Éden Abrupto

Janeiro. O calor sertanejo deteriorava a sanidade dos cidadãos que ali habitavam, e Cícero, o herói desta história, também não poderia deixar de sofrer com a secura e os demais danos trazidos pelo verão atípico. Sua mãe, já perturbada pela rigorosa temperatura, agarrava com ainda mais ardor o pequeno crucifixo, e gotas caíam de seu rosto sobre o chão do barraco: transpirava, chorava. Ela consumira suas últimas energias ao pensar em como alimentaria o filho remanescente, que sobrevivera ao infortúnio de nascer em tal região desgraçada. O filho, Cícero, mal conseguia mover-se: seus doze anos de idade não correspondiam ao minúsculo corpo visível. Passava fome. Por dispor de uma estrutura corporal assaz debilitada, nunca pôde ajudar a mãe a fazer algum trocado e, mesmo quando a fome acentuava, a mulher não permitia que saísse a trabalhar, pois era ele o último dos filhos e não haveriam forças para manter-se viva caso ocorresse lástima ao pobre coitado: o amor maternal em sua pura essência. Pois, num súbito, agarrada à pequena cruz, a mulher derramou-se ao chão. O calor consumiu-a de tal forma que tudo sucedeu-se assim, e Cícero, recostado na parede oposta do precário lar, olhava-a desmaiada. O que poderia fazer um pequeno, sem forças e esfomeado, perante tal cena? O humano, porém, desde o menorzinho, possui dentro de si uma força enigmática, desconhecida às ciências, que guiou, guia, e guiará todos os passos desta nossa raça dotada de fé e esperanças, como um sonho de amor eterno que nos levita sobre o infinito violeta. Foi desta misteriosa que Cícero retirou energias: Colocou-se de pé sobre as perninhas fracas e desnutridas e andou para fora de casa, passo por passo, como quem reaprende a caminhar; o instinto compreendia que a progenitora precisava de assistência imediata. Deslocava-se em reta por não saber para onde ir. Ele precisava encontrar alguém com água até mesmo para oferecer! E sobre os ademais obstáculos, naquelas condições de saúde, a quentura do solo e a alta temperatura ambiente poderiam logo desvivê-lo. Pranteava sem derramar as lágrimas que não poderiam existir. Ele faria de tudo pela vida da mãezinha. Ainda havia o luto pela recente e dolorosa morte dos irmãos… O solo esquentou. Temendo o retorno ao inferno, correu. Correu freneticamente, desesperadamente, sob a força de uma enigmática que o sustentava de pé em tais circunstâncias.

