Carreira — você se sente perdido?

Faz tempo que reflito sobre o tema carreira, mas preciso reconhecer minha ignorância — como dizia Sócrates, autor da célebre afirmação “só sei que nada sei”. A partir desta declaração me sinto à vontade para formular hipóteses, percepções, provocações e também sugerir uma jornada de descobrimento direcionada para todas as gerações — inclusive a minha: Forever Young (FY), ou jovens para sempre. Talvez por considerar que já possuo uma forte convicção em relação ao meu propósito de vida: apoiar pessoas e organizações na busca de significado. Na verdade, esse é apenas um desejo, pois não acredito que tenhamos este poder. O que podemos, de fato, é sensibilizar e facilitar este processo através do compartilhamento de experiências, conhecimento e técnicas aprendidas.

Por vezes, para nos encontrarmos na carreira ou na vida é preciso nos reconhecermos perdidos. Então quando escuto a expressão “estou perdido ou estamos perdidos” — a única certeza que tenho é de que o primeiro passo já foi dado. A lógica de quem se encontra perdido é a de quem sabe o que significa ter se encontrado, caso contrário, nem sequer conseguiria identificar o seu estado atual. Isso pode parecer confuso, mas digamos que o próximo passo, após se considerar perdido seja justamente entender as raízes de nossa confusão. Uma hipótese é de que estamos tentando adequar nosso texto (conhecimentos, habilidades e inteligência) num contexto de mundo que não existe mais ou, pior, que só existe na nossa cabeça. Também é possível que estejamos apostando num script que nos foi repassado ou que aprendemos como “certo”, mas perante o qual somos o ator e não o autor da história. Por outro lado, podemos buscar aprofundar o autoconhecimento naquilo em que somos realmente bons, ao mesmo tempo em que ampliamos nosso olhar sobre um mundo que se revela volátil, incerto, complexo e ambíguo.

Com um breve olhar sobre estas e outras questões, já teríamos conteúdo suficiente para justificar uma longa conversa sobre carreira. No entanto, encontrar um trabalho que expresse quem somos e quem queremos ser, precisa contemplar reconhecimento e remuneração compatíveis. A presença destas variáveis vai tornando a tarefa da escolha profissional uma experiência cada vez mais desafiadora e complexa. Num artigo recente, comentei o conceito de carreira beta (inserir link). Minha intenção não foi propor uma disrupção meramente conceitual, mas vivencial. Pensar numa carreira não linear em que possamos seguir diferentes trilhas ao invés de um único trilho. Nos permitirmos experimentar caminhos que ainda não foram pavimentados. É preciso certa dose de coragem e ousadia para substituir a resposta quase sempre automática em relação ao “o que fazemos” e nos dedicarmos a enfatizar o ‘’por que fazemos”.
Quando mencionei acima, que estaria sugerindo uma jornada que incluísse todas as gerações, não penso que esse movimento esteja restrito aos jovens. O aumento da expectativa de vida nos coloca (para quem essa reflexão faça sentido), à frente da possibilidade de expandirmos nossa consciência sobre o porquê fazemos o que fazemos. Qualquer pessoa que queira fazer a diferença, nem que seja para si mesma, família ou comunidade, precisará em algum momento se perguntar qual é a diferença que o seu trabalho está realmente fazendo. É esperado que tais questionamentos entrem em conflito com valores, tais como: status, dinheiro, realização, família etc. E que também sejam impactados pelas expectativas geradas em cada um de nós. Não há nada de errado nisso, são parte do processo e precisam ser discutidas de forma respeitosa e sem julgamento.

Pensando em tudo o que envolve um processo de reflexão, escolha e transição de carreira, a sugestão é que você invista em uma ajuda profissional para empreender este movimento. Lembre-se que, sentir-se perdido, é um sinal importante e pode ser considerado um primeiro passo para se encontrar. Alguns sinais, se bem observados, podem ajudá-lo a identificar se você está precisando de apoio profissional na carreira: estresse elevado; falta de motivação; falta de crescimento profissional; baixa criatividade; foco nos problemas e não nas soluções. É importante ressalvar que estes sinais podem revelar outros problemas socio-afetivos e, portanto, reforçam a necessidade de suporte profissional. Buscar apoio, ao contrário do que possa parecer, é um sinal de saúde emocional, capacidade de autocrítica e visão sistêmica.

Rita Michel, idealizadora da Parallax — move to change.

*Na Parallax empreendemos uma jornada de descobrimento que se propõe a abrir as questões levantadas neste texto, num modelo de compartilhamento de ideias, vivências e aprendizados por indivíduos de diferentes gerações. Informações: www.parallaxinstitute.com ou pelo e-mail: hello@parallaxinstitute.com