Esse tal Biscoito Globo, esse tal Brasil

O New York Times tem razão quando fala mal do país. E tem razão quando fala bem. É só ler com atenção.

David Segal é um excelente repórter. Faz uma coluna competente de defesa do consumidor no New York Times mas seus momentos mais ricos são aqueles em que decodifica culturas. Vai lá, vê as pessoas em seu próprio mundo, e o descreve para quem não é de lá. Funciona quando está no Brooklyn, funciona no Rio de Janeiro. Quem ouve o especialíssimo programa de rádio/podcast This American Life também conhece seu toque.

Sua reportagem sobre o Biscoito Globo não é sobre o Biscoito Globo. É sobre como cariocas se contentam com pouco em termos de comida.

Ele tem toda razão.

Segal pinça uma exceção: as excelentes casas de suco. Diz, também, que encontrar coisas especiais nos pés sujos do Rio é esforço para iniciados. Sem mapa, o estrangeiro está perdido. Ele também tem razão. Não lhe apresentaram, por exemplo, o sanduíche de pernil com abacaxi do Cervantes. Mas este sanduíche é exceção, não regra.

Os sushis são mesmo miúdos demais e, em geral, têm gosto de atum congelado. Os restaurantes a quilo são práticos e, convenhamos, uma praga. Mesmo a maioria dos restaurantes com pratos a partir de R$ 80 não têm nada de especial. São bons. Não justificam a noite de 300 reais para a família.

Busque um bom chope no Rio de Janeiro. É duro.

Isto não é Brasil. São Paulo é muito diferente. Salvador é diferente. Isso é Rio.

Roger Cohen, colunista da página Op-Ed, é um dos melhores nomes do Times. Sua coluna sobre o Brasil é diferente do artigo de Segal. Para começar, Cohen morou anos no Rio. E não escreve sorbe a cidade. Escreve sobre o país. Mostra o quanto avançamos dos anos 1980 para cá. E descreve, com precisão, como deixamos de ser a Belíndia de Edmar Bacha para nos transformarmos numa Franconésia. França com Indonésia. É uma imagem preciosa. Ela mostra o avanço real sem esconder que problemas ainda existem.

Não ter mais problemas de Índia não é pouco. Que a esperança de vida tenha saltado de 63.9 anos no fim da ditadura para 74.4 em 2014 é o número mais concreto que se pode dar. No Brasil, vive-se mais. Vive-se mais porque a taxa de sofrimento que o país impõe a seus cidadãos diminuiu.

Não é mérito de Dilma ou Lula, de FH ou Itamar, de Sarney ou Collor. Mérito da democracia que, como sistema, funciona de forma muito lenta. Mas funciona.

O Facebook ficou em pé de guerra porque o ‘New York Times’ não gostou de Biscoito Globo mas fez as pazes com o jornal quando ele reconheceu avanços. Ora. Quem não gostou de Biscoito Globo foi David Segal e quem reconheceu os avanços brasileiros foi Roger Cohen. As observações de um sobre comida no Rio e as de outro sobre economia e sociedade no Brasil cabem, juntas, dentro da mesma realidade. Não são incompatíveis uma com a outra.

E o papel de um jornal é exatamente este. Oferecer a seus leitores visões de que lugar é este no qual ocorre as Olimpíadas. Com o quilate de jornalistas que têm, o Times está fazendo um excelente trabalho.

(Como bom carioca, sigo gostando de biscoito Globo e mate de galão.)

O livro mais recente de Pedro Doria é ‘Tenentes, A Guerra Civil Brasileira’, sobre o movimento que deu origem à filosofia por trás do Golpe de 1964. Além de falar sobre tecnologia no Globo, Estadão e CBN, Pedro publica semanalmente uma newsletter sobre História do Brasil e seu impacto no presente. A assinatura, gratuita, pode ser feita aqui.

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