Os minutos de caminhada sobre o solo quente tiveram, para os míseros pezinhos do garoto, a duração de uma eternidade, e aquela ardência tortuosa só teve fim quando Cícero avistou um galpão com uma vasta sombra. Descansava ali os pezinhos cozidos enquanto gritava por amparo aos que estavam do lado de dentro: nenhuma resposta. Seu desespero era tamanho que batia na porta de entrada do galpão com todo o restante de sua força, e ao pico da adrenalina chegou a fechar os olhos para certificar-se de que não estava em um pesadelo. Não haviam opções. Contou até trinta, levantou-se normalmente e continuou a rumar, ignorando, ou apenas desconhecendo, a situação de seus solados naturais. Deslocou-se durante horas por uma sorte de caminhos, desconsiderando os pontos de referência para o seu retorno. Em um ponto da jornada percebeu um gigantesco vão no caminho em sua frente e, próximo a este, parou de caminhar; seria impossível seguir em frente. Nada havia ali que conhecesse, não sabia qual caminho revolver a tomar e nem como voltar para casa. Sua frequência cardíaca elevou-se. Surgiu naquele instante um pássaro vindo do vão,voando alto em movimento zigue-zague. Em visão de tal vivacidade no calor do sertão, ele impressionara-se, e avançou na direção do penhasco com pueril interesse no que poderia haver ali. Em relação à visão contemplada pelo garoto, há um cômico paradoxo: Pois o que via-se lá em baixo, concluía o garoto, era como o celeste proferido algumas vezes pela sua mãezinha, enquanto que sua localização elevada, no sentido físico da palavra, mais parecia com a imagem da miséria infernal. Seu olho brilhava de deslumbre. Sua visão concebia uma floresta de árvores de mulungu, que era cortada por um rio cristalino, e este fluía na direção de uma colossal gruta de obscura abertura. As pétalas da flor de mulungu caíam gradualmente sobre o límpido rio que singelamente rumava até a passagem da gruta enigmática, sombria. Na paisagem concebida haviam, ademais, pequenos beija-flores voando por entre as árvores, tudo sob a escolta ocular do menino. Éden abrupto! Sua frequência cardíaca ali reduziria-se aos poucos não fosse pelo toque repentino que sentiu em suas costas feridas de sol, acordando-o daquela transe causado pela visão sublime. Cícero, com o toque sentido, virou, deparando-se com um homem nu, de pele esbranquiçada e cabelos curtos. O homem nu, que identificara-se como Alef, dialogou com o garoto e em seguida conduziu o menino nas costas para o rio lá embaixo, e num súbito lá estavam, beira-rio, saciando a sede no límpido e continuando a conversa. Alef apresentou-se como um morador daquela gruta e brevemente falou sobre os seus conterrâneos: homens e mulheres esbranquiçados, pequeninos e com pouca pelagem; todos moradores da gruta. Falou sobre o rio, sobre os beija-flores e ainda do calor que fazia na região, tudo isso enquanto Cícero saciava sem cerimônias a sua sede metendo o rosto dentro da água. Quando este já estava satisfeito, descansaram debaixo de uma das milhares de árvores da floresta de mulungu. Era a vez do menino contar a sua história: falou da pobreza sob qual vivia, da situação precária da mãe e da fome que passava em suas bandas mas que subitamente desaparecera ao beber daquela água. A situação precária da mãe! Até aquele momento estava delirante por conta da sede que sentia e do calor em suas costas, mas, ao lembrar da mãe, desesperou. levantou-se da árvore, choroso, e pensava numa forma de levar um pouco daquela água para casa. Porém não sabia nem o rumo de volta. Alef olhava, contente, o garoto em seu desespero. E súbito, quando Cícero revirou na direção do homem, lá estava o nu portando um crucifixo. Caminhou e entregou para o menino, alegando ser aquele o crucifixo portado por sua mãe antes de derramar-se ao chão do barraco. Alef sorria e, apontando para a gruta, pedia para que o garoto seguisse-o, que tudo seria explicado quando perpassassem a escuridão da entrada. A coloração da água lembrava o garoto dos claros olhos ingênuos da mãezinha.


