Uma conversa com Rodolfo Mesquita

Pintura de Rodolfo Mesquita

Em algum dia do ano de 2008, eu estive com o desenhista e pintor Rodolfo Mesquita em seu atelier na Rua 48.

Pedro Severien — Você pode dizer o seu nome completo, por favor?

Rodolfo Mesquita — A ficha? Rodolfo Mesquita do Nascimento. O ano? 1952. Recife.

PS — Por que você passou a assinar os trabalhos apenas como R.M.?

RM — Em 1976, mais ou menos, eu cheguei por um processo de trabalho. Eu não assinava mais porque era uma maneira de eu afirmar a obra. Eu achava, e continuo achando, que a obra é mais importante que o autor. O fetiche do autor, do artista, só serve para alimentar o narcisismo desses indivíduos. Depois eu vi que era besteira, de qualquer forma alguém fez. Eu ia ter que me identificar. Aí é uma rubrica. Não é nem assinatura, é uma marca para identificar. Eu não estou me escondendo. E acho que o problema não é mostrar ou se esconder. Nem eu estou me escondendo nem eu estou procurando divulgacão. Existe essa cultura que a gente vê na mídia, é como se forçasse todo produto cultural a ficar buscando a exposicão não importa como. Isso é uma deformação.

PS — Mas há uma dimensão meio mitificante no fato de não assinar, cria-se um mistério…

RM — Você falando parece pseudônimo. Mas é uma rubrica. Eu faço um desenho, é obra única, mas se fosse gravura vem a repetição… É uma rubrica. Esses artistas antigos botavam uma marcazinha, um logotipozinho. Mas não era pseudônimo, não estou me escondendo. Agora eu acho que quem vê, sabe. E quem não sabe fica curioso e se informa. E quem não quiser saber, a grande maioria, não faz diferença. Se um cara vê um desenho não é obrigado a saber quem fez. Nesse caso, isso teve o efeito contrário, porque isso despertou sua curiosidade, se eu pretendia não dar destaque ao autor, que eu acho indevido… Porque boa parte do que a gente vê aí é puro narcisismo, os artistas fazem isso o tempo todo. Em música, em tudo… E isso tem um lado meio ridículo, não é verdade? Mesmo pra um cantor, mesmo pra um ator… Se o cara tá cantando ali, ele tá cantando porque aquela voz tem um significado. As pessoas olharem ele e dizer: “Olha como ele é bonito cantando”… Isso é horrível.

PS — Em vários quadros ou em desenhos de uma determinada fase, você usava muito texto, a palavra no desenho. Em trabalhos mais recentes você deixou de usar o texto. Por quê?

RM — Isso é um processo, tem muitas coisas. Eu usava o texto como um comentário do desenho, mas não só um comentário, era uma maneira também de desmistificar a estrutura do desenho. Para as pessoas não ficarem apenas contemplando a beleza, eu fazia um desenho mais ou menos bonito e um texto bem horrível. Para provocar. Botava inclusive onomatopéia, qualquer coisa. Mas depois comecei a fazer citações, eu não escrevia mais, era texto… Aí eu percebi que tinha um negócio que era como se fosse a moral, a minha moral, que eu queria passar pro desenho. Um negócio meio didático até, como se dissesse “olha, esse desenho quer dizer isso”. Uma coisa meio primitiva. E também porque a maioria das pessoas não lê. Era inútil. Se eu botasse receita de bolo dava no mesmo. Se eu falo ninguém ouve ou ouve e deforma… Ficar preocupado com os desenhos, ficar mandando recadinho… No fundo era um negócio como se fosse uma mensagem. E a mensagem já é o desenho, não é? E também gente estúpida chegava pra mim e dizia “eu gosto muito do que você escreve nos desenhos”. Aí eu comecei a reagir. Mas foi um processo demorado… Mas não deixei de escrever, a qualquer momento é um negócio que faz parte do meu repertório, eu posso usar. Mas além do mais eu estou fazendo mais pintura ultimamente. O desenho é um registro mais rápido que a pintura.

PS — Tem certos personagens que são recorrentes nos seus desenhos. Apesar de mudanças de características, tem perfis que parecem que são recorrentes nos seus desenhos e nas pinturas também. Quem são esses personagens?

