A cidade fantasmagórica

O telefone de Salvador Dalí

Os lábios um pouquinho abertos. Quem chegasse bem perto, poderia sentir um hálito gostoso, algo entre menta e tutti frutti. Arnoldo deitado ao lado dela, sente esse hálito, mas está inconsciente, é afetado inconscientemente pelo maravilhoso hálito que sai da boca de sua esposa Betânia. Do caminho que vai da boca de Betânia até os sonhos de Arnoldo entraríamos pelo nariz na direção da cabeça, mas algo aconteceria no meio do caminho, seríamos guiados para uma área de maior atividade física. Arnoldo almoçou mal. Uma comida pesada. Teria sido o bolo de carne? O tutu também não estava legal.

Arnoldo almoçou mal e sonha mal também. Nem é só um pesadelo, o corpo gira por dentro. Betânia acorda e reclama.

Arnoldo levanta sem saber em que andar parou o elevador. De pé ao lado da cama, recebe a brisa da praia e se dá conta de que está em casa, o mal-estar era a mistura de sonho mal sonhado com almoço triturado, só isso.

Arnoldo olha para Betânia, vai num beijo. O corpo gira, o mundo gira, mas é melhor agarrar Betânia.

– Que é isso, Arnoldo?– Betânia reage.

Arnoldo tenta lembrar aonde almoçou.

– Betânia…– ele suspira e esquece, senta na beira da cama, pega um cigarro na cabeceira, acende.

Betânia sai do quarto, meio chateada. Arnoldo fuma e pensa em parar de beber e de comer tanto. Betânia volta com um copo de leite. Pega o travesseiro para abanar o fedor. Sim, Arnoldo tinha arrotado.

As cinzas do cigarro de Arnoldo caem no lençol. Betânia bate o lençol no ar e deita na cama. Arnoldo apaga o cigarro. Betânia solta um gemido fino. Arnoldo sabe o que isso significa. Arnoldo morde o pescoço de Betânia. Betânia empurra. Arnoldo agarra. Um telefone toca. Um telefone toca. Um telefone toca?

– De quem é?

– Não é o meu — diz Betânia.

Arnoldo coça a cabeça.

– Esse toque não é o meu. Cadê a porra do meu celular? — resmunga Arnoldo.

Ele levanta. Caminha ao redor da cama olhando para o chão a procura da roupa que vestiu. A calça jogada em cima de uma poltrona. Arnoldo vai nos bolsos, pega o celular. O aparelho desligado.

O telefone continua a tocar no quarto.

Betânia olhando para a telinha do seu telefone. Nada. Ela fica apertando o botão vermelho de desligar, mas o telefone já está desligado. Ela ainda escuta um telefone tocando.

– Que telefone é esse tocando, Arnoldo?

– Não sei. Também não importa.

Arnoldo deita na cama.

– Como assim, não importa? Alguém está aqui, Arnoldo! — Betânia se esconde debaixo dos lençóis.

O telefone continua a tocar. Arnoldo sente um frio na espinha. Não é legal ser forçado a ter coragem.

– Arnoldo, faça alguma coisa — cochicha Betânia.

Arnoldo contrai a barriga. O telefone pára de tocar.

Arnoldo respira aliviado.

Betânia levanta da cama e caminha até a porta do quarto.

Arnoldo aprecia o corpo de Betânia. Levanta e vai seguindo ela até a porta. Ela olha para o escuro da sala e da cozinha. Arnoldo morde a orelha de Betânia de surpresa. Ela pula assustada.

– Pára, Arnoldo! É sério, você ouviu o telefone e o som vinha de perto. Que porra é essa, Arnoldo?

Arnoldo, com vontade de agarrar Betânia, toma coragem e vai até a sala. Liga a luz. E não tem ninguém. Vai até a cozinha e não tem ninguém. Volta para o quarto, olha com rosto de macho para Betânia e afirma:

– Não é nada, meu amor. Vamos deitar, ok?

Com o sangue migrando, revolvendo o corpo, Betânia e Arnoldo deitam-se abraçados. Arnoldo beija Betânia. Betânia acaricia o cabelo de Arnoldo, mas de vez em quando olha para a porta. O telefone toca.

Betânia pula da cama.

– Que merda é essa, Arnoldo?

– Eu não sei!

Arnoldo corre até a janela. Mansões mortas. Postes. A praia. O calçadão abandonado. Os coqueiros caídos, a madeira podre. O som suave das ondas.

Betânia caminha guiada pelo som do celular, aos poucos, aproximando-se de Arnoldo.

– Arnoldo…

– Sim?

– Arnoldo, o som vem de você.

Arnoldo fica em silêncio e escuta. Põe a mão na barriga, gira a cabeça e capta a ressonância do toque saindo de dentro do próprio corpo.

– Deita, Arnoldo.

– Eu não vou deitar.

– Deita. Tem alguma coisa dentro de você. Deita.

Arnoldo deita na cama e concentra-se na luz do abajur, na foto de Betânia na cabeceira. Betânia coloca as mãos na barriga de Arnoldo e aproxima o ouvido. O volume do celular aumenta e pára.

Betânia afasta-se de Arnoldo, aterrorizada, as mãos escondem a boca. Olhos em choque, siderados.

– Eu não sei, vem de dentro de você.

Arnoldo corre até o banheiro, sua frio, senta na privada.

Betânia espera na porta roendo as unhas.

