A esquerda no poder

Quando deixar o governo, a esquerda terá de explicar um paradoxo: por que, tendo tido a oportunidade, não governou à esquerda.

Julho de 2013 — Marcelo Camargo/ABr

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Quando tudo passar, a esquerda brasileira terá um desafio. Não é o de explicar seu envolvimento com corrupção. Nossa corrupção é democraticamente distribuída e nunca teve preconceitos ideológicos. Seu desafio maior será compreender por que, tendo tido a oportunidade, o PT não fez um governo de esquerda. Na Reforma Agrária, assentou em média menos famílias por ano do que o governo tucano. A política econômica se mostrou, durante boa parte do período, mais preocupada com banqueiros e grande indústria. Adotou uma política energética obsoleta. Fechou os olhos para a questão indígena. Sequer tentou avançar na ampliação de direitos LGBT. Não encarou o problema carcerário ou a brutalidade policial voltada contra os mais pobres. Não houve melhoras notáveis no ensino ou saúde públicos. A legislação ambiental saiu de bandeja para a agroindústria. Governo, sugerem os mais cínicos, é como violino. Pega com a esquerda, toca com a direita.
 
 A história, tomando emprestado conceitos da ciência política, ajuda a explicar.
 
 A República teve dois períodos realmente democráticos. Entre 1945 e 64 e, agora, desde 1985. Deste total, somando-se os governos Getúlio, Jango, Lula e Dilma, chegamos a 19 anos, contra 21 do resto. Há equilíbrio. Se Dilma terminar o mandato, é 22 contra 21. (Quem põe o PSDB na coluna esquerda transforma o empate em goleada.)

O que é esquerda?
Uma definição cabe: governos existem para garantir bem-estar social e ordem. O problema é que um se atrita com o outro a toda hora. Grupos desfavorecidos, afinal, só têm uma arma para reivindicações: incomodar. O MST invade fazendas. Estudantes ocupam escolas. Comunidades carentes interrompem o tráfego. Ambientalistas bloqueiam tratores. As escolhas não são absolutas. Em um caso pode-se optar por um e, dada uma circunstância diferente, pelo outro. Mas é na escolha entre reivindicações e ordem que se distinguem esquerda e direita. Quanto maior a frequência de escolha da ordem, mais à direita. É uma definição clássica.
 
 Por esta definição, o primeiro movimento de esquerda no Brasil foi o abolicionismo. Nas três décadas iniciais do século 20, cresceram e se impuseram, principalmente em São Paulo, os anarquistas. Houve inúmeras revoltas populares, como a da Vacina, da Chibata, Canudos ou Contestado. Busque, porém, na produção acadêmica artigos contando a história da esquerda. Começam, quase todos, com a fundação do Partido Comunista Brasileiro.
 
 O comunismo teve um momento de muita força, na década de 1930, quando em meio a uma severa crise econômica eleitores em todo mundo se lançaram em braços radicais. À direita, o fascismo também cresceu. Mas, se em lugares como a Espanha, o anarquismo não arrefeceu, no Brasil acabou. O comunismo se impôs e ocupou espaços pelas décadas seguintes, sufocando alternativas. Entre trotskistas e maoístas, stalinistas e albaneses, todos os debates intelectuais à esquerda se concentraram dentro do comunismo.
 
 O comunismo capturou a imaginação de esquerda.

Alternativas
Foi Getúlio Vargas quem abriu espaço para uma alternativa: o trabalhismo, com longa vida do Estado Novo ao PTB e de lá ao PDT.
 
 O comunismo foi uma aposta contra a democracia. Acreditava que um regime democrático baseado no capitalismo não seria capaz de promover bem-estar social. Perdeu duplamente a aposta. Regimes comunistas não foram capazes de se sustentar e o capitalismo se tornou mais humano.
 
 Já o trabalhismo se ergueu sobre dois grupos: sindicalistas e funcionários públicos. É um movimento capaz de trabalhar dentro da democracia. Mas é corporativista, depende da garantia de privilégios para estes grupos. Em troca, cria uma extensa rede de apoio ao governo na burocracia e entre trabalhadores organizados. Vargas herdou da República Velha um regime que viveu trinta anos em convulsão social contínua, rebeliões a toda hora. Criou um espaço político para operários e a, naquela época, jovem classe média técnica. Trouxe algum equilíbrio num ambiente onde só oligarcas tinham poder. Apaziguou o Brasil.
 
 Mas, entre comunismo e trabalhismo, qualquer outro tipo de esquerda foi sufocado. E é aí que entra teoria política, com a ajuda de um excelente artigo do professor Luiz Carlos Bresser-Pereira (PDF). Porque, em geral, a esquerda se divide em quatro campos. O primeiro é a Esquerda Revolucionária. Comunistas. O segundo, a Esquerda Burocrático-Sindical. O que chamamos, por aqui, de trabalhismo. Há a Esquerda Utópica. Como os comunistas, tem dúvidas de que a democracia capitalista gere bem-estar social. Mas não são revolucionários, jogam por fora, em ongs ou outros grupamentos, mergulham na sociedade em busca de mudanças. E, por fim, há a Centro-Esquerda, que já foi social democrata e hoje pensa uma esquerda liberal.

A falta de uma esquerda plural
 A captura da imaginação da esquerda feita pelo comunismo foi reforçada pela Ditadura. Quando voltou a democracia, nossas únicas referências persistiam sendo comunismo e trabalhismo. Como se a evolução política da esquerda tivesse parado na década de 1940. A diferença é que, aqui, não nasceram grupos de pressão à esquerda.
 
 Um governo sofre pressões constantes de grupos de interesse. Federações de indústria ou bancos, por exemplo, ou agronegócio. Faz parte do jogo democrático. Na Europa ocidental ou nos EUA, grupos de defesa de direitos civis, ou feministas, ou ambientalistas, ou não importa o quê, são igualmente fortes, e têm raízes profundas na sociedade. Esta base estrutural de pressão não foi formada no Brasil. A cultura de se organizar politicamente dentro da sociedade mal existe.
 
 Na forma de governar, o PT é trabalhista. Mas muitos de seus dirigentes pensam com a lógica comunista. É como se o partido bastasse a si próprio. No governo, a sociedade estava lá fora e as pressões vieram de onde sempre vêm. No governo, o PT foi igual a todos os outros. E governou qual violino.

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