RM — Os meus desenhos começaram, na verdade, com intenção de caricatura, ridicularizar o povo. Porque me desagradava o jeito como as pessoas eram e era uma arma que eu descobri que o desenho podia ser. Aí eu focava no ridículo, genericamente, seria da autoridade. Policia, politico… Fazia muitos caras com paletó. Os grotescos. Eram os caretas. Aí isso com o tempo foi fazendo mais ou menos um tipo que é recorrente. Ainda hoje eu uso, sem pensar muito. Mas de certa forma é o grotesco humano, a feiura humana. Que é feio pra caramba… a forma como as pessoas são, as coisas que as pessoas gostam. Então era uma maneira de eu sem chegar e simplesmente dizer que era desenho de denúncia social, eu acho que isso é uma redução, entendeu? Porque é um negócio existencial mesmo. A vida humana é jogo duro. Mas é engraçado, tem tragédia e tem comédia. Fazer coisa engraçada é até mais difícil.

PS — Você nem sempre procura o grotesco na referência, procura o belo também.

RM — A beleza existe, né? E aparece de alguma forma. Surge. Eu acho que mesmo um quadro horrível que represente o inferno, pode ser bonito pra caramba. Na verdade, o bonito é o fazer. Um cara que botou na cabeça e pintou um puta quadro. Esse trabalho de invenção de construção isso é bonito por si só, mesmo que o cara represente coisas horríveis. Agora ficar representando a ideia de beleza que o filisteu tem… é kitsch. O que eles acham belo é a cafonice. É como se você tivesse que descascar o negócio pra achar alguma beleza. E acha, né?

PS — Mas isso nos teus desenhos e …

RM — E na vida também… Porque você acha, né? Na verdade, eu desenho por prazer. Eu gosto. Não é uma coisa sofrida nem obrigatória. Na hora é prazeroso. E isso é bom por si só. Se eu fizesse um negócio inócuo, decorativo, ou querendo agradar as pessoas iria ser horrível. A televisão a toda hora quer agradar as pessoas. É isso. Então, tem uns caras que teorizam que hoje, contemporaneamente, toda arte que tiver algo de importante tem que ser horrível para dar a dimensão real da coisa.

PS — Você trabalha dentro desse conceito que sua arte tem que ser horrível?

RM — Não. Mas ela não é só horrível, ela é bonita também. Se você ver um desenho, o desenho tá bom, tá legal, é bonito. Mesmo que seja um torturador… Mas o cara conseguiu representar isso, eficazmente, isso tem uma beleza por si só. Isso seria o triunfo do artista, entendeu? Mas nunca se sabe se vai conseguir. Se não você chega e diz “vou fazer um filme bonito”, vai sair kitsch, cafona. Você vai ficar procurando uma beleza que é um clichê.

PS — Dentro dessa ideia de belo e de horrível você usa também recorrentemente mulheres nos desenhos… Essas mulheres que você desenha, elas têm uma referência no mundo real, no que você vê? Você enxerga as mulheres da forma que você as desenha ou elas são transformadas naquele tipo de desenho?

RM — Virou um desenho, já é uma abstração, um traço. Não deixa de ser uma idealização. E também uma caricatura. É como se a cada uma a sua cota. Mas é uma recorrência, sempre aparece. É feito no cinema. Cinema tem que ter mulher pelada. Aí eu coloco. É uma espécie de cinismo.

PS — E as figuras humanas em geral estão sugerindo movimentos nos desenhos, é como se você estivesse capturando um instante. Fotografia é uma das fontes de referência, correto?

RM — Sempre foi. Para todo mundo, eu acho. Fotografia, cinema… E os desenhos são meio narrativos. E fotografia eu pego muitas vezes porque eu quero fazer uma figura. Eu pego uma foto qualquer e trabalho em cima. E na verdade o desenho do fim não tem nada a ver, a foto foi apenas o ponto de partida. Às vezes para pegar uma posição, um gesto.

PS — E o gesto muitas vezes tem uma distorção.

RM — Eu acho que toda pintura, desenho já é uma distorção. Não é nunca tal e qual. O cara pode idealizar, embelezar, tentar fazer neutro, ou pode enfeiar, mas é uma deformação, nunca é tal e qual. Além de ser uma coisa que bem ou mal sempre sai, eu queira ou não queira, sempre vai sair… Aquilo é a maneira como eu vejo. Eu não posso dizer que foi sem querer. No máximo posso dizer que foi inconsciente, mas não posso dizer que foi por acaso.

PS — Você tem alguma vontade, ao desenhar dessa forma, de interferir na realidade? Ou seja, naqueles desenhos você sente um desejo de mudança…

Rm — Sim, porque de certa forma toda arte é uma impotência, né? O cara não pode fazer nada então vai fazer arte. É uma coisa que não é uma ação. No pior dos casos, vira uma enrolação. O cara fica fazendo aquele negócio e enrolando.