No trecho inicial, até acostumarem-se com a escuridão da gruta, andaram colados, para que o garoto não tropeçasse em alguma pedra ou simplesmente tombasse no rio. Alef, mesmo no escuro, conhecia cada pedregulho ao chão. Caminhavam sem trocar palavra até que um som de gaita de fole começou a ascender. E já era também visível a ascensão da luz do lado de dentro. Cícero estava amedrontado e incrédulo. O som bem mais parecia um prelúdio de entrada ao novo mundo. Tremia-se por inteiro enquanto apertava os braços do homem ao lado. E ficara estarrecido ao distinguir o que havia quando a luz tomou conta de sua visão. As casinhas eram enxaimel, banhadas a ouro. Localizavam-se elas ao lado oposto do rio, que fluía agora à esquerda dos dois. Atrás das casas haviam árvores podadas aos moldes natalinos com enfeites dourados. No lado de fora das habitações haviam garotos nus, esbranquiçados e de cabelos curtos, correndo uns atrás dos outros com um sininho dourado, do som agudo, em mãos. Também haviam menininhas que formavam um círculo, sentadas, nuas e de cabelos curtos, e no meio havia um senhor barbudo lendo um pequeno livro dourado. A cada minuto o velhote levantava com uma gigante sacola vermelha e piruetava, arrancando gargalhadas das pequenas mocinhas. Daquele lado haviam, ao máximo, trinta crianças. O corpo de Cícero, ao olhar aquela cena, amoleceu. O menino radiava encantamento com a situação vista, estava claro que gostaria de estar lá, brincando e divertindo-se com as crianças. Do lado de cá do caminho haviam cerca de sessenta pessoas, todas ajoelhadas, nuas, orando, em silêncio. Cícero não notara-as ao clarear do ambiente, espantou-se, inclusive, ao ver que estavam todas chorando em silêncio. Uma luz suave e ampla era expelida das profundezas do rio, alcançando a cobertura da gruta, aumentando ainda mais a claridade do local. E acolá havia uma majestosa torre, mas sua distância era remota e o garoto não distinguia com precisão o que mais poderia haver em distâncias longínquas. Era uma gruta vasta, confortável, sublime. Alef, triunfante, deu-lhe as boas vindas ao ‘outro lado’, e envolvendo os braços no garoto, atravessou com ele a ponte que cruzava o rio; andaram para dentro de uma das casinhas. Sentaram em pequenas cadeiras de madeira, revestidas em ouro. O homem nu estava sério, de pose ereta, olhando nos claros olhos do menino. De dentro da casinha ouvia-se apenas o correr do rio. O clima era pesado, e o garoto sentira-se ameaçado pela primeira vez. Alef abriu a boca: o peso do silêncio seria quebrado tal como o raio golpeava a árvore:

-Escuta, Cícero. Quando estavas debilitado, naquele penhasco, ao rachar do sol e árvores secas por todos os lados, o que passava pela tua cabeça? Em algum momento pensaste que seria o fim de tudo? Dalguma forma atravessaste a entrada que conduz o homem a este mundo que estás a ver. Pois os que conseguem vislumbrar o éden são os proclamados. És o nosso proclamado, estava tudo proferido. Todos os seus desejos deverão ser realizados. Nestas terras, Cícero, há uma princesa de verdade. Ela é pueril, seus olhos são verdes como oliva e a pele é morena como a tua. Saberás ao vê-la, pois é a habitante única da torre acolá. Viste a torre? Bem. A princesa poderá resgatar a tua mãe do findo, mas precisas ir desacompanhado, pois és o proclamado. Por que? Cícero, somente seres puros como tu adentram o reino do impenetrável. Somos meros lacaios das terras cá, e nem mesmo podemos contatá-la diretamente. É por isso que precisas adentrar a ilha com esta carta e entregá-la. És a nossa sorte secular. Há muito que não aparecem proclamados cá. Esta carta é muito importante, Cícero. Entregue-a e faça suas súplicas à grande provedora de nossas terras. Esta carta contém a mais importante das informações, é sigilosa e pode alterar a vida de todos os homens. Precisávamos de um proclamado! Estás aqui!

Da janela da casa, o homem nu apontava para a torre, situada no meio da praia a beira-rio. Uma praia e uma torre dentro da gruta.

-Faça isso por tua mãe, pois é tua chance.

Um momento de silêncio. Cícero não sabia como digerir as informações que acabara de receber. Num impulso emocional, Alef continuou.

- Deus disse-me que eu saberia. Quando estava a desesperar-me eis que noto sua aura nestas terras. Bem que ele disse-me: tu saberás! Escuta bem: não deixe-a cair ao rio. Chegando lá a princesa acolherá-te. Teu objeto de locomoção até a torre? Bem…

Alef, saindo da casa, assobiou para o velhinho barbudo. Ele já entendera: Com uma picareta, pois era o que havia, o velho arrancou em quinze ou trinta golpes uma das árvores de natal do solo. As crianças pulavam e gritavam de júbilo ao ver o bom velhinho usando toda a sua força. O garoto, completamente amedrontado, chorava ao crucifixo de sua mãe. Limpara as lágrimas rapidamente quando Alef reapareceu, triunfante. Se passaram trinta minutos até o magro garoto ajeitar-se em cima da árvore natalina, que boiava bem. A correnteza levava-o sutilmente. Numa mão, o crucifixo; na outra, a carta. Atrás, as criancinhas, o senhor barbudo e Alef. Todos acenavam em regozijo e esperanças. O silêncio reinou.


