amor liberta.

inspiração na vida pode ser tudo. a dor, o vazio, a morte. nunca vi nada trazer mais liberdade que o fim. e talvez por isso ele seja constante na nossa vida. somos feitos de ciclos e nada faz sentido se não tem dia pra acabar. eu. você. a vida. tanto que enquanto há vida, não faz sentido. mas quando há fim, o sentido aparece sapateando bem na sua frente. a morte liberta, e nada, nada em vida precisa fazer sentido. em maio do ano passado, recebi uma ligação. não só uma, algumas, junto com mensagens e abordagens estranhas. eram vizinhos, pessoas que me viram crescer e que precisavam, de repente, fazer contato urgente comigo. eu larguei a cenoura que eu estava descascando na cozinha da casa da minha sogra em uma comum terça-feira útil. as pessoas me procuravam pra saber da minha mãe, se eu tinha tido algum contato com ela nos últimos dias. quando eu tinha falado com ela pela última vez. eles já sabiam. elas encontraram ela. ninguém sabe do quê, como, nem quando. foram feitos alguns cálculos pela equipe da polícia do IML e chegamos a data de 5 de maio de 2015, dia que encontraram minha mãe, no nosso apartamento onde moramos juntas por 18 anos, morta. a partir daí vivi dias vazios. é difícil falar sobre o vazio porque ele aparentemente não tem nada. um vazio que me acompanha desde quando eu soube que eu nunca mais ia ver ou ouvir minha mãe. um vazio gigante. ausência de cor, de vida, de luz. um breu. apagaram todas as luzes de repente em um lugar que você nunca foi antes. mas aí você começa a tatear as coisas, reconhecer algumas, pessoas chegam pra te ajudar a clarear um pouco o seu caminho. eu consegui acender a luz de novo. e não é que a minha vida começou a ter mais sentido? um amor de verdade pra justificar a existência: sua mãe. a relação mais difícil que eu tinha. e com certeza a mais bonita. é amor de verdade que faz alguma coisa ter sentido. e é a liberdade que dá sentido sem você pedir ou procurar. a morte liberta. morreu minha esperança de fazer mais por ela. morreram as ligações nos dias fortes de chuva. morreram os melhores cafunés do mundo. morreram os dias ruins. tudo que existia aqui nesse mundo material morreu. e nasceu uma liberdade em amor que eu jamais tinha conhecido. eu entendi que não precisa fazer sentido. minha mãe dizia que quando eu nasci, ela sentiu a maior dor e o maior amor. e talvez seja assim mesmo nascer e morrer. ser filho e ser pai. a gente nasce. a gente morre. e talvez nessa vida a dor e o amor sempre sejam potencialmente proporcionais. fortes. em direções contrárias. mas é o que mantém a gente vivo. nossa dor. nosso amor. a vida. a morte. o começo. o fim. o nascimento. a morte. o renascimento.

mãe, você morreu, e eu renasci na maior dor, e no maior amor.

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