Lula ou Nada: Qual é o sentido?
A pretensa esperteza política que setores da esquerda atribuem a si próprios por lançarem um nome para substituir Lula dando, no seu entender, um drible estratégico na direita golpista é na verdade, quando não manifestação de uma inocência imperdoável, prova de uma capitulação conivente e egoísta daqueles que querem preservar (ou conquistar) seus cargos à custa da ilusão popular em um processo fraudulento.
É preciso ser redundante em nível tedioso e repetir pela milésima vez que vivemos sob um novo regime, um regime de força e de ausência absoluta da legalidade. O golpe contra Dilma e a prisão ilegal de Lula são os pontos mais flagrantes deste cenário.
Um regime de força não pode ser parado pelas vias institucionais dele próprio. A eleição de Lula, nesse contexto representaria uma quebra na solidez do regime, uma manifestação da força popular contra as amarras do golpismo. Todas as outras candidaturas representam o contrário disso, a conformação em escolher para a disputa os nomes permitidos pelo regime.
No ambiente da esquerda pequeno burguesa e da burocracia dos partidos tradicionais da esquerda há a ilusão de que uma figura com ideário similar ao de Lula representaria em caso de vitória um ponto positivo para todos os trabalhadores. Uma tese que para ser levada a sério precisa fazer um recorte bem artificial da conjuntura.
Em primeiro lugar, todas as candidaturas que se apresentam hoje, fora a de Lula, são ou absolutamente inofensivas ou integralmente comprometidas com o programa golpista. Caso contrário, não estariam de pé. O regime que encarcerou Lula com uma ação conjunta (força tarefa) de imprensa, polícia e judiciário, é capaz de pulverizar em horas qualquer nome que não se enquadre perfeitamente do script da farsa.
Uma segunda tese errada (que leva a uma política errada) é que por fora da confirmação passiva com teatro democrático, só há a imediata opção da revolução armada, que não encontra nas massas a mínima receptividade. Essa tese é, além de falsa, sintomática de uma carência absoluta de formação política inclusive das figuras mais proeminentes de esquerda brasileira.
Entre a passividade carnavalesca da eleição e a guerrilha há um sem números de formas intermediárias de luta política. Greves, protestos, bloqueios, intervenções públicas, ações locais de agitação e propaganda que uma vez disseminadas pelo país colocariam sem dúvida, como demonstraram os caminhoneiros, o regime nas cordas.
O nome de Lula nesse sentido representa o fio condutor de um movimento que transpassa a eleição e que organiza no entendimento das massas o fato de que a miséria atual e a prisão de ex-presidente compõem etapas do mesmo processo. Entendido isso fica claro que luta pela sua liberdade, mais do que a luta por um programa de governo, é a luta contra o próprio esmagamento.
