177-X

Quando chega a quarta-feira, eu já tô derrotado. Depois de um dia cheio, tive que encarar o meu maior pavor pra voltar para casa: a terceira fila.

Me dirigi à plataforma de sempre, mas o ônibus chegou logo. Era o 177-X. Cresci decorando o número de todos eles, é mais fácil e mais rápido que chamá-los pelo nome. 148-P, 118-Y, 971-T, PÊ, EME, CÊ, PUTA QUE O PARIU!

Dei azar, acabei sentando do lado de uma pessoa grande. Você não precisa trabalhar em obra, apanhar, ser pugilista, ou o que seja, pra sentir essa sensação de ter o corpo esmagado. Triturado. Moído. Era assim todos os dias.

Acho que o cara nem era tão grande assim, na verdade o espaço que era pequeno demais pra nós, pra todo mundo que tava ali. As costas fora do lugar, o braço dormente, a perna que não dá pra esticar, a gente se aperta e vai.

Já começou ruim, quando percebi já tava com a cara colada no celular, só pra somar mais uma dor — dessa vez no pescoço. E como balança! A cada curva meu corpo encontrava um jeito de ser expurgado do banco. E pra achar uma posição agora?

Eu não falo inglês, mas tava entendendo o que a música tava dizendo. Falava alguma coisa sobre voltar a tocar num lugar pequeno, mesmo depois de ter alcançado sucesso (pra mim sucesso é não ter mais que passar por esse inferno todos os dias). Sempre evitei colocar alguma coisa em português nessas horas, senão é aí que dá ruim.

Dali do banco do corredor, mesmo que espremido, tava reparando em tudo. Lembrei de uma vez quando me falaram que aqui em São Paulo parece que a cada quarteirão que você passa tem alguém tendo algum tipo de surto. Um morador de rua falando sozinho, um cara chorando no meio da calçada, uma moça gritando no celular, as pessoas esbarrando umas nas outras. No ônibus não era diferente, acho que eu mesmo tava surtando naquele momento, mais uma vez.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.