Para distrair-se da fome, que gradativamente retornava, o menino assobiava enquanto tentava assimilar toda a jornada até ali vivida. Sua cabeça doía. Ao recapitular mentalmente os últimos momentos vividos até ali, relembrou que não sabia o conteúdo daquela carta ou o porquê de ser tão importante. Numa imprudente curiosidade pueril, abriu-a, com muita cautela. Batendo o olho sobre o conteúdo escrito e as estruturas que ali se encaixavam, relembrou que nem ao menos aprendera a ler. Sentiu uma súbita saudades da mãe e começou a chorar. A fome apertava cada vez mais. Chegara na praia. Levantou-se da árvore e olhou em direção à torre: nenhuma vivalma para recebê-lo. Desesperou-se, internamente. Súbito o estômago vazio embrulhou-se com força: seus braços formigaram, a visão falhava e a dor de cabeça evoluíra para agudas acentuadas constantes. A perna começara a tremer. Olhava para a janela da torre: nada. Mas o humano, desde o menorzinho, possui uma força irredutível, talvez divina, dentro de si, mesmo sem o saber. E foi desta misteriosa que Cícero retirou as forças para continuar caminhando até o portão da torre, tamanha era a sua obstinação para ajudar a mãe o mais rápido possível. Porém não haviam mais energias para alimentar aqueles passos largos até o portão. Crucifixo e carta caíram num só sentido. Já inerte no chão da praia, sem energias sequer para ficar sentado, acompanhava apenas com os olhos aquela movimentação súbita em sua direção. Percebera que era uma mulher nua, morena e com uma pele escamosa tal como a cobra. Nada como vira antes. Era árduo manter a respiração, que já dava sinais de falência. A movimentação em sua direção cessou, e de repente seu corpo fora agarrado. Não conseguia ouvir mais nada por conta da dor aguda na cabeça. A mulher sacudia-o cuidadosamente e estava com um semblante desesperador e cheio de lágrimas. Seria esta, então, a tal princesa? Ponderava sozinho, em sua própria cabeça. Como era bela! Mas Cícero, inerte, não podia reagir aos sentimentos exasperados da mulher. Ela apertou com extrema doçura o corpo do menino, e beijos agradecidos, de alívio, foram deferidos em seu rostinho. Uma lágrima de princesa agarrou-se nas proximidades dos lábios do garoto, e este, então, com dores deveras, fechara os olhinhos.


Despertara. Sentia um calor excepcional. O corpo estava tão debilitado que não conseguia movê-lo, e a visão estava enfraquecida. A verdade é que, ali, carecia das necessidades mais básicas à vida. Com radical esforço, conseguiu levantar a cabeça e recobrar um pouco da consciência. Reconheceu o ambiente ao seu redor: sua mãe derramada ao chão, aparentemente sem sinais vitais; um crucifixo, um barraco: lar. Estava sob o calor infernal, como outrora. Não conseguia chamar a mãezinha nem levantar o próprio corpo para examiná-la ao máximo realizável em suas capacidades. A potencialidade de seus pensamentos estava agora encarcerada num corpo disfuncional. Nada podia fazer, estava tão desidratado que não haviam lágrimas para derramar por sua mãe jazida. Porém lembrou-se da recente experiência na gruta, com Alef e os outros nus… Teria sido um delírio? Não saberia responder. Mas, após sentir algo escorrer suave e lentamente pela beirada de seus lábios, verificou com uma passada de língua, seu único membro funcional naquele momento, que era um líquido salgado, suave, que escorria pelo seu rosto. Lágrima. Aquela sensação fez Cícero sorrir, pois poderia apostar que eram lágrimas de princesa. Saboreou o líquido aquoso. A música da gaita de fole novamente aproximava-se.

Fechou os olhos.

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