PS — E os homens? Tem uma classificação também. A autoridade, o soldado…

RM — Genericamente seria isso, mas não é só isso. Eu faço uma espécie de nerd, uns caras com uma cara imbecil. Hoje em dia tô procurando fazer umas figuras com a cara neutra, se possível sem expressão. Evitando a caricatura explícita. A coisa surge por si só.

PS — Mas quando você coloca um personagem com uma expressão vazia ele também diz algo…

RM — Eu fiz muito soldado. Muito polícia, muita arma. Eu representava muito isso, a violência. Tinha o negócio da época, a ditadura.

PS — Você acha que esses personagens, mesmo os desenhados hoje, são de uma outra época? Que eles remetem a uma outra época? A própria forma como eles estão vestidos. O burocrata, por exemplo…

RM — Como eu disse, eu desenhava muita gente de paletó, mas enjoei, sabe? Hoje em dia eu desenho muita gente com camisa social, com gola. Eu acho que eu me inspiro em mim mesmo. Acho mais expressivo pra desenhar do que desenhar uma camiseta. Às vezes quero desenhar um maloqueiro, coloco um cara sem camisa. É uma encenação. Tem os objetos de cena, uns que eu uso, repete. Mas hoje em dia tô evitando isso, porque de certa forma isso vira um estímulo. De certa forma é fácil, o cara pega um macete e fica repetindo, é o estilo do cara.

PS — Você não se apega a um estilo?

RM — O estilo é inventado na obra. A obra não deve se encaixar num estilo pré-existente. Se a obra for forte o estilo é ela. Mas isso é muito difícil. Você tem um macete, tem umas recorrências que você sempre usa… Eu tava falando, eu enjoei de desenhar paletó e comecei a desenhar camisa social. Queria descobrir outro jeito de vestir as figuras. E também eu acho que uma das coisas que a gente mais vê é pano, mesmo na praia. É pano pra caramba. Todo mundo com um pano na frente. Como é que você representa isso? Isso é um probleminha. O cara tende a não fazer uma coisa estereotipada. Como o cartoon. O cartoon é clichê, repete aquilo… A função dele é repetir pra o público já se identificar de antemão. Um desenho bom mesmo ele seria inventado ali na obra. Mas se eu desenho há quarenta anos repete, né? Fatalmente. Não tem jeito, não tem como escapar.

PS — Você falou em cenas. Que cenas você poderia citar? Que são mais recorrentes?

RM — A grosso modo seria a de uma figura oprimindo a outra de alguma forma. Na porrada, arma… Uma tensão, uma oprimindo a outra. Mas isso é muito genérico, só se a gente olhasse caso a caso. Mas em geral é isso, é como se fosse uma tensão entre as figuras. Ultimamente eu faço muita figura sem fazer nada, parada como se fosse foto de documento. É uma maneira de procurar uma espécie de neutralidade. Mas em geral eu fazia o pega pra capar, as figuras se engalfinhando. É mais ou menos isso, a representação da algaravia humana. Eu queria achar as coisas bonitas, aí você tem que descascar até achar o miolo.

PS — E nesse descascar, você às vezes no desenho até da fase mais antiga tem uma sujeira em cima. Uma cor que vai em cima do preto e branco…

RM — Eu só usava preto e branco, às vezes usava vermelho. O vermelho é uma maneira de sublinhar, por denotar mesmo violência. Mas a sujeira faz parte. Quer dizer, eu procuro não fazer sujo, mas o sujo entra. Faz parte.

PS — Até na cor quando você usa, raramente a cor é homogênea. Por exemplo no cenário, ou na própria pele, ela tem mudanças, tem nuances. Isso tem a ver com essa vontade de descascar o real, ou de decalcar os personagens?

RM — O desenho, como toda arte, é uma convenção. Na música, você vai ter as notas. É uma convenção as sete notas, pra você fazer tem que partir dela. Então se for buscar um desenho, que diabo é desenho? É linha, né? Linha e ponto. É uma coisa puramente abstrata. Se você borra, se cai tinta e você deixa é como, de alguma forma, a intromissão do real naquela abstração. Mas não pode ser por acaso, é manipulado. E eu acho que tem obra de arte que não deixa vestígios da feitura, e tem obra que deixa descoberto como o cara fez a estrutura. Isso não quer dizer que uma seja melhor do que a outra.

