Quem tem medo do Bicho-Papão?

Toda criança um dia já temeu a figura do Bicho-Papão. A ideia de que um justiceiro puniria as crianças por seu mau comportamento comendo-lhes alguma parte do corpo na calada da noite já amedrontou a todos em algum momento da infância. Porém, ao perceber as claras distinções entre a fantasia e a realidade, meninos e meninas deixam de acreditar na existência desse ser mitológico, cientes de que em seus armários não há nada além roupas.

Entretanto, ao amadurecerem um pouco mais — normalmente quando o jovem começa a trabalhar — , aqueles que estavam certos de que o Bicho-Papão era apenas parte de seu imaginário fantástico, percebem que a criança que um dia foram eram mais lúcidas do que pensavam. Percebem que o Bicho-Papão é uma realidade que também assombra os adultos. Com os primeiros salários, esses recém-adultos descobrem que há, de fato, um monstro aterrorizante que se alimenta de uma parte valiosa deles; mas, diferente do que imaginavam no passado, ele não habita seu armário. Na verdade, o habitat do Bicho-Papão é a sua carteira e conta bancária, pois delas tira seu recheio vital, o dinheiro.

Esse monstro sempre se dedicou com especial zelo aos brasileiros. Sempre tivemos a certeza de que ele voltaria a aparecer na noite seguinte e nunca houve motivos para duvidar disso. Porém, ao nos tornarmos adultos, deixamos o carinhoso apelido de Bicho-Papão para chamá-lo de Inflação, pois compreendemos a seriedade do que é o constante empobrecimento generalizado das pessoas. Lutamos contra ele de diversas formas, e fomos derrotados dia após dia por muitos anos. Com o Real isso mudou. Hoje, os mais velhos podem contar aos seus filhos — com a dignidade de um herói homérico — o que foi a empreitada brasileira de combate a esse monstro devorador. E, por certo tempo, pudemos dizer que ele estava dominado.[1]

Contudo, sabemos que apenas diminuímos a voracidade do assombro inflacionário, e que pelos últimos anos tivemos que continuar lutando contra ele que constantemente rompia o teto da meta[2]. Vivemos entre os anos de 2012 e 2016 uma inflação acumulada que superou 40%. Nesse meio tempo, ultrapassamos o teto da meta em trinta e dois meses, mesmo quando as tarifas de energia e os preços dos combustíveis estavam imprudentemente manipulados.

No entanto, os brasileiros amanheceram nessa sexta-feira com uma notícia que lhes causou estranheza: no mês de junho o Bicho-Papão esteve adormecido. Esse deslize cometido pela fera ainda devolveu aos brasileiros 0,23% do poder de compra em relação ao mês de maio. Pela primeira vez em onze anos, o simples fato de ser brasileiro e ter um patrimônio na moeda nacional permitiu a todos ser um pouquinho mais rico do que se era antes.

A recente notícia de que o Brasil teve uma deflação no mês de junho foi muito alardeada por jornalistas que estiveram desatentos àquilo pelo que passou o País nos últimos anos. Tentou-se na mídia incutir nos brasileiros um temor em relação ao fenômeno que é inédito nessa década, portanto, pouco compreendido. Afirmaram num primeiro momento que a deflação seria uma faceta da retração no consumo, desencadeada pela nossa contínua recessão. Entretanto, ignoraram que estatisticamente nossa deflação foi carregada por uma redução nos (1) preços dos alimentos, que ocupam em média 26% do orçamento das famílias, sendo que a produção agropecuária brasileira cresceu 13,4% no primeiro trimestre; (2) custos de habitação, muito influenciados pelas reduções nas tarifas de energia e; (3) custos de transportes, carregados pela baixa no preço da gasolina.

A recessão no País em momento algum conteve a inflação. No ano de 2015, o PIB brasileiro retraiu em quase 4%, mas a inflação não viu obstáculos ao ultrapassar os dois dígitos. Deflação, assim como a inflação, é um fenômeno monetário, diretamente relacionado às políticas de oferta de moeda no mercado — e sabemos que as políticas de 2017 diferem daquelas praticadas em 2015.

Podemos concluir que a nossa deflação foi uma ocasião de real enriquecimento da população, já que a redução dos preços ampliou o poder aquisitivo do brasileiro. O alarde desproporcional sobre esse fato talvez seja apenas a expressão de uma síndrome de Estocolmo daqueles que por muito tempo foram aprisionados pelo Bicho-Papão. Entretanto, assim como nós pudemos dormir tranquilos nesses breves trinta dias, podemos ter certeza de que dormirão tranquilos pelos próximos dez anos aqueles que adoram seu algoz, a inflação.


[1] Leia em 1º de Julho: o nosso verdadeiro 15 de Novembro um pouco sobre essa história.

[2] Instaurou-se em 1999 o Tripé Macroeconômico, fundando os três pilares estabilidade econômica brasileira: produção de superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação. Esta última consiste no estabelecimento uma meta de inflação a qual o Banco Central tenta atingir, limitada por um valor máximo chamado de teto.