Maria fez café

Maria sempre acordava antes das 6 horas da manhã. Acostumada com a vida no interior de levantar antes do galo cantar, ela manteve o hábito de sua cidadezinha, para onde nunca mais havia voltado. Abria os olhos e contemplava o pequeno cômodo do quarto, tateava pelo criado mudo até seus dedos encontrarem a pequena haste de plástico e lentes que a fazia enxergar melhor. Era hora de levantar.

Ao lado da cama guardava um porta-retrato do marido. Todos os dias ela passava a pequena mão sobre a foto, era um jeito de acalmar a saudade. Sua rotina pela manhã deste ponto em diante seguia a mesma: tomar banho, fazer um coque com os longos cabelos que não cortava desde que havia se convertido e passar um café.

O café de Maria tinha um gosto de 1913, era forte e cheiroso, como deveria ser. Do armário saía a velha cafeteira italiana, um presente de casamento lá de Botucatu.

Por vezes, recebia a visita do neto, sempre no final da tarde.

– Vó, tem café?

perguntava o menino.

– Tem sim, filho.

respondia Maria.

Como qualquer criança, ele amava o cheiro do café da avó. Sempre que a visitava, era como uma última brincadeira do dia observar o líquido passando de um recipiente para o outro.

– Filho, o café tá muito quente, deixa que eu o esfrio para você.

dizia com a voz bem rouquinha de cachimbo e 85 anos.

Maria pegava uma velha caneca de alumínio e um copo americano. Ela ficava passando o café de um para o outro. O barulho que fazia ao se chocar no vidro parecia de uma televisão sem sinal, diferente do agudo e cintilante que fazia quando caía na caneca. O menino apoiava os dois braços sobre a pia, descansava o queixo em cima das mãos e ficava observando a avó repetir o processo sem dizer uma palavra.

O café sempre repousava no copo americano. Mesmo depois disso, ainda ficava bem quente e a fumaça fazia cócegas no nariz. Conseguia dar uns 3 ou 4 goles, deixava o copo sobre a pia, agradecia e saía disparado para encontrar o pai, que já estava no carro.

– Tchau, vó. Obrigado.

dizia correndo em suas perninhas.

– Tchau, filho.

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