
Reputação — Uma vida em 200 segundos. By Rita Michel
O insight veio do filme Sully: O Herói do Rio Hudson protagonizado por Tom Hanks. Em 2009, o mundo ficou em estado de choque e admiração quando o Capitão Chesley “Sully” Sullenberger pousou um avião — em pane — no Rio Hudson. Esse ato inverossímel salvou a vida dos 150 passageiros e alçou Sully à categoria de herói nacional. No entanto, nem mesmo a aclamação pública foi capaz de impedir uma investigação rigorosa sobre sua reputação e carreira. Costumo repetir com clientes que vivemos num mundo de interpretações. O tempo todo julgamos e somos julgados. E, como se isso não bastasse, também julgamos a nós mesmos. Aliás, nosso auto-julgamento tende a ser, na maior parte das vezes, bem mais rigoroso. Digamos que existe uma tendência de posicionarmos a régua num dos opostos — muito acima ou muito abaixo.
Quando o assunto é reputação não existe meio termo. Sendo o réu, a reputação, o julgamento costuma ser de caráter irrevogável e irretratável. No caso do Capitão Sully, uma longa carreira pautada pela ética, profissionalismo e seriedade foi levada a julgamento por conta de uma decisão que implicava o risco de vida de mais de uma centena de pessoas e a perda de patrimônio e de prestígio da própria companhia aérea para a qual trabalhava. A depender de como os fatos são analisados, interpretados e julgados pelas partes envolvidas, entra em jogo a imagem que demandou muito tempo, suor e esforço para ser construída. Frente a dados e fatos não há o que contestar, mas, neste caso e em muitos outros, a interpretação dos fatos pode ser decisiva. Em situações, como a do filme, em que uma decisão precisa ser tomada numa fração de segundos, manter-se íntegro aos valores profissionais e a segurança obtida pelo conhecimento e experiência adquiridas pode ser a chave capaz de minimizar dúvidas de que pode se tratar de um profissional com uma reputação consistente e inabalável.
Nossa reputação é colocada à prova diariamente, e não somente em condições tão cruciais como a que Sully esteve submetido ao decidir pousar a aeronave no Rio Hudson, em Nova Iorque, assumindo todos os riscos do procedimento. Mas o que está em jogo na perda ou questionamento acerca da nossa reputação? Infelizmente, a nossa carreira (=vida) e, provavelmente, a de outras pessoas vinculadas a nós, como no caso do co-piloto de Sully, Jeff Skile. Não existe treinamento que nos prepare para enfrentar este tipo de situação, considerando que nenhum de nós está livre de ser surpreendido por este tipo de questionamento em algum momento da carreira. Depressão, ansiedade, sensação de caos, angústia, dúvida, tristeza, confusão mental, negação, fuga, isolamento, raiva são alguns dos síntomas e mecanismos que utilizamos para fazer frente ao sermos colocados a prova em relação a autoimagem construída e projetada no mundo.
Quem já não se viu frente a uma experiência congelante em que poderia estar em jogo sua reputação, que atire a primeira pedra. Com o advento da internet os riscos em relação à reputação tiveram um crescimento exponencial. Assiti a uma entrevista no programa Milênio da Globonews com Jon Ronson, autor do livro Humilhado — Como a era da internet mudou o julgamento público. O livro explora uma das formas mais devastadoras da expressão humana na sua pior versão — a humilhação. O autor pesquisou a experiência de ser humilhado ou tomar parte numa situação de humilhação no universo online: como se sentem, como enfrentam e por que isso acontece. E descreve as pessoas que conheceu durante a realização da pesquisa como seres destroçados. Passar vergonha ou fazer o outro passar vergonha é vivido como uma punição e, segundo Jon Ronson pode ser equivalente a uma surra pública. Psicológicamente a natureza pública da punição é capaz de abrir uma cratera narcísica (= um buraco na auto-estima) com danos psicoafetivos irreparáveis. Fica a dica de leitura!
Como não existe curso que aborde as 10 dicas infalíveis de como evitar ou se preparar para uma ameaça a sua reputação, o jeito é seguir investindo energia para nos tornarmos as melhores pessoas e profissionais que pudermos ser dentro de nossa área de atuação, pautando nossas decisões pela ética, bom senso e seriedade e buscando nos cercar de colegas e parceiros que compartilhem de valores semelhantes aos nossos. Assim, caso você seja surpreendido por alguma dúvida em relação a sua reputação ou de alguém próximo a você, é provável que tenha mais condições de construir ou de apoiar a construção de uma tese que seja igualmente consistente e capaz de minimizar os possíveis impactos oriundos desta experiência. Não será sem sofrimento, mas você terá feito o melhor que pode. Nunca, em momento algum teremos 100% de certeza sobre o melhor caminho, posicionamento ou decisão a ser tomada. O caso do Capitão Sully é emblemático: 40 anos no ar foram julgados em 200 segundos.
Rita Michel — Idealizadora da Parallax — Move to Change
Informações: www.parallaxinstitute.com ou pelo e-mail: hello@parallaxinstitute.com
