
Nunca fui muito de exaltar figuras públicas, celebridades ou afins. Isso não me faz ser mais ou menos que ninguém. Apenas costumo valorizar mais o trabalhador que encara o trem lotado às seis da manhã em vez do artista que anda de carro particular. É uma escolha. Culpo-me também pela introversão. Confesso que 10% dessa escolha seja parcela da minha própria personalidade. Ainda assim, compareci esta noite (04/11) ao lançamento do livro “Brasil, construtor de ruínas” de Eliane Brum, no Shopping Frei Caneca, em São Paulo.
Não sou fã de Eliane. Mas não deixo de reconhecer seu excelente trabalho como escritora e jornalista. A primeira, e até o momento única, obra que li da autora me envolveu de um jeito que não há como explicar. “A vida que ninguém vê” fez florir em mim novamente o gosto pela escrita e pela literatura. Gosto aposentado que não florescia integralmente desde os meus 10 anos de idade; não por acaso, meu primeiro texto aqui no Medium, e o fato de iniciar esse diário de pensamentos virtual, foi devido à inspiração que seus contos e sua escrita me trouxeram.
Não comprei seu livro porque não tinha dinheiro e não achei que tivesse o direito de pedir um autógrafo sem ter adquirido sua obra. Mas, embora não seja legalmente correto, faço questão de baixar o primeiro e-book quando estiver disponível na internet. Me desculpe, Eliane, se você estiver lendo isso. Infelizmente, a leitura é, e sempre foi, muito elitizada no país. Podemos notar reparando no público que frequenta essas livrarias. Por mais que falemos da periferia recorrentemente em livros e dissertações, o próprio subúrbio dificilmente tem acesso a esse conhecimento. Nem sequer sabem que estão falando deles em algum lugar do centro chique de São Paulo. Falo isso como moradora da comunidade e não como uma outsider metida a progressista.
Eliane é uma pessoa calma que, como ela mesma concordou, transpassa uma confiança ímpar a qualquer um que esteja em sua frente. Não tirei foto, não conversei, nem agradeci. Mas observei. Observei seus gestos, sua voz, seu olhar. Por trás da minha aparente (somente aparente) indiferença àquela situação, eu bradava internamente a necessidade de conhecer o rosto por trás das palavras que me tocaram a alma, ainda que a própria não soubesse disso.
No final, eu a conheci. E a experiência desta noite eu guardo na minha bagagem simples de mão, junto a tantas outras que ainda virão. Mala que carrego comigo nessa jornada até me formar, assim como Eliane, uma jornalista.
