O feminismo no ENEM e a necessidade de falar sobre a violência contra a mulher

Ontem senti uma pontinha de inveja de não ter feito ENEM, de não ter tido a chance de escrever com o coração aquelas trinta linhas. No meu tempo (como se já tivesse passado, haha), escrevíamos redações sobre temas aleatórios, genéricos, que alguém com boa leitura conseguiria escrever tranquilamente… Nessa prova de ontem, além do conhecimento que qualquer um pode obter, sinto que existia um algo a mais que apenas nós, mulheres, poderíamos dar.

O tema “A persistência da violência contra a mulher” nunca soou tão pertinente. Li que não deveríamos discutir isso, por vários motivos: que não era relevante; que homens são 83% dos que morrem; que essa opressão não existe; que ‘nem todo homem’; que ‘não é porque eu acho esse tema idiotice que eu apoio ~estrupo~ e que enquanto homem, branco cis e hétero, também sou oprimido pelo flanelinha preto e pobre que me pede dinheiro’.

Não é relevante para quem, cara pálida? Desde criança eu e todas (TODAS) as mulheres somos assediadas com olhares, toques e palavras inapropriadas… entre estranhos, conhecidos e familiares. E quanto mais o tempo passa, mais violento fica, as ‘cantadas’ que se respondidas com qualquer desprezo viram ameaças. O namorado bonzinho às vistas de todos, que em ambiente privado humilha, destrói a auto-estima, isola do mundo e tira a vontade de viver da mulher, cada dia um pouco mais. Os homens que nos dizem todos os dias que somos menos, valemos menos e merecemos menos.

Os homens morrem mais? Morrem. Por que? Porque se envolvem em situações mais violentas, situações de risco no trânsito e no cotidiano. Morrem mais e matam INFINITAMENTE mais. E além disso, a luta pela preservação da vida feminina não anula a luta pela preservação da vida masculina. Se essa questão te aflige tanto, faça algo, mas não me peça para parar minha luta para lutar a sua.

A opressão contra a mulher existe e incide sobre nós diariamente. Desde cedo, somos compelidas a deixar os estudos e brincadeiras de lado porque precisamos ajudar em casa, assumir responsabilidades que nunca são delegadas aos meninos. Daí cria-se o mito: meninas amadurecem mais cedo (inclusive para validar atos de pedofilia). Não amadurecemos mais cedo, somos forçadas a assumir responsabilidades. Inclusive a responsabilidade pelos crimes e assédios cometidos contra nós.

Muitos se preocupam em não generalizar… Ora “nem todo homem”, pouco me importa se “nem todo homem”, não tenho como ler um atestado de decência ao olhar pra sua cara. E além do mais, quando falamos de machismo, omissão também significa opressão. Vocês, rapazes, estão aí do alto do seu privilégio, me pedindo para não apontar o dedo a quem me oprime. Se “nem todo homem” assedia e violenta, te garanto que “TODA MULHER” sofre assédio, diariamente. E se o amiguinho, colega de trabalho, pai, irmão ou primo comete um assédio ou abuso e você se cala, está sim legitimando a cultura do estupro e da violência contra a mulher.

E o meu favorito… o pobre homem que se recusa a escrever sobre esse tema, porque mesmo sendo branquinho, bem de vida, cis, hétero… também é oprimido pela mulher que diz não, pelo preto que pede pra ficar de olho no carro, pela mãe que não lava sua cueca, e que acha ‘viadagem de coitadismo’ a luta por igualdade das mulheres porque todo mundo é oprimido igual. A você tenho apenas o desprezo, não só pela sua incapacidade de entender como o mundo funciona, mas sobretudo por achar que a tua “opressão” de alguma forma se compara com a nossa. Tu não tens o direito de achar que pode falar por mim. Em algum momento da história já pode, mas hoje não me calo mais e faço questão de fazer minha voz ser ouvida em todos os lugares: NÃO ACEITO A TUA OPRESSÃO. NUNCA MAIS. O LUGAR DA MULHER É ONDE ELA QUISER.

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