PS — Falando do real, nesses momentos que você retrata, o que existe de improviso? E o que tem de manipulação do real para algo que você queira dizer?

RM — De certa forma todo desenho é improvisado, a não ser o próprio desenho. Eu pego, fico com vontade de desenhar, me sento, canalizo aquele negócio. Na medida que vou fazendo as figuras de certa forma uma determina a outra. Hoje em dia eu tento improvisar menos porque acho que pode ficar mais conciso e mais forte o resultado. Às vezes dá certo, ótimo. Às vezes não dá certo, aí eu rasgo jogo fora e faço outro. Às vezes encaixa, uma figura vai encaixando na outra. Quer dizer, de certa forma é tudo improvisado, só não é improvisado o próprio desenho. Mais ou menos hora marcada pra desenhar, mas o que vai sair, sabe? Às vezes eu digo, vou fazer tal coisa e sai outra completamente diferente. A única coisa que era mesmo era a vontade de fazer. E às vezes o cara tá a fim de desenhar, mas tá sem nenhuma ideia, aí o recurso é desenhar a falta de assunto. A figura sem fazer nada. Mas o negócio fica mais animado com as figuras agindo, fazendo alguma coisa. Aí eu faço o cenário…

PS — E esse cenário recorrentemente é interno, não é? Um lugar dentro de um lugar. Um lugar fechado. Que lugares são esses?

RM — É uma convenção pra mim mesmo. Eu faço as figura e faço uma espécie de perspectiva bem tosca. Umas linhas dando uma noção de profundidade. É uma convenção como se fosse um quadro fixo e as figuras são moles. E geralmente elas viram um cenário mesmo, uma sala. Desenhar paisagem, ambiente exterior aí já é outros quinhentos.

PS — Você nunca se interessou pela paisagem?

RM — Para olhar sim. Pra fazer, às vezes. Mas eu sou fixado na face humana. Os humanos que… [risos]

PS — Na construção de um cenário que tem personagens dentro, você raramente trabalha a luz, o claro e escuro, sombra e tal. Por quê?

RM — Meus desenhos são meio chapados. Preto no branco. Hoje em dia eu tô procurando fazer mais nuançado, mais pintado. Mas eles são realmente grafismos. Preto no branco. Saca as gravuras japonesas? É a linha, né? Mesmo quando é muito colorido o que determina é a linha. O meu negócio é a linha. Eu não sei desenhar sem a linha. Fazendo pontinho, sombra, um negócio enevoado… É a linha mesmo. É como se eu quisesse que o desenho fosse uma evidência. Se eu represento uma figura humana ,ele tem que ter mão e tudo. Não há o que discutir. É uma evidência. E o risco é ficar realmente uma coisa muito chapada. Como o desenho de publicidade, de cartoon. Ao mesmo tempo um desenho neo artístico, um desenho neutro, um cara desenha um objeto o mais claro possível, eu acho isso bom. O cara começa a botar macete artístico, eu já acho artístico demais.

PS — Você tem uma influência da mídia, de jornal, televisão, cinema. Qual a leitura que você faz? Você vê muita televisão, ou você está sempre com o jornal? Você vai ao cinema?

RM — Cinema, fotografia, jornal, rádio, televisão… Esses negócios todos. Isso é invasivo, né? Invade a vida de qualquer um. E de uma maneira ou de outra reflito isso, filtro. Tento usar isso. Mas talvez o mais presente seja a fotografia. E cinema. Hoje eu perdi um bocado do interesse por cinema, eu acho devido à TV. E hoje tá pior, todo mundo com uma câmera no bolso. Uma saturação de imagem tremenda. Porque de certa forma são clichês os desenhos, as figuras são clichês, deformadas. É como se eu fizesse uma leitura do enorme clichê da vida.

PS — E o que é esse clichê? Quais são as vertentes?

RM — A gente pode ver caso por caso, mas assim fica muito genérico…

Rodolfo lê a lista de perguntas que eu havia organizado e deixado em cima da mesa.

RM — Você coloca aqui “A luz é um problema. Nos seus desenhos parece haver pouco uso da luz. Por quê?” Você vê os desenhos antigos, tem muito mais branco do que preto, tinta. A luz é o branco. Porque inclusive os desenhos são vasados, recortados e vasados.

RM em leitura e reflexão.

PS — E aí, não tem mais nenhuma pergunta que lhe apetece?