Na sala de espera da urgência do hospital da Restauração, Arnoldo olha para uma enfermeira que masca tampas de caneta. Arnoldo vai falar. O telefone toca. A enfermeira olha para Arnoldo. Duas velhinhas sentadas no sofá também olham para Arnoldo. Arnoldo baixa o rosto. A enfermeira puxa o telefone. Arnoldo entra na sala do médico. Doutor Rosenblitz termina de lavar as mãos.

– Sente-se.

– O senhor está ouvindo esse celular?

– Sim. Sente-se.

– Eu tenho celulares tocando dentro de mim.

– Há quanto tempo toca?

– Tocou hoje.

– E quando é que toca?

– Eu não sei.

Doutor Rosenblitz abre a gaveta e retira um estetoscópio.

– Respire fundo.

O médico encosta o estetoscópio gelado no tronco de Arnoldo. Respire fundo.

Arnoldo não respira direito. Doutor Rosenblitz apalpa a barriga de Arnoldo.

– Sim, é um celular. E está vibrando também.

Arnoldo olha esquisito para o doutor, esperava um outro diagnóstico, mesmo sabendo que era um celular tocando dentro dele, e vibrando, sentia tudo isso com a clareza de quem olha para a morte. Mesmo assim, esperava uma resposta mais prolixa do médico. No mínimo, algumas palavras técnicas para amenizar a triste realidade dos fatos.

Doutor Rozenblitz, subitamente, sem qualquer aviso, acerta um soco potente no abdômen de Arnoldo.

– Huh! — Arnoldo agarra a barriga.

O telefone pára de tocar.

Doutor Rosenblitz volta para a poltrona. Arnoldo curvado, sofre com o resultado do golpe.

– Eu preciso de um raio-X.

– É grave? — Arnoldo mal consegue falar por entre os dentes trincados.

– Sim, é grave.

Betânia não sabe o que dizer. A enfermeira pede que Arnoldo tome banho. Arnoldo quer chorar.

Uma maca. Arnoldo olha para o teto. Quer chorar de novo. Betânia segura a mão de Arnoldo. Betania beija Arnoldo na entrada do bloco cirúrgico.

Arnoldo treme no centro de luzes e equipamentos metálicos. O rosto do Doutor Rosenblitz tenta sorrir. Arnoldo tenta sorrir. Uma agulha perfura a veia de Arnoldo e ele sonha com Betânia e cobras cascavéis, um deserto, casas pegando fogo. O telefone toca.

Doutor Rosenblitz e sua equipe movimentam-se em sincronia, ritmados, comunicam-se por olhares, passando bisturis, manipulando artérias, cortando carne. O telefone pára de tocar.

– Merda — diz o doutor.

Rozenblitz abre o estômago de Arnoldo. O telefone toca novamente. O cirurgião lentamente extrai da barriga de Arnoldo um aparelho celular banhado em sangue. Doutor Rosenblitz atende.

– Alou… Alou… Quem fala?

Ninguém responde.

Até que…

– Fernando? É você? — Uma voz feminina.

– Alice? — Rosenblitz afasta-se do resto da equipe, caminhando para um canto da sala — O que você está fazendo ligando para esse telefone?

– Eu precisava falar com você.

– Não é uma boa hora. Quem lhe deu esse número?

– Mas, Fernando…

– Eu te ligo quando sair.

Doutor Rozenblitz desliga o telefone. O coração de Arnoldo pára de bater. O som da brisa nas palhas dos coqueiros na beira-mar, o som das ondas quebrando na areia. O médico e sua equipe correm para fechar o corte, estancar o sangue e jogar uma eletricidade no corpo de Arnoldo. O corpo pula. A máquina dança. O berço samba. Até que Doutor Rosenblitz e sua equipe, de pé, ao lado do cadáver, estáticos e apopléticos com o incidente, pensam. Pensam, pensam e pensam. Doutor Rozenblitz é o primeiro a sair da sala, jogando as luvas meladas de sangue no lixo, abrindo portas, caminhando apressado por corredores vazios, o som dos sapatos, toc, toc, toc, toc.

Bate a porta com força, liga o carro, o silêncio do motor, só uma leve vibração. O rádio liga automaticamente na estação de notícias. Do hospital, Rozenblitz mergulha em ruas desertas. Por que Alice telefonava para aquele número? A pergunta circulava o pensamento como um mantra, e numa meditação indesejada, Rozenblitz flutua sobre o asfalto em alta velocidade. Só o silêncio do motor, a vibração do concreto, o bafinho do ar condicionado, aroma de menta e tutti fruti de um dispotivo pendurado nas ventanas. Rozenblitz lembra de respirar, puxa fundo aquele maravilhoso odor e suavemente pressiona o acelerador. O carro levita e transcende os limites da cidade. Na estrada que corta um extenso canavial, Doutor Rozenblitz tenta lembrar o que almoçou, escuta o som das ondas do mar em sua memória, as ondas inicialmente calmas e progressivamente mais violentas. Um carro segue o carro de Rozenblitz, bem de perto. Rozenblitz concentra-se na imagem dos faróis refletidos no espelho retrovisor. O impacto das ondas aumenta em sua memória. Durante o resto da estrada esse carro segue Rozenblitz, dois veículos numa só cadência flutuam pelo asfalto e depois pela estrada de barro que leva até a morada de Rozenblitz. Parado em frente ao portão de madeira que dá acesso ao seu sítio na praia, as luzes do carro que o persegue continuam fixas no retrovisor, os faróis vibram no ritmo suave do motor. O coração de Rozenblitz também vibra, só que na cadência de uma lembrança da tempestade.