Precisamos reaprender a escutar

A breve história de como me tornei um Sound Thinker.

O som é a primeira manifestação sensorial que temos quando ainda estamos no ventre materno. Começamos a ouvir sons do coração e mais a frente a voz materna. Mas de fato, e de forma consciente, minhas lembranças sonoras remetem aos meus 4 ou 5 anos de idade onde eu escutava Beatles em vinil com meu pai. Lembro exatamente do som da agulha tocando o Vinil lentamente e aquela música tomando conta da casa. Eu também me divertia fazendo gravações com um pequeno microfone Akay em um 3 em 1 da marca Gradiente em meados dos anos 80.

Pouco tempo depois, fui apresentado a diversos instrumentos musicais e escolhi o piano pra sorte ou azar dos meus pais e vizinhos, já que a reverberação do meu instrumento ultrapassava as paredes de casa e chegava repetidamente até os ouvidos de todos. Sem exatamente saber o porquê, escolhi o caminho mais erudito e tentei evoluir ao longo de 7 longos anos. Até perceber que seguir partituras ou caminhos pré-determinados não me atraía. Pausa nos sons musicais e aumentam os sons da infância, tão importantes e que ficaram registrados na minha memória, como a de amigos chamando pra jogar bola numa tarde de verão chuvosa.

Chega a adolescência e muitas coisas mudam, incluindo a maneira como você vê e ouve o mundo. Comecei um novo namoro com a música agora através da guitarra. Montei algumas bandas sem muita (ou nenhuma) expressão. O que mais me instigava não era exatamente fazer shows, mas sim a possibilidade de pesquisar e conectar novas texturas, ritmos e trazer outros músicos com visões completamente diferentes pra compartilhar experiências sonoras.

Passaram alguns anos e ingressei na Universidade. Escolhi Relações Públicas por empatia mas sem entender exatamente o que isso significava. Como tínhamos uma integração entre os cursos de RP, PP e Jornal nos primeiros três semestres, naturalmente comecei a me aproximar das turmas de publicidade pra ficar próximo dos estúdios de som da Faculdade. Logo meus colegas começaram a se inserir em agências. Enquanto isso, aproveitava meu curso e imergia nos valores da atividade em valorizar todos os stakeholders na construção de uma mensagem consistente e coerente de marca trabalhando com grupos de pesquisa e planejamento. Passado seis meses, só então ingressei em algumas Produtoras de som e estreitei minha relação com o mercado publicitário tendo um primeiro contato com o universo das marcas. Foi um período incrível onde pude trabalhar com pessoas que me ensinaram muito.

Sempre fui uma pessoa dos Porquês e consequentemente comecei a questionar não somente o formato das Produtoras em reproduzir ideias através do som como compreender porque esse ou aquele estilo musical ou padrão vocal estavam sendo escolhidos pra campanha de lançamento de uma marca, por exemplo. A música combinava esteticamente com aquele comercial de 30s mas será que se conectava com as pessoas que realmente iriam comprar aquele produto? Já era de praxe naquele tempo reservar para o som muito pouco tempo em reuniões intermináveis de produção de um filme, independentemente do budget. Ironicamente, em muitos casos, ouvíamos do próprio cliente:

“O som será 50% desse filme, ok?!! Então conto com vcs”.

Como? O som era 50% e tínhamos menos de 5% do tempo pra falar a respeito? Sendo que a ideia sonora muitas vezes já era preconcebida sem muito espaço para provocarmos reflexões a respeito.

Esse desconforto começou a ficar evidente em mim e minhas ideias já não soavam consonantes com formatos que já estavam consolidados. Pouco tempo depois, resolvi montar minha própria Empresa aos 24 anos de idade. Com mais dois sócios, e agora a frente do meu próprio negócio, pensei que seria possível de uma maneira mais fácil mudar o jeito do mercado trabalhar. Ah os Jovens. Como mais uma produtora de áudio focada no mercado publicitário brasileiro, fizemos as peças mais variadas dentro dos diversos formatos existentes. Mas ainda assim, dentro de formatos. Não somente enfrentava a resistência do mercado, como a minha mesmo em compreender o que eu realmente queria buscar com tudo aquilo.

Cinco anos e muitas experiências depois, conheci o conceito de “Paisagem Sonora”, encabeçado por R. Murray Schafer. Estudando livros como “Soundscape” e “The Tuning of the World”, comecei a expandir minha percepção sobre som. Nele o autor comenta que vivemos um paradoxo entre a evolução dos grandes centros urbanos e a involução quanto a percepção sonora.

As pessoas estão cada vez escutando menos o que acontece à sua volta.

Intuitivamente (ou não), comecei a cruzar todos esses pontos e envolver outras disciplinas como pesquisa atrelada a comportamento, novas tecnologias, ferramentas de branding pra gerar novas ideias e experiência de marca. Quanto mais estudava, mais o sentido crítico e analítico aflorava. Gradativamente, projetos com entregas mais estratégicas foram sendo desenvolvidos e os resultados começaram a ser reconhecidos em diferentes partes do mundo. Trazendo uma visão mais holística sobre som que visava não somente atender aos interesses do negócio e da marca como também das pessoas, gerando impacto positivo de forma compartilhada. A medida que encerrávamos um ciclo de aprendizado outro se iniciava.

Pouco a pouco, estava transformando meu negócio em algo mais profundo e perene mas havia uma dissonância. Ainda éramos uma produtora de som e, em muitos casos, estávamos produzindo mais som em um mundo altamente congestionado com áudios. Sem ter noção das consequências que isso tinha para as marcas, seus clientes e colaboradores. Nosso som estava se dissipando. A chave começou a virar. Mas essa busca constante por um propósito trouxe obviamente desconforto, como a ruptura com meus sócios que começaram essa caminhada comigo e foram com certeza importantes pra mim. Hoje fica evidente que a medida que eu me direcionava para a minha crença, me distanciava de pessoas e formatos que não faziam mais sentido. A medida que o tempo passava, mais e mais mudanças no meu jeito de pensar e do negócio aconteciam.

Comecei a montar um time sem medo de experimentar. Passamos a envolver pessoas de diferentes expertises e até mesmo nossos clientes no processo criativo dos projetos. Nascia em nós uma nova cultura de trabalho onde o som era pensado em toda a sua amplitude a metodologia que chamamos de Sound Thinking.

Nosso propósito ficou claro: precisávamos expandir os sentidos das pessoas e das marcas sobre o universo sonoro ao nosso redor.

Um esforço de conscientização e transformação cultural que ficava mais forte à medida que cada projeto era colocado de pé.

Hoje, nossa equipe é multidisciplinar e conectada a uma rede de diversos parceiros com alta expertise dentro e fora do Brasil. Estamos livres pra pensar em agregar pessoas com expertises e principalmente vivências diferentes para cada desafio que virá pela frente. Mais estratégia e curadoria com menos formatos. Trabalhando de um jeito co-criativo e verdadeiramente multidisciplinar com nossos clientes. Evoluindo e cotidianamente aprendendo a escutar como realmente podemos ajudar a transformar vidas, negócios e a sociedade como um todo através do som.

Mas os pontos de intersecção continuam acontecendo cada vez numa velocidade maior. Como disse Roberto Martini, amigo e fundador da Flag:

“Quando a mudança começa a acontecer de forma cotidiana, ela já não se configura mais como mudança. É algo que já pertence à sua realidade.”
“…esse processo de descoberta assusta num primeiro momento. É como quando estamos em uma sala escura e abrimos uma porta para um espaço com muita luz. Você sabe que está entrando num ambiente iluminado, mas ainda não consegue enxergar direito. Aos poucos sua visão vai ficando mais e mais clara. E aquilo se torna muito prazeroso.”

É isso. Precisamos reaprender a escutar. Prestar atenção nas pessoas que amamos, em nossos colegas, equipe, chefes, parceiros, vizinhos, clientes, nas pessoas de um modo geral mas fundamentalmente, precisamos reaprender a escutar a nós mesmos. Seja bem vindo a nossa jornada sonora.

Texto publicado originalmente em www.soundthinkers.co.