas e perfeitas. Neste contexto, a expressão japonesa Wabi Sabi usada para definir a harmonia visual que existe na imperfeição, possa traduzir uma forma de olhar e observar a realidade e a carreira com mais simplicidade, naturalidade e generosidade.

Gosto da ideia de que não teremos mais carreiras da forma como conhecemos hoje. A dinâmica da rede nos torna cúmplices e responsáveis solidários no lançamento de versões de carreira que estão sendo desenvolvidas e, por isso, são beta. Não se propõe a serem perfeitas, justamente porque são novas e inovadoras. As especificações de qualidade estão baseadas no alinhamento com um propósito e há um alto grau de tolerância em relação aos erros cometidos (bugs) pelos usuários.
Na carreira beta importa mais o protótipo do que o produto final. Os erros cometidos são reportados e compartilhados visando ao compromisso com o aprendizado de todos. O contrato prevê prazo indeterminado para a possibilidade de experimentação e testes. A gestão não é realizada por competências, mas por inteligências múltiplas e distintas. O plano não é de cargos e salários e sim de relevância dos projetos e impactos na sustentabilidade do negócio e do planeta.
A versão beta nos abre a possibilidade de conviver com projetos de carreira que ainda não estão prontos. Eles podem apresentar problemas, mas estão num nível satisfatório para o momento, mesmo que sem garantia de sucesso futuro. Isso nos permitira baixar um pouco os padrões de exigência, caso as expectativas de resultado não sejam atingidas de bate-pronto. Talvez assim possamos construir vínculos e ambientes de trabalho mais compatíveis com a vida — que igualmente nunca está pronta.
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Originally published at wp.clicrbs.com.br on August 25, 2016.