RM — Tem umas que eu acho engraçadas. Sabia que você ia perguntar isso. É a última pergunta. “Existe um certo mito em torno da sua personalidade, a que se deve isso?”. Rapaz, veja bem. Quando você me procurou o que eu fiz?

PS — Me recebeu super bem.

RM — Pronto, conversei. Você sentiu algum comportamento estranho? Agora eu não faço o que a maioria dos artistas fazem, cortejar o público. Se dar bem com jornalistas, decorador… Público de arte é gente classe média alta pra cima, é um negócio bem subalterno. Se for falar de mercado de arte, aí é horrível. Mas essa esquisitice, eu acho as pessoas esquisitas, eu não me acho esquisito. Isso é intriga. Tem que ter algum método na loucura, né? Tem um método, eu sou um cara meticuloso. Agora a minha meticulosidade não é a meticulosidade padrão. E o mito, na verdade, existe o mito do artista moderno. Um cara assim ou assado, alimentado pelos próprios artistas. Como se o artista tivesse o privilégio de expressar a sua personalidade. Todo mundo se expressa, né? De uma forma ou de outra. Agora isso de ser artista é uma coisa esquisita. Porque todo mundo procura um emprego normal. O cara vai querer ser artista já é meio esquisito.

PS — Uma vez você me mostrou um artigo, que um cara disse que você era um hippie que sobreviveu…

RM — Me chamou de doido, hippie e me chamou de maconheiro. Isso tudo como se tivesse fazendo uma matéria a meu favor. Isso em lugar nenhum do mundo é positivo, né? Isso é ruim pra imagem de qualquer indivíduo. É a visão jornalística padrão, os caras querem a história pessoal do artista. Na verdade não têm interesse na arte. Eu acho isso uma deformação. Mas eu entendo. Entendo e não entendo. Porque desde que eu vivo assim que acho que as pessoas me acham meio esquisito. Então, deve ser, né?

PS — E nessa ideia de arte contemporânea, onde entra a performance que tem sido valorizada como uma expressão…

RM — Eu acho isso uma deformação, é como se o cara trabalhasse com isso, performance, vídeo, instalação, como se com isso ele fosse moderno por si só independente do teor do trabalho. E isso não é verdade. Acho que isso tem muito de moda. É a expressão dominante. Desenho, pintura, é muito antigo, né?

PS — O que você acha de nós estarmos dando ação a alguns de seus desenhos?

RM — Eu acho curioso. O simples fato de você me procurar, eu acho positivo, quer dizer, meu desenho despertou a sua atenção. Ao mesmo tempo, eu acho engraçado porque o pessoal mais novo que não me conhece tem mais interesse nos desenhos antigos. Eu acho curioso isso. Eu acho positivo. O uso que você vai fazer desse material vai depender da sua invenção. Em tese você poderia até fazer um vídeo me esculhambando, pegar o material e montar de um jeito e me fazer de um aloprado. Eu estou correndo esse risco. Eu acredito que não é o caso, mas poderia. Mas paciência, é a sua interpretação. Porque se você faz um vídeo muito bom, eu não posso me vangloriar e dizer “Olha, Pedro fez um vídeo arretado inspirado na minha obra”. Isso seria uma babaquice, entendeu? Se de alguma forma os desenhos lhe estimularam, isso é bom. Isso é positivo. Agora o que você vai fazer com isso, aí o problema é seu, já não é meu.

PS — Mas lhe preocupa?

RM — Eu queria que saisse um vídeo legal. Bem feito, enxuto e tal, ganhasse prêmio em festival… Que desse uma visibilidade ao meu trabalho. Não uma visibilidade massiva como se o cara estivesse procurando os holofotes. Como uma coisa específica, um desenho que o cara faz ali e você se interessou. Eu vejo assim, seria bom.

PS — E nesse sentido quando você fala que o exercício já é o que lhe dá prazer, o que é importante, e essa coisa de não cortejar a mídia ou o circuito da arte… Como isso impacta sobre a sua manutenção como artista?

RM — É difícil, porque eu vendo pouco. As pessoas que têm interesse em arte, em desenho, conhecem meu trabalho. Mas vender, prestígio, essas coisas… E acho também que se eu esperasse por isso seria uma idiotice. Já que eu não faço para agradar a essas pessoas, o que eu posso esperar delas? Nesse sentido eu nunca pedi licença ao sistema de arte para desenhar, eu fiz por conta própria. Então eu pago um preço. Mas, realmente como eu lhe disse, eu desenho por prazer. É uma coisa que eu gosto de fazer, custa caro. Mas é bom.