Coaching Executivo — Um tipo de terapia empresarial? By Rita Michel

Fico feliz toda a vez que leio uma matéria ou escuto alguém falar sobre Coaching, pois revela uma oportunidade ímpar para estabelecer distinções em relação as demais abordagens de desenvolvimento e autoconhecimento disponibilizadas pelo mercado.

Nestes 14 anos e mais de 5.000 horas de atividade como Coach Executiva e de Carreira, tenho me deparado, com certa frequência, com uma associação automática de coaching com terapia. Este fato não me surpreende, uma vez que, ambos trabalham com aspectos comportamentais, ampliação de consciência e mudança. Na maior parte das vezes o trabalho é conduzido de forma individualizada (embora o Coaching de Grupo e de Equipe já sejam uma realidade) e numa frequência semanal (mais característico da terapia) ou quinzenal. No entanto, semelhança não é sinônimo de igual, e nem sempre aquilo que parece ser à primeira vista acaba se confirmando.

Para muitos, a linha que divide estas duas abordagens pode parecer tênue e vou me ocupar disso neste texto. Também é fato que a máxima que diz “de médico e louco todos temos um pouco” possa incluir as categorias de psicólogo e coach. É igualmente esperado que tal fato faça sentido para aqueles que não transitam diretamente pela área das ciências humanas. Neste caso, parece adequado conceder a estas pessoas o benefício da dúvida, fazendo-as acreditar naquilo que determinado profissional está dizendo que faz, já que não conhecem fatos ou informações que provem o contrário.

Como psicóloga que respeita os princípios da qualidade técnica e do rigor ético gostaria de me posicionar em relação ao Coaching — em especial no mundo corporativo e empresarial — onde tenho familiaridade, e ajudar a esclarecer certa confusão que existe entre as abordagens. Coaching não é terapia (nem com pessoa física e muito menos jurídica), mas pode ser terapêutico. Ou seja, toda a abordagem que se propõe, dentro de seus preceitos metodológicos e éticos, promover o bem estar e a saúde física, mental e espiritual dos indivíduos pode ser considerada terapêutica.

Existem inúmeros conceitos sobre Coaching e vou optar por um deles. Segundo a International Coaching Federation (ICF), instituição mundial dedicada ao avanço da atividade, “coaching é uma parceria entre o Coach (profissional treinado para entregar o processo de coaching) e o Coachee (pessoa que passará pelo processo de coaching). Trata-se, segundo o ICF de um processo estimulante e criativo que os inspira a maximizar o seu potencial pessoal e profissional, na busca do alcance dos seus objetivos e metas através do desenvolvimento de novos e mais efetivos comportamentos“.

Terapia, por outro lado, trata problemas psicológicos e afetivos, como depressão, ansiedade, dificuldades de relacionamento e fobias, entre outros. Para isso, o profissional que pode ser psicólogo ou psiquiatra, tem seu foco mais direcionado para o passado do que para o futuro. Ele precisa olhar para as primeiras relações do indivíduo, mesmo considerando que seu objetivo seja deixar o individuo mais preparado para lidar com o futuro. Ao contrário do Coaching, a terapia não tem qualquer preocupação de mover o individuo para a ação no curto prazo, assim como, não tem foco e objetivos claros e estabelecidos. As pessoas buscam um terapeuta tendo em vista uma questão ou problema específico, porém os assuntos que vão surgindo no decorrer das sessões se tornam outros conteúdos a serem trabalhados.

O processo de Coaching mira o futuro, tem objetivos específicos a serem atingidos num número de sessões pré-determinadas, que podem ser de 12, em média. A maior parte das terapias, não tem um número determinado de sessões, com exceção da terapia cognitivo-comportamental. O Coaching é um processo que pode ser mensurado através de indicadores de sucesso, visando a minimizar seu caráter de subjetividade. Em projetos de Coaching desenvolvidos para organizações é importante que o retorno sobre o investimento (ROI) seja medido. Outro aspecto relevante é que o Coaching tem um olhar apreciativo em relação aos pontos fortes dos indivíduos, buscando potencializá-los e colocá-los a serviço dos objetivos que precisa atingir e a favor do desenvolvimento de pontos em que este individuo não é tão bom. A terapia, por sua vez, tem um olhar para o sintoma e suas conexões com a história e a dinâmica de vida do individuo.

Busquei resumir as principais distinções que a experiência e o conhecimento trazem em relação as duas abordagens. Coaching não pressupõe formação em psicologia ou psiquiatria, mas tão somente formação sólida na metodologia e a sugestão de uma prática supervisionada até que se tenha mais experiência. Porém, tendo em vista que nosso objeto de trabalho é o ser humano, precisamos estar todos — profissionais e clientes — muito atentos aos limites éticos da área de formação e conhecimento para não adentrarmos em atividades para as quais não possuímos as qualificações exigidas. Cabe ressaltar que o código de ética da ICF, onde busco respaldo para a minha prática, indica a necessidade de ter clareza sobre as reais necessidades do cliente quando indicamos para a terapia e/ou para outros profissionais. Ou seja, existem limites éticos em que esta indicação se faz necessária. Isso afasta o risco de sugerir uma abordagem “equivocada” pelo simples fato de ser a que conhecemos ou atuamos, mas que não necessariamente trará maior benefício para o cliente. Fique atento!

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Originally published at wp.clicrbs.com.br on May 19, 2016.

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