Pedro, eu respeito muito a sua opinião, mas dizer que não é golpe, mesmo que entre aspas, quando o…
Carolina Castro
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Carolina —

Três pontos importantes.

Golpe de Estado tem definição. Ele ocorre com o rompimento da Constituição. Se é legal, não é Golpe de Estado.

Você pode chamar de farsa, sim.

Só que ‘golpe’ tem um sentido muito pesado. É uma palavra como genocídio, como nazismo. A gente não usa à toa. A gente não devia usar certas palavras como metáfora. Elas só deviam poder ser usadas para exatamente aquilo que querem dizer. Golpes são rompimentos institucionais violentos. Se usamos para qualquer coisa que não seja seu uso preciso ela começa a perder seu peso. E, aí, quando houver um Golpe de fato, a palavra foi abusada, perdeu a força da denúncia que carrega.

O segundo ponto: as pedaladas fiscais não foram legalizadas no dia seguinte ao impeachment. As pedaladas fiscais são a tomada de empréstimos por parte do governo de bancos que ele, governo, controla. Isto era contra lei e crime passível de impeachment quando Dilma o fez, continua sendo ilegal e cabe a mesma pena.

O que ocorreu na sexta-feira foi que o Congresso alterou a Lei do Orçamento referente a 2016 para permitir que o governo possa aumentar ou reduzir os gastos num ponto ou outro em até 20%. Ele não pode criar gastos novos. Se aumentar aqui tem de diminuir acolá. Em 2014 e 2015, o governo fez essas mudanças sem pedir permissão ao Congresso. O que é também proibido por lei e também configura crime passível de impeachment. Nos anos anteriores, 2013, 12, o governo pediu a autorização que a lei exige. Isso não tem nada a ver com as pedaladas fiscais.

Por fim, da maneira como a política brasileira se organiza, de acordo com as leis eleitorais brasileiras, nós não votamos em projetos. Votamos em pessoas. Eu compreendo que pessoas como você se sintam aviltadas com esta descoberta. Mas, perante a formação de uma chapa fisiológica, o resultado é que não há nenhum tipo de obrigação legal que atrele o governo ao projeto que prometeu.

Não estou fazendo pouco de sua revolta, muito pelo contrário. Eu a respeito e a compreendo.

Mas este é o meu ponto: se estão seguindo as regras, não adianta reclamar de como o jogo foi jogado. É preciso mexer nas regras. Este deveria ser o foco.

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