Se você não gosta do que você faz, que chance a vida tem de ser boa?

À primeira vista a pergunta parece óbvia e foi proferida pelo filósofo e professor Clóvis de Barros Filho, numa palestra em que estive presente na semana passada durante o CEO Fórum da AMCHAM de Porto Alegre. Expressada de forma eloquente ecoou nos ouvidos e fez um pouso certeiro no lado esquerdo do cérebro e do peito. Poderia ser também uma pergunta de praxe — que não nos fazemos com frequência — mas que, dependendo das respostas, é capaz de nos arrebatar.

Algumas perguntas tem esse poder de nos colocar frente a uma questão crucial em relação à vida, trabalho, missão e propósito. Deparamos com questões de múltipla escolha e não raramente ficamos com aquela que pode ser a mais impactante — nenhuma das opções anteriores é válida. Nenhuma atende de forma satisfatória nossa ânsia por uma resposta que contemple as nossas expectativas, das pessoas com as quais estamos vinculados e que forneça a noção exata do sentido que queremos dar a nossa existência.

Ainda na palestra que abordou temas como colaboração, paixão pelo que se faz e engajamento, o filósofo fez outra afirmação não menos contundente e provocativa: se a “hora feliz” (happy hour), aquela que acontece, em geral, na sexta-feira, e que tantos de nós aguardamos ansiosamente durante a semana for pertinente, então a vida é insuportável de ser vivida, por que a felicidade tem que começar antes”.

Nosso corpo possui um mecanismo interno de autopreservação, como um termostato que regula as condições de temperatura e pressão e que é capaz, na maior parte das situações, de emitir sinais quando um possível desiquilíbrio se torna eminente. Da mesma forma, nossa mente possui um sistema semelhante que tenta de todas as formas conservar o equilíbrio através de dispositivos que chamamos de crenças, opiniões e atitudes. Tudo isso acontece automaticamente, ou seja, de forma inconsciente e, sem nos darmos conta, vamos fabricando os antígenos da mudança. Vamos postergando e empurrando com a barriga aquilo que exigiria abandonar a segurança do equilíbrio.

A tentação, de acordo com o filósofo, é grande de fazermos como todo mundo. Levantar na segunda-feira e fazer uma semana igualzinha a anterior, de nos acomodarmos na segurança das conquistas já adquiridas, de ignorar o trânsito do mundo e o fluxo do universo. De não percebermos que o que se cobra hoje de nós não é o mesmo que ontem. E que essa tentação pela preservação das coisas como elas são, pode ser destrutiva e absolutamente desarmônica com um cosmos que segue seu fluxo e nunca estagnou.

É fato que nosso olhar está longe de parecer impávido e desprovido de temor frente a tudo isso. O caráter das interações que estabelecemos com o mundo pode diminuir ou potencializar a energia necessária para nos movermos para novas escolhas. Há relações que nos apequenam, reduzem nossa energia vital e outras que nos engrandecem ao fazer emergir o melhor de nós mesmos. Não há como impor um filtro capaz de nos manter distante de relações que não nos convém, assim como, não é possível nos apartarmos de nós mesmos quando insistimos em olhar para o lado meio vazio do copo.

Passamos a maior parte do nosso tempo no trabalho, algo como 50% do tempo que passamos acordados durante os dias considerados úteis. Se a maior parte deste tempo de trabalho é vivido como “tempo perdido”, “tempo de infelicidade” ou “tempo de inconsciência”, então essa parte da vida corre o risco de tornar-se igualmente perdida, infeliz e inconsciente. O trabalho pode e precisa constituir-se num campo de possibilidades, de ampliação de consciência sobre quem somos e qual versão de nós mesmos irá contribuir para a contínua expansão do universo.

Uma parcela significativa das pessoas ainda segue operando no nível da inconsciência, sem considerar suas verdadeiras aspirações profissionais. As únicas pessoas felizes que conheço são aquelas que estão trabalhando com o que gostam e consideram importante. E você, tem experimentado a felicidade do durante, do instante ou a felicidade de quando a semana acaba?

Rita Michel — sócia da Parallax