E se vivêssemos em um mundo completamente transparente?

Não se fala de outra coisa no país já há um bom tempo que não seja os casos de corrupção política que se sucedem numa espiral sem fim. Agora, imagine a seguinte situação: e se todos os congressistas estivessem munidos de uma micro câmera ultra potente com uma bateria extremamente resistente afixada a uma parte da roupa no exercício de suas funções diárias? Essa câmera transmitiria em tempo real para qualquer cidadão com um dispositivo eletrônico imagens e sons em altíssima definição sobre toda a rotina parlamentar: reuniões, eventos, telefonemas, encontros, despachos, almoços, apertos de mão… Mas, não, não pense que os políticos seriam ‘grampeados’ ou obrigados a isso, ao contrário, filmariam todas as suas atividades por livre e espontânea vontade, simplesmente pelo fato de que a transparência seria um pré-requisito, ou melhor, uma prerrogativa da vida pública.

Agora, lhe pergunto: seria essa uma solução plausível para a corrupção que assola a vida pública? Pois é, essa é uma das várias indagações/provocações criadas no enredo distópico do livro O Círculo, de Dave Eggers, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. A obra, lançada em 2014, levanta questões cruciais em tempos digitais sobre temas como privacidade, superficialidade das relações sociais, memória, democracia e limites do conhecimento humano.

O conhecimento é um direito humano básico. Quando privamos as pessoas das nossas experiências, estamos roubando delas essas experiências. Compartilhar é cuidar. Privacidade é roubo.

Esqueça Facebook, Twitter, Instagram, Linkedin e YouTube. O Círculo é uma espécie de amálgama de todas as marcas estelares da era digital => a rede social definitiva. É lá que Mae Holland vai trabalhar por indicação da amiga Anne, após amargar anos de um trabalho burocrático e enfadonho em uma repartição pública.

De cara, Mae se deslumbra com os prédios de vidro e aço, os pés-direitos infinitos, as quadras de vários esportes, os jardins ornamentais, os refeitórios com chefs internacionais… A sede, ou melhor, o ‘campus’ dessa megacorporação fica localizado onde mesmo? Ora, na Califórnia, onde mais?!

Um círculo é a forma mais forte do universo. Nada pode vence-lo, nada pode melhora-lo, nada pode ser mais perfeito. E isso que desejamos ser: perfeitos. Portanto, toda informação que nos escapa, tudo que não é acessível, nos impede de sermos perfeitos, entende?

Toda a mecânica do Círculo é liderada pelos Sábios: Eamon Bailey, um adulto entusiasta, padrinho e profeta daquele ambiente mágico em que a tecnologia resolve todos os problemas, o rosto público agradável que sempre anuncia para o resto do mundo as novidades da empresa; Tom Stenton, o CEO obstinado, disposto a transformar tudo em dinheiro, o capitalista engravatado que faz o mundo perfeito de Bailey funcionar; e Ty Gospodinov, o gênio juvenil que bolou todo aquele organismo digital e hoje vive recluso, aparecendo apenas em transmissões em vídeo.

E o que Mae faz lá? Basicamente, ela se socializa e estimula o tempo todo os outros a se socializarem em todos os sentidos possíveis e imagináveis.

É bom você saber que ser social e ser uma presença em seu perfil e em todas as contas correlacionadas faz parte do por que você está aqui. Consideramos a sua presença na Internet como algo intrínseco ao seu trabalho.

No decorrer da leitura, Dave Eggers vai detalhando os programas e projetos que estão ou já foram desenvolvidos pelo Círculo. Entre eles, estão o SeeChange, uma ferramenta de streaming onde pequenas câmeras de alta definição monitoram tudo e todos, em qualquer lugar do mundo; o PastPerfect, um programa que visa traçar toda a árvore genealógica do usuário utilizando o cruzamento de dados e o reconhecimento facial em todas as imagens e dados existentes na Internet; o TruYou, que consiste em uma rede unificada de identidades, onde os usuários possuem uma conta que centraliza todos os seus acessos à bancos, sites de compras, redes sociais, apps e etc; o Chad, que monitora por meio de um bracelete a saúde de todos os colaboradores em tempo real, a ponto de antecipar a gripe de um e pedir a ele para se retirar antes que ‘contamine com seus germes’ o ambiente; e, talvez o mais intrigante, o Demoxie, que torna obrigatório o voto, o pagamento de impostos e a requisição de qualquer serviço público por meio da conta no Círculo — sim, já imaginou votar pelo Facebook?!

Se você não é transparente, o que está escondendo? Tudo o que fazemos tem a ver com conhecer o que antes não se conhecia.

O ápice do livro fica por conta da completude, momento no qual, assim como está propositalmente visível no logotipo da empresa (vide a capa do livro), o Círculo se fechará, encontrando sua plenitude ao obter o acesso e o controle absoluto da informação do público e do privado em nível global.

A proposta de Eggers, fundador da editora independente McSweeney’s e da revista literária Believer é clara: provocar/perturbar. Para onde estamos indo? Sabemos o que estamos fazendo?

À propósito, Mercer, ex-namorado de Mae, cutuca:

Sabe o que eu acho? Acho que você pensa que ficar sentada em uma mesa de trabalho, mandando sorrisos e caras feias, de algum jeito faz parecer que está levando uma vida de fato fascinante. Você vive fazendo comentários sobre as coisas e isso substitui fazer as coisas de fato. Olha fotos do Nepal, aperta o botão de sorriso e acha que é a mesma coisa que ir lá. Mae você se faz conta que virou uma pessoa muito sem graça?

Não cabe aqui tomar partido, ser conservador, progressista, fiel ou ateu. O único propósito desse texto é deixar um singelo recado: se você ainda não o fez, comece imediatamente a se questionar sobre sua presença no mundo virtual. O Círculo, de Dave Eggers, é uma bela ferramenta para lhe dar subsídios a esse processo.

P.S: A adaptação do livro chegará em breve aos cinemas com Emma Watson e Tom Hanks.