ATÉ A COCA-COLA PODE SER AZUL.

Ou como rótulos não importam

Há palestras, livros, cursos, e o que mais se pensar, para te ensinar a ser o que se precisa ser em cada situação da vida.

Aja assim numa entrevista de emprego, aja assado em um tribunal, só fale quando for perguntado na sala de aula, não sorria em um velório, sorria mais em um evento, não faça barulho depois das dez, fale menos em uma entrevista.

As regras são inúmeras e cada um inventa uma a sua maneira, para vendê-la como se fosse a certa. E as apresentam com um know-how de quem já passou pelo vexame de não ser o que esperavam que fosse.

A falsidade com que esses momentos efêmeros nos fazem agir chega a ser inacreditável. Viramos atores de nós mesmos, interpretando os papéis que querem que sejamos.

E isso só dura pelo tempo exato dos atos, passado este momento, depois você volta ao seu normal e vai ser feliz – ou não.

O problema é que sempre parecem querer te impor uma característica que não é sua, te obrigando a “vesti-la” como se fosse. Esse é o jogo, e ai de você se pisar fora da faixa. Aí é eliminação.

Lembro de certa vez que uns amigos homossexuais do meu irmão vieram passar carnaval aqui em casa. Depois. de brincarmos o carnaval por alguns dias, disseram para minha namorada que eu era gay, que eu não tinha me descoberto ainda. E ela veio possessa pra cima de mim, como se aquilo fosse um erro meu.

Erro? Que erro? Me descoberto? Me descoberto como? Onde? Com o que? Com quem? Que papo era aquele?

Eu parei para pensar de onde vinha aquela certeza deles e o horror da minha namorada.

Poderiam ser os beijos que dou no rosto dos meus amigos? Os Abraços apertados e longos? Talvez não manter um tom de voz constante, deixando-me levar pelo calor do momento? Quem sabe meu livre-dançar? Minha eloquência? Será que de algum modo eles pensavam que ser mais emotivo, afetuoso, terno ou sensível me tornava gay? Ou devia ser isso tudo junto?

Só que na verdade, a questão era bem simples: Eu estava sendo eu a todo momento sem me preocupar com o que iam pensar de mim, o que meu rosto barbado, meu corpo peludo ou meu órgão fálico no meio das pernas queria dizer. Eu estava livre, não havia porque eu interpretar qualquer papel que a sociedade me requeresse.

E eu ser eu, daquele jeito, queria dizer que eu era outro, mesmo sendo eu. Difícil, né?

Até quando vamos nos agarrar em padrões para enquadrar Homo, Heteros, bissexuais e etc? Será mesmo que a diferença entre sexo e gênero ainda não ficou clara? E até quando a identidade estará marcada por um habitus característico de determinada “cisgeneridade”?

Parece ser anacrônico, rotular qualquer indivíduo com uma identidade “X” só por encher o copo de cerveja e falar de futebol – tão sentindo o cheirinho de hepta? -, assim como dizer que alguém é “Y” por tomar um cosmopolitam e falar sobre o look da Gisele Bündchen na abertura das olimpíadas – que por sinal estava di.vi.no.

Pior ainda é achar que alguém quer assumir o papel social do outro. É tão difícil ver que o indivíduo, na verdade, só se quer ser o que convém, quando convém?

E isso vale para relacionamentos também… Não parece retrógrado demais acreditar que por ser homossexual não se pode estar um relacionamento heterossexual? Seria tão mais fácil só compreender que naquele momento o coração bate mais forte por um indivíduo que se identifica como oposto. E só. Cabe somente a quem está amando – e a mais ninguém – dizer se isso tem influência ou não, com seu interesse até então ter sido só por indivíduos identificados como iguais.

Trocando em miúdos, essa história de “ainda não ter se descoberto”, é completamente normativa, regulamentar, estatutária e acima de tudo: CHATA!

Pode ser que o momento de resolver se descobrir não tenha chegado; ou pode ser que já tenha acontecido, mas no momento, é assim que se quer ser, é aquela pessoa que se quer ter. E isso não quer dizer que a pessoa seja outra, ou queira ser outra, ela é o que ela é.

A expressão do gênero, seja lá qual for, é o indivíduo quem decide, só quem pode decidir qual vai ser a do momento é quem vive o momento.

Vide o caso da Coca-Cola no Festival Folclórico de Parintins, a embalagem pode até ser azul, mas nem por isso ela deixa de ser Coca-Cola. Ela só é Caprichoso, por um final de semana e nada mais. Foi ela quem escolheu assim. E ninguém liga

Esquece o rótulo, então. Esquece a capa e a embalagem, o que tem por dentro sem dúvida